08 de julho de 2026

Ocaso


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Em meio ao rebuliço, ao intenso vozerio, ela chega, pousa no fio e olha os muitos pares que se entregam a voos rasantes e mútuas saudações; observa os que, alegres, se despedem do dia. E canta. Seu canto acompanha o de todos os outros, mas há nele uma entonação diferente, menos vibrante, embora o timbre da voz soe mais agudo, mais estridente: um chamado, não uma saudação. Está aflita, preocupada, quase triste, disso não há como duvidar.

As maritacas revolvem a melancolia da tarde. Surgem como vendaval caloroso, estrepitoso foguetório verde a semear alegria por todos os oestes, e nortes e suis... Fazem-me pensar que desconhecem a palavra tristeza, não têm a mais mínima noção do significado de desalento, e nem suspeitam da existência de saudade ou nostalgia.

Contudo, hoje, essa maritaquinha solitária quase se confunde com os tons - ainda vivos, sim, mas decrescentes - do crepúsculo. E gira e pende a cabecinha para os lados, a perscrutar continuamente possibilidades de luz, nos 360 graus que se estendem à sua volta.

Não pude continuar ali, observando-a, esperando e torcendo por e com ela. Outros chamados me convidavam a entrar. O marido chegara, queria recebê-lo, abraçá-lo, sentir sua presença.

Outros pores - e nasceres - do sol vieram, e veio o ano novo, e algumas pequenas viagens...

Hoje, em meio à costumeira algazarra que aqui aclara os púrpuras e violetas da tarde, um canto definitivamente singular sublinha neles tons de ocaso.

Pousada no fio, corpo coberto de penas muito verdes, cabecinha móvel e olhar atento a qualquer possível (mesmo que improvável) chegada, lá está a maritaquinha. Veio com o grupo, como tem vindo sempre, mas parece não pertencer mais (pelo menos, tão intimamente) a ele. Conhece agora muitos vocábulos novos. Não esqueceu a palavra esperança, mas aprendeu outras, antes insuspeitáveis...