08 de julho de 2026

Tarde de domingo


| Tempo de leitura: 1 min
Para alguns um problema. Para mim, os pombos voando em revoada representavam naquela tarde modorrenta de domingo só beleza singela.
– Olhe só, Lu, quantos pombinhos para você correr atrás.

O menininho loiro que estava em cima da concha acústica estendeu os bracinhos e abriu um largo sorriso. O pai logo o colocou no chão e ele dava gritinhos de prazer quando as aves alçavam voo.

De repente, a criança estacou. Um choro quebrou aquela brincadeira feliz. — —Mamãe.

A mãe correu ao seu encontro. Notei que havia acontecido algum desarranjo. O menino se recusava a andar e a mulher dizia:
– Vamos, você tem que andar agora

E para o marido:
– Será que tem um banheiro na farmácia?

Pensei na figura importante da mãe e recordei os meus pequenos que também gritavam por mim nas horas de aflição.

Hoje, homens feitos, são ainda meus garotos. Não faz tempo, assistia TV na sala e ouvi o mesmo grito vindo do quarto. Como aquela mãe, corri também e deparei-me com uma figura pálida, tremendo, com os pés gelados sem qualquer motivo aparente. Com o coração sobressaltado, envolvi-o em meus braços sem atinar que atitude tomar, aqueci-o com meu próprio corpo. Passou, passamos...

O tempo modifica nosso corpo e, às vezes, nossa alma. Mas não deixamos de procurar colo em momentos difíceis. Hoje, talvez, esteja um pouco embaralhado: quem faz o papel de quem? Só sei que o amor permeia essas relações e, humanos que somos, estamos sempre necessitando de acolhimento ou oferecendo refúgio. Nem tudo é desolação, somos todos filhos, hoje você... amanhã, eu...

Corra, Lu, corra atrás dos pombinhos... Tomara que existam sempre braços acolhedores como os de ‘mamãe’ para você. Hoje você... Amanhã ela...