08 de julho de 2026

O criado


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Reencontro um velho amigo, o Antenor Oliveira, na abertura da temporada 2010 do Laboratório das Artes. Depois de nos deleitarmos com as novas pinturas e gravuras do acervo do Lab, ao som da música e dos belos improvisos jazzísticos do sax de Fausto Henrique Oliveira e das cordas de Victor Rocha Pólo, tentamos colocar as fofocas em dia, depois de mais de um ano sem notícias mútuas.

Foi ele que puxou o assunto, me disse que encontrou com o criado do Chico Franco na praça Barão. Ele trajava a mesma indumentária do patrão, um velho terno branco de linho 120 comprado nos tempos da Casa Hygino, quando a Luiza ainda era empregada da loja. Ofereceu um café para o pobre homem, cansado de andar ladeira acima e abaixo atrás das vontades do Chico, se abalando desde a estação de ferro ao centro. Entraram no Café Globo, pediram dois expressos com açúcar. O criado, esperando o café, disse que já tinha caminhado muito, da Vila Nova até a Cidade Nova, atrás da Casa Vitória, daqueles espanhóis Granero. O patrão tinha exigido que ele buscasse querosene, sabe lá para quê, e um fumo de corda pra pitar.

Quando chegou lá, qual não foi sua surpresa, o campo de futebol do Fulgêncio de Almeida tinha sido demolido, nem sinal da Casa Vitória. No lugar, tinham construído um prédio modernista para a Prefeitura, que era todo de concreto armado, tinha um vão livre do tipo daquele museu de São Paulo, o MASP. Mas todo o quarteirão do prédio tinha sido fechado com cercas, parece que um burocrata, sem nada para fazer resolveu imitar campo de concentração, que é para o povo ficar longe de quem manda. E emendou, “parece que o sujeito, sem nenhuma idéia nova de governo, chuta cones, proíbe grito na feira-livre e fica bisbilhotando quem gosta de pornografia no horário de serviço. A educação tá lá embaixo, a saúde uma desgraça, mas a prioridade é vigiar os outros. Deve ser influência desse tal de BBBesta”.

Enquanto tomavam o café, o criado ia falando, “noutro dia, o patrão cismou de encontrar a vidraçaria do Botelho, era na esquina da rua do Bonde com a Campos Salles, num lugar que tinha sido a farmácia que era do Luz, bem atrás do Museu, eu sentí aquele cheiro de massa de vidraceiro, cheiro bom, de casa nova, não dessas velharias que querem preservar, ninguém tem interesse pela história antiga, pelos velhos, pelas coisas que passaram, até aquele prédio moderno da AEC vai para o espaço”.

Quando terminam de tomar o café, eis que entra o Chico Franco em pessoa. Ele virou para o Antenor e disse: “pode parar de tomar o tempo do meu criado, que ele tem muito que fazer. E o senhor está proibido de usar ele como escada para falar umas verdades para o caudilho. Passe bem”. Dito isso, virou as costas e foi embora depressa na direção do Mercadão.