08 de julho de 2026

O delegado


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Quatro ou cinco rapazes fazem hora na porta da loja, quase na esquina da Praça Sabino Loureiro. São comerciários que costumeiramente chegam antes de as lojas se abrirem e ficam por ali, fofocando, enquanto suas colegas se reúnem lá perto do coreto, e exercem a arte de trocar ideias.

É quando se aproxima do grupo o velho com sua indefectível vestimenta: terno, gravata, chapéu, bengala. A chegada da figura quase exótica não constrange:é conhecida de todos, naquela região da cidade.
– Bom-dia.
– Bom-dia.

Bom-dia, sô Chico Franco.
– Bom-dia, meninos. Estão indo para o grupo escolar?
– Quem dera, sô Chico. Estamos indo é camelar atrás de um balcão.
– Que pena! Lugar de menino tem de ser na escola, correndo atrás de conhecimento...

Como acontece costumeiramente, um dos rapazes provoca.
– O senhor ficou sabendo que entrou ladrão na casa do delegado?
O homem velho já repetiu a história muitas vezes para aqueles jovens e para outras pessoas. Mas não se lembra disso.
– Fiquei sabendo lá no salão do Eurípedes Barbeiro. Está todo mundo dizendo que o ladrão entrou no quarto do Doutor Artur Moreira, enquanto ele dormia. Falaram que ele pegou o revólver no criado-mudo e colocou no colo do Doutor. Depois escreveu um bilhete e deixou no peito da autoridade. Estava escrito assim: não te levo porque não gosto de homem.Todo mundo na cidade está falando isso. Eu tenho até medo de falar, porque pode ser mentira, não é ? E vocês sabem que o Doutor Artur é muito brabo. Ele mora ali na Rua General Teles, acima da casa do Chiachiri e da casa do professor Antônio Peixoto, defronte o beco da fábrica de doce.
– Isso está parecendo história inventada, sô Chico.
– Eu não vi nada, não li nada no jornal. Mas todo mundo na cidade está falando que o ladrão andou na casa inteira, que o doutor só roncava...

Um carro buzina, parece espantar as lembranças do velho, ele se despede.
– Vocês me desculpem, meninos, mas eu tenho de ir. Vou ali na Farmácia América, preciso ter uma conversa com o Altair Ferro. Muito bom farmacêutico! Vão com cuidado. E sejam bonzinhos com a professora, estudem bastante.

Os rapazes se entreolham sorridentes, enquanto o velho se afasta. Antes de dobrar a esquina, ergue a mão direita até o chapéu. Descobre-se ao cruzar com o gari que nem o vê, enfurnado, por inteiro, na sua faina vã de acabar com sujeira das ruas.