“Um sangue caprichoso escorre pela obra de Irène Némirovsky. Subterrâneo ou aparente, esse vinho febril transforma os cães em lobos, os abandonados em assassinos e as moças em mulheres.” Este é um trecho do prefácio de Calor do Sangue, assinado por Olivier Philipponat e Patrick Lifnhardt, organizadores dos manuscritos de Irène Némirovsky. Ambos empreenderam trabalho parecido ao de Benjamin Moser sobre Clarice Lispector: refizeram itinerários geográficos, emocionais e literários, em busca de um perfil detalhado da escritora francesa de origem judia. Clarice e Irène nasceram na Ucrânia e criaram-se em outros países.
Calor do Sangue impressiona em pleno começo de século 21, depois de ter permanecido dentro de um baú por sessenta anos: ele guarda a marca da atemporalidade, o que distingue o grande ficcionista, sempre acima do período em que viveu. A autora tinha perfeita consciência do que significava isso. Os biógrafos encontraram num de seus manuscritos a seguinte observação: “Tentar fazer as coisas da melhor maneira possível, escrever sobre assuntos que possam interessar às pessoas em 1952 ou 2052”. Pois ela conseguiu realizar sua proposta de arte perene porque voltada àquilo que é essencial aos seres humanos: seus sentimentos, suas pulsões.
A narrativa de Calor do Sangue começa com uma menção ao outono e segue com outra espacial, delimitando a pequena e rural Issy l’Evêque, que já fora cenário de romance anterior, também de publicação póstuma, Suite Francesa. Ao longo da saga, mudam as estações do ano, mas a aldeia permanece como contexto de personagens e situações. Quem conta a história, em retrospectiva, é Sílvio. Esta voz masculina, primeira pessoa usada de forma magistral pela autora, é o fio condutor de toda a saga que se passa no interior da França dos anos 1930, mas poderia perfeitamente situar-se na mais cosmopolita das metrópoles do nosso tempo. Cria-se um presente harmonioso, a ser rompido por um assassinato. Assim, uma linha do romance obedece ao suspense policial que busca responder à pergunta: quem matou Jean? A outra, muito mais interessante e profunda, esboça retratos dos personagens, coloridos pelas tintas das emoções, algumas vezes as mais primárias. Unindo os dois segmentos, no plano do discurso encontra-se aquela que talvez seja a mais preciosa qualidade do estilo de Némirovsky: as frases lapidadas que traduzem a observação aguda daquilo que poderíamos chamar de nossa humanidade. Vamos destacar algumas, colhidas ao longo dos capítulos.
“O relógio batia como um coração sem remorsos... A gente às vezes se engana, põe a máscara do amor no primeiro que aparece e no rosto mais vulgar... Tinha perdido a insolente segurança da felicidade... Objetos trazidos pela água. Opa! Aparecem, e no turbilhão que fazem, quantas velhas lembranças! Depois mergulham, e são novamente esquecidos por mais dez anos...”
Esta última frase poderia sintetizar o enredo, que através das rememorações do narrador opõe presente e passado, aparência e essência, mentira e verdade, ilusão e realidade, vida e morte. Principalmente novo e velho. O título faz referência ao calor da juventude. Todo um sistema analógico é desenvolvido pela escrita a partir da palavra calor, associada ao vermelho (do sangue) e cinza (da velhice). As cores, nos seus tons e subtons, desfilam na fala do narrador e na paleta do tempo. Num dos últimos capítulos, o solitário, frio e ensimesmado Sílvio faz um balanço dos seus já distantes rubros anos e diz: “Mas, aos vinte, como eu queimava! Como esse fogo se acende em nós? Ele devora tudo, em alguns meses, alguns anos, algumas horas às vezes, e então se apaga. Depois, é só contar os estragos.”
De brasas a cinzas, é amplo o leque semântico que vai acumulando sentidos e elevando a temperatura, para depois baixá-la subitamente, na recorrente metáfora que associa vida e calor.
Numa explícita opção pela juventude enquanto desejo, mas opondo-lhe a falta de sabedoria que só o tempo confere, a narrativa se encerra abruptamente, com final aberto, o que manteve por algum tempo os editores indecisos quanto ao gênero onde inseri-la. Romance ou novela? Optaram pelo primeiro ao descobrirem, também nestes originais guardados por tanto tempo, que Irène Némirovsky questionava a letargia em que havia recaído o romance no ocidente. Quando fragmentou algumas partes da história, e deixou em aberto a principal e as paralelas, criava, como outros que estavam também escrevendo em diferentes latitudes, o novo romance, com a dinâmica que seria fixada por cânones como Catherine Mansfield, Virgínia Woolf, James Joyce, Clarice Lispector. Em língua francesa foi a voz profética que primeiro disse que era necessário mudar. E mudou.
Serviço
Título: Calor do tempo
Autora: Iréne Némirovsky
Tradução: Vera Gertel
Editora: Record
Páginas: 144
Quanto custa: R$ 34,90
Onde comprar: www.record.com.br