09 de julho de 2026

O Outro é o meu personagem


| Tempo de leitura: 2 min
A ficção está presente, desde que nascemos, quando voltamos o olhar para o rosto da Mãe. Ali vemos o alimento, o Sol, a Lua, o Amor, o alento, a sabedoria, a salvação, a cura para toda e qualquer dor. A Mãe é o espelho ao qual nos miramos, talvez por toda a vida, o que é uma eternidade.

Por ser a primeira fonte do nosso precário conhecimento do mundo e das coisas, a Mãe encarna uma miríade de personagens: a Fome, a Treva, a Esfinge, a Dor, o Desamparo, a Ignorância, a Desgraça, o Juiz que nos atira no maior tormento. E tudo na eternidade de um instante.

A Mãe é a nosso primeiro personagem. Outros personagens vão surgindo, como na música “samba de uma nota só”(“mas a base é uma só”). O Pai, p.e., é apresentado aos poucos pela Mãe, com o colorido, a substância, a imaginação, a generosidade (ou a falta dela) da Mãe.

Com estas primícias criamos a ficção de um Casal, com o qual montamos a cena, o drama, um enredo, um romance, ou uma saga. O enredo pode ser harmônico e pleno de contentamento, como pode ser “o inferno na terra” . O Casal que guardamos dentro de nós pode ser fonte de prazer ou fonte de angústias, ou os dois ritmos em alternância.

O Mundo vai se ampliando. Irmãos, quando existem, são personagens importantes. Reconhecemos, no contato com eles, gradações mais matizadas de sentimentos, diferentes dos radicais, tipo vida-e-morte, vividos na relação com o Pai, a Mãe e com o Casal.

Irmãos são personagens entre divertidos e diabólicos. Às vezes somos nós os capetinhas sádicos às vezes somos anjinhos que velam e são velados no contato mais próximo, e nesta convivência vamos desenvolvendo sistemas de proteção e defesa, adquirindo novos conhecimentos e “trocando” ignorâncias em relação ao Mundo “lá fora”.

O vínculo fraternal é ensaio de diferentes aventuras, até que surja o nosso Par, único pela eternidade, ou variados, alternantes ou simultâneos.

O Sexo, esta “emoção pulsional”, que tem sua fonte no corpo (nosso velho companheiro desde o nascimento), colore todos os personagens que vamos conhecendo, ao longo da vida. Através das vivências (ou fantasias) que tivemos e que teremos (costuma-se sonhar e viver, mais do que viver e, depois, sonhar).

Ele, o Sexo, mais parece um Senhor Personagem, tamanha liberdade toma com os nossos sentidos, e mais nos domina do que o dominamos.

O Outro é o meu personagem assim como, conscientemente ou não, tenho cá minha “persona”. Falar na primeira pessoa do singular tem lá suas ambigüidades.

O “Outro” pode ser até um E.T., o “Outro” é também “eu”, aquele que não reconheço em mim, em tonalidades de azul-infinito, azul-ferrete até o azul-sombra azul que mais esconde que revela - o sempre infinito azul.