“Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim?”
Carlos Drummond de Andrade
in Resíduo
O que somos? Como surgimos? Somo filhos das estrelas? Ecos do Big Bang? O mistério que envolve essas perguntas é sombra que sempre acompanhou o homem. Há quem afirme que descendemos da luz.
Ficou um pouco de luz
Atualmente, cientistas creem que somos o que sobrou de uma estupenda colisão entre a matéria e o seu exato oposto: a antimatéria.
Pouco ficou deste pó
Mas de tudo fica um pouco
Porque, no Universo, para toda partícula existe uma antipartícula a ela correspondente. Ambas são perfeitamente iguais entre si, mas eletricamente opostas. Como os opostos se atraem, partículas e antipartículas tendem a se aproximar umas das outras. Mas, quando se encontram, em lugar de se completarem, elas se aniquilam mutuamente. Matéria e antimatéria desaparecem na colisão, em magnífica explosão de luz.
Se de tudo fica um pouco
Um pouco fica oscilando [?]
Ficou um pouco de luz [?]
Segundo essa teoria, no começo do Universo, havia uma porcentagem ligeiramente maior de matéria. Quando partículas e antipartículas colidiram umas com as outras, e se aniquilaram, restou a pequena porcentagem da matéria excedente. E essa pequenina sobra, esse minúsculo sobejo de um descomunal cataclismo luminoso somos nós e tudo o que nos cerca.
Pois de tudo fica um pouco
pouco, pouco, muito pouco
Portanto, somos resíduo: o resíduo de uma aniquiladora colisão entre opostos, de uma “titânica batalha de energia entre matéria e antimatéria”. Mas podemos dizer, também, que nascemos de um poderoso Instante-Luz.
Ficou [em nós] um pouco de luz
Ficou um pouco de tudo
De tudo fica um pouco
Filhos da luz e do pó! Isso talvez explique os antagonismos que nos perseguem, e nem sempre nos aniquilam; que nos habitam e habitam o mundo “sob as ondas ritmadas / e sob as nuvens e os ventos / [...] / e sob as labaredas e sob o sarcasmo / [...] / e sob os espetáculos e sob a morte escarlate”...
Há em nós, ao que parece, a mesma dualidade e a mesma assimetria iniciais; a mesma situação de aniquilamento seguida de surgimento; de extinção seguida de conservação; isto é, há em nós, além do perfeito antagonismo, a desproporção entre os antagônicos: nós e antinós em eterna condição de atração, luta e resíduo. Amor e ódio, alegria e tristeza, prazer e dor; céu e inferno, vida e morte, transitório e eterno... duelam, continuamente, “sob tu mesmo e sob teus pés já duros”.
Pois de tudo fica um pouco
[E] de tudo, [luminoso e] terrível, ficou um pouco.