Na época áurea do Ziraldo, saiu no jornal uma tira de sua autoria. Em três quadrinhos ele tocou num ponto profundamente humano. Em síntese: um mendigo pedia esmolas numa esquina qualquer. As pessoas passavam e depositavam em seu chapéu algumas moedas ou notas de pequeno valor. A expressão do mendigo era de profunda tristeza. Súbito, passa um personagem e, em vez de lhe dar dinheiro, dirige-lhe a palavra com um largo sorriso dizendo:
– Bom dia!
O último quadrinho mostrava o mendigo sorrindo por causa daquela saudação. Afinal, ele fora reconhecido como um homem que merecia um cumprimento, e não mais uma esmola. É isto: ele não recebera uma esmola, mas um cumprimento de alguém que reconhecera nele a condição de ser humano.
Interessante isto, não?
Vale até uma brincadeirinha curiosa dirigida a você, leitor, notadamente se tiver mais de 40 anos. O que (sinceramente) lhe agradaria mais: sua esposa lhe dizer que o ama ou seu superior imediato reconhecer que você fez um belo trabalho e que merece galgar um degrau a mais na escala hierárquica da instituição onde trabalha?
Com efeito, o amor continua sendo tema preferido dos ingênuos. “Ingênuo” no sentido de puro. Foi um dos grandes temas do filósofo grego Platão. A psicanalista e escritora Betty Milan (Veja, 10 de fevereiro 2010, página 101) afirma que “o amor e suas variantes, o sucesso e o insucesso no amor, a fidelidade e a infidelidade são temas eternos. O que muda é a forma de lidar com o sentimento amoroso.”
Bonito, mas pouco prático!
Uma semana após, na mesma revista, nas páginas amarelas, Jerome Kagan, um dos grandes psicólogos do século XX (que está de volta à moda), resume um seu pensamento: “A criança, para ser saudável do ponto de vista mental, tem de acreditar que um dos pais a valoriza. Pode ser a mãe ou o pai. E observe: usei o verbo valorizar, não o verbo amar. A criança precisa se sentir valorizada.”
Pensei muito neste pressuposto; entendi e aceitei o seu conteúdo.
Uma criança valorizada na escola, no lar, entre amigos, no recreio é sem dúvida alguma muito mais feliz e CAPAZ INTELECTUALMENTE que aquela outra criança mimada ou simplesmente crente no amor que lhe dedicam pais, professores, amigos.
O amor é tema dos românticos. A valorização é assunto dos racionais. Os românticos perdem-se na bruma de seus vislumbres, os racionalistas calam para pensar, pensam para agir, agem para acertar. O romântico, enquanto crê que o amor inefável lhe embala o coração, o realista analisa e vai ao encontro de veredas que lhe possibilitam a autossuficiência.
Estaria aí uma possível dicotomia entre amor e valorização, amor e reconhecimento?
Continuemos nosso raciocínio.
Ser amado é bom. Ser reconhecido é melhor.
Ser amado implica a pressuposição de que duas almas se entendem, se harmonizam num universo de desencontros. Nada contra, é bonito! Mas ser reconhecido leva a criatura a um estado de êxtase, de vitória por méritos próprios, numa época em que sofremos a destruição gradual do amor-próprio.
Não se trata de opção: “eu prefiro ser amado!” ou “eu prefiro ser reconhecido pelo que fiz, falei, agi”. O processo se dá simplesmente sem que se possa mexer esta ou aquela pedra no tabuleiro de xadrez das relações humanas em sociedade. O que percebi, talvez tardiamente, ou talvez no momento exato de minha vida, é que o reconhecimento tem valores pragmáticos na nossa vida, enquanto o amor é uma espécie de ópio.
Em Caçador de pipas, “Baba, o pai, amava seu filho Amir, mas queria que ele fosse um bravo, um valente e não um escritor. O resultado foi que, com todo o amor, Baba criou um filho ansioso e que se sentia rejeitado pelo pai.” (J.Kagan)
Dá o que pensar, não é mesmo?
O excesso de amor leva à ansiedade. A dose certa de valorização, de reconhecimento leva ao equilíbrio interior.
Os exemplos pululam na literatura de ficção e na vida real.
Repito, não se trata de optar por este ou aquele processo. Não se trata de deixar de amar só para valorizar. Trago ao leitor, hoje, pontos de reflexão sobre os reais, eficientes e eficazes valores do reconhecimento.
Você ama Cristo como ama seu filho, ou você O reconhece como o mais influente dos homens que nasceram nos últimos dois milênios?
Os dois?
Então, é melhor iniciar um curso de Filosofia!