Para alguns, óculos proporcionam uma visão melhor do mundo e das coisas. Para outros, protegem os olhos da luminosidade intensa e das radiações solares. Há ainda aqueles que se utilizam dos óculos para disfarçar a cegueira. Portanto, os óculos servem tanto para ver como para vedar olhos feridos ou deformados.
Sempre fui muito míope. Lembro-me perfeitamente do primeiro dia em que pus um par de óculos. Foi uma maravilha. O mundo e seus objetos, antes embaçados e distorcidos, ganharam formas nítidas, brilho e colorido intensos. Eu não me esqueço das frestas dos paralelepípedos por onde brotavam tufos de capim verdinho, dos sorrisos das pessoas deixando à mostra os seus dentes alvos, dos cílios das meninas que ornavam os seus olhos sedutores. De longe , eu podia ler os cartazes de propaganda, as chapas dos automóveis. De longe, eu podia reconhecer as pessoas. Passei a ver um novo mundo sem o tênue véu que o ofuscava. Daquele dia em diante, só tirava os óculos para dormir e tomar banho. Não me importava com o peso da armação e nem me envergonhava do “fundo de garrafa” que se antepunha aos meus olhos. Os óculos faziam parte de meu corpo. Andava, corria, pulava sem sentir o peso da cangalha. Com eles, praticava esportes e, por isso mesmo, corria riscos. Certa ocasião, numa partida de futebol de salão, levei uma joelhada entre o nariz e a testa; a armação partiu-se em duas e as lentes, que eram de cristal, espatifaram-se na quadra. Mas os olhos permaneceram intactos.
Óculos sempre foram partes integrantes de minha vida. Continuam sendo. Só que, agora, não são mais para ver melhor. Troquei as antigas lentes de cristal translúcido por outras coloridas. Elas são de várias cores e matizes: verdes, azuis, douradas, negras, cinzas. Já que não posso ver o mundo e as coisas que me rodeiam, eu os construo em minha mente. Faço-os de acordo com meus sonhos, minha vontade, minha inspiração e minhas lentes. Dou-lhes forma, cor, nitidez, dimensão, vida. E assim vou vivendo na ilusão de que ainda estou com 30 anos, que os anos não passaram e nem passarão. Doce ilusão! Mas, o que seríamos nós sem ela? Sem ela não poderíamos ver a vida com nossas lentes esverdeadas, azuis ou douradas. Sem a “doce ilusão”, a vida seria muito mais amarga.