08 de julho de 2026

A essência do charme


| Tempo de leitura: 4 min
O charme, o encanto é a arma decisiva, a sedução suprema contra a qual há poucas defesas. Se você o tem, não precisa, em muitas situações, de dinheiro, nem de beleza ou de nome de família. É um dom, concedido apenas para ser gasto, e quanto mais usado mais resta.

O verdadeiro charme é uma aura, um perfume invisível no ar; e, se for visto funcionando, estará quebrado o encanto. É dinâmico, e não pode ser ligado e desligado automaticamente.

Quanto aos seus ingredientes, não existe uma fórmula fixa. Toda uma série de mistérios entra na mistura, mas a magia que ele oferece deve ser total, não se pode ser “quase” ou “parcialmente” encantado.

Numa mulher, o charme é provavelmente mais exigente do que num homem, requerendo uma série maior de sutilezas. É uma luz na face, um ar de acolhimento exclusivo, uma nota de satisfação com a companhia de alguém, mantida de maneira quase impossível de ser percebida, um pesar discreto na despedida. Uma mulher com charme não acha nenhum homem aborrecido; em sua presença, ele se torna não apenas uma pessoa diferente, mas a pessoa que mais desejaria ser. Uma mulher assim dá vida às suas fantasias mais secretas, acrescentando a necessária convicção à sua antiga suspeita de que é um rei.

É isto: a pessoa que traz consigo a dose certa de charme não provoca no outro um sentimento de ciúme, inveja, despeito ou algo parecido. Quem tem charme provoca nos outros um sentimento de extremo bem-estar. Até parece que charme é coisa de anjo.

O charme no homem, suponho eu, é a sua capacidade de conquistar a cumplicidade de uma mulher no reconhecimento sincero de sua singularidade. Mais uma vez, é uma questão de total absorção, de esquecer realmente que existe alguém mais, pois nada atraiçoa mais facilmente do que a sugestão de um olhar errante. A devoção silenciosa é uma bela coisa, mas raramente basta; o que conta é o que o homem diz, as declarações audaciosas, os voos da imaginação, a revelação de virtudes secretas.

Um homem encanta-se pelo que vê: a mulher encanta-se pelo que escuta de modo que nenhum homem deve se preocupar com sua idade. Como disse certa vez o envelhecido Voltaire: “Deem-me cinco minutos de conversa para fazer desaparecer o meu rosto e seduzirei a rainha da França.”

Nós sabemos quem tem charme. Mas pode ser adquirido? A rigor, não, porque é um toque original que tem de nascer com a pessoa. Ou é algo que nasce naturalmente de outra qualidade como o simples desejo de tornar as pessoas felizes. O charme não é, por certo, uma questão de aprender truques palpáveis como franzir o nariz ou ter uma voz sorridente.

Sabem o que mais admiro nas pessoas que têm charme? A sua capacidade de escutar, a mais rara capacidade de todas as virtudes humanas além do calor, da sensibilidade e do poder de agradar aos outros. A pessoa charmosa possui uma generosidade sem exigências. O charme gasta-se de bom grado indistintamente em jovens e velhos, no pobre e no rico, no feio, no obscuro, no maçante, no último homem gordo da esquina. Revela-se também no sentimento de naturalidade, de maneiras despreocupadas mas perfeitas, e frequentemente numa graça física que brota muito menos de um incidente da juventude do que uma confiante serenidade de espírito.

É isto também: quem tem charme possui uma serenidade de espírito solidificada.

Alguém disse que o charme na mulher é o açúcar no uísque; o charme do homem é o fermento no pão. Elementos indispensáveis, mas sutis, de pouca e cuidadosa dosagem.

O charme, enfim , é um potentíssimo ato de comportamento, o estender no chão um tapete para outra pessoa, para dar à sua existência um instante de glória. É afim do amor no sentido de se mover sem esforço, espalhando dádivas como se espraia a luz do dia. Cativa completamente, MAS NUNCA É PUNITIVO. Desarma por estar ele próprio desarmado, bate sem ferir, vence guerras sem baixas, embora, naturalmente, não sem vítimas.

No arsenal do homem, o charme é o dardo encantado, leve e sutil como um beija-flor. Mas é ilusório num ponto: como o senso de humor, algumas pessoas pensam que o possuem, e provavelmente não o têm!

Por que estou falando do charme hoje nesta coluna? Porque desconfio que, nesses tempos bicudos, rezaram-lhe ontem sua missa de sétimo dia!