09 de julho de 2026

Mil olhos nos vêem e nos vigiam


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O som era sempre o mesmo. Hoje porém havia qualquer coisa que o deixava em alerta.Fosse o timbre da voz da mulher, ou o arrastar da cadeira mais pesada, ainda não sabia, mas era coisa para se pensar.

Tantos anos morando sozinho naquele quarto de pensão, acostumado a ouvir tantos barulhos, já se acostumara com a algazarra na hora da chegada dos hóspedes e depois ao silêncio que se seguia. Alguns almoçavam por ali mesmo, outros saíam, mas ele sempre preferia sua refeição no quarto, poucos amigos, pouca conversa. Acostumara a perceber os barulhos, a diferenciá-los, a saber quando alguém estava mais nervoso, ou mais infeliz, calmo ou triste. Poucas vezes saía do quarto. Só sua velha irmã vinha, de vez em quando, vê-lo e era tanta ranzinze de ambos os lados que ele preferia que ela não viesse. Suas dores e frustrações eram-lhe companhias inseparáveis. Como todos já lhe conheciam o discurso, evitavam perguntar como ia porque lá vinha uma infindável arenga de lamentações.

Sem perceber achou-se no corredor, encostou o ouvido na porta de onde supôs vir o som. O silencio se fez prolongado. Virou as costas e parecia que mil olhos o vigiavam. Nada do barulho. Sentiu um calafrio percorrer-lhe a espinha. Que diabos era aquilo?

Foi até a cozinha, trocou alguns monossílabos com a velha empregada, quis saber do vizinho do quarto em questão, ela virou-lhe as costas e respondeu-lhe qualquer coisa inaudível.

Resolveu sair à rua, distrair a cabeça, pensou. Há tanto tempo que não fazia isso que o barulho dos carros e o alarido das pessoas o fizeram encolher junto ao muro. Uma criança veio correndo com sua pipa e esbarrou nele; quase teve uma síncope. Voltou a passos largos para casa.

Fechou-se no quarto, ligou a TV, nada de novo diante de tanta violência e desfaçatez, desligou. Tomou um velho livro, folheou rapidamente, encontrou uma página marcada, não se lembrara de ter feito a marca. No quarto ao lado o barulho recomeçou, agora mais forte e quase terrível. O que ocorrria? Quem estava lá? A mesma sensação de ser espionado voltou-lhe. Meu Deus, será que endoidecera?

Saiu em desabalada carreira, procurava alguém que pudesse lhe dizer o que estava acontecendo. Não encontrou ninguém.

Trêmulo voltou ao quarto. Abriu de novo o livro, leu o trecho grifado. Só ele podia entender, era com ele que as palavras falavam e começaram a fazer sentido. Um leve sorriso assomou-lhe no rosto.

Foi até a porta do quarto vizinho, abriu-a, lá estava a resposta que havia procurado há anos, tão simples, tão clara, tão fácil. Com certeza a partir de hoje seria um novo homem. O cheiro do jantar já se podia sentir. Hoje comeria com os outros hóspedes.