Era janeiro. E foram muitos janeiros que ela passara... Era tão chuvoso quanto os outros, mas, particularmente, tinha um sabor diferente, cheiro de colheita. Colhera sofrimentos e alívios, fracassos e sucessos, perdas e ganhos. Como qualquer mortal? Provavelmente...
Na verdade, chegara a esta data sem notar muito bem, sem perceber claramente o que estava acontecendo, sem se dar conta... Como um remador em alto mar, remava sem se importar aonde chegar, o importante era manter-se viva, uma sobrevivente.
Saíra cedo de casa, atendera a varias solicitações, enfrentara e não resolvera problemas. Comera qualquer coisa no centro da cidade e já passava das 16 horas quando voltava para casa.
Foi no sinaleiro, alguém mais aflito, não obedecendo, avançou e, por um triz, não se chocou contra seu carro. Ouviu um palavrão acompanhado de um gesto obsceno.” Mas quem estava errado, meu Deus?” Pensou sem tempo para ouvir a resposta.
Em casa, ombros arqueados, coração apertado. Foi jogando a bolsa sobre o sofá. Da cozinha vinha um aroma gostoso de café. Atravessou rapidamente a porta. Sobre a mesa havia bolo sem brilho, rosca, pão fresquinho, broa...
Ouviu um uníssono grito: “Surpresa!”. A irmã percebendo-lhe a tristeza disse: “Me dá um abraço”, estendendo-lhe os braços. Somaram-se a elas outros braços e abraços feito comemoração de gol em futebol. Ela se sentiu aconchegada e confortada.
Foi um café da tarde memorável, recheado de carinho e afeto. A conversa seguiu animada. Depois, chegaram do trabalho os filhos contando lorotas e fazendo-a encher os olhos de admiração:
– Mas sabe, tio, tem aquela vez que a mamãe levou a gente pra cortar cabelo no SENAC...
Era outra história...