Quando fomos escolher um carro, a despesa com a compra e reforma da casa haviam consumido todas as chances de sobras. Sobrou para um fusca 1980.
“Um carro com 30 anos de idade? Absurdo!” Imaginei a princípio.
Andamos, andamos e decidimos pela prudência financeira - e pelo bem de nossos próximos meses de renda comprometida -, ficar com o carrinho. Sem dívidas, pelo menos, o carro seria nosso e não de um banco qualquer!
Pequeno, limitado no espaço interno, motor certinho, mas restrito nas respostas. Truculento, percebia cada buraco das ruas como se fosse uma cratera de vulcão. E enviava a resposta às nossas costas e pescoços. Nada muito cômodo, devo admitir.
Aos poucos fomos acostumando com o carrinho, e com a feliz idéia de pelo menos termos reconquistada nossa autonomia motora e livrado nossos horários e itinerários do rígido transporte coletivo.
Fusca pelas ruas, pelas estradas das proximidades, começou o bichinho arredondado a se firmar como um membro da família. Sem o banco traseiro, virava facilmente uma pick-up. Sem o dianteiro também, quase um caminhãozinho, pronto para carregar de tudo: sacos de estopa ou de cimento, com a mesma facilidade. Peso nenhum gemendo o reduzido e valente motor.
Volta de ranchos ou de sítios com apenas alguns resquícios facilmente removidos com água. Nenhum arranhão de árvores ou arbustos frondosos afetando sua poderosa lataria. E com uma vantagem a mais: acompanha qualquer carrão importado (não na velocidade, é claro) a qualquer lugar, e volta!
Não raro acabamos o fusca e minha família iluminados pelas glórias do heroísmo, ao transitar por caminhos nunca dantes percorridos. E dá-lhe lama, dá-lhe areia, dá-lhe mato. Nada detém o fogoso carrinho.
Meses atrás o peso dos anos e o desgaste natural trincaram parte de seu coração.
- Só trocando metade do motor para funcionar direito, dotô diagnosticou o mecânico.
Pouco dinheiro disponível, tive o alento de confiar na sorte e no fusca, claro de manter o bichinho andando, pelo menos pela cidade. Entrando e saíndo semanas e meses e o herói lá, firme, resistente às dificuldades.
Com o tempo fui aprovando as novidades: com o motor mais fraco, nem precisei mais me preocupar com possíveis multas, o velocímetro mal chegando aos 60 quilômetros por hora mesmo...
Hoje convivo com o carrinho da família, que minha pequena filha chama de “seu”, como se fosse parte de nosso pequeno lar.
Aos incautos motoristas que não respeitam a minguada lataria amarela ao atravessar por avenidas, sem ao menos olhar duas vezes para o carrinho, parto logo em defesa com meus botões:
- Deixa bater para ver se sobra alguma coisa do outro... isso aqui é ferro puro, enquanto o outro é de plástico!
Para os desavisados que andam em carro 1.0 e olham assustados para o fuquinha ultrapassando na subida, dou verdadeiras gargalhadas por dentro:
- Esquecem-se de que esse motorzinho 1300 é mais valente que o deles!
Motorzinho poderoso, de torque impressionante (repete sempre meu mecânico, sem que eu saiba ao certo o que é torque), sobe até parede, engatado em primeira marcha!
Esse é meu fuquinha. Membro valoroso de minha família e motivo de orgulho. Hoje me considero um verdadeiro fusquéfilo, fuscômano, fuscomaníaco, ou coisa que o valha, mas mesmo que tenha que no futuro partir para outro carro, já decidi de antemão: “O fuca fica!”.