08 de julho de 2026

'Os Mensageiros'


| Tempo de leitura: 3 min
Sinopse: Messengers são os servidores do exército norte-americano, encarregados de dar a notícia da morte de algum soldado à sua família. O sargento Will Montgomery (Ben Foster) acaba de ser nomeado para o cargo e terá como companheiro de trabalho o capitão Tony Stone (Woody Harrelson). Com pensamentos diferentes em relação a como lidar com os familiares dos mortos, eles aprenderão muita coisa um com o outro.Um belíssimo filme que funciona como um Hurt Locker inverso onde a maior tensão não está na guerra e sim no seu impacto.As cenas em que os parentes são visitados são de cortar o coração, assim como a performance de Samantha Morton. Ben Foster se mostra um ótimo ator e Woody Harrelson tem atuação digna de Oscar.

Roteiro original, uma missão delicada e terrível!

É terrível o impacto da presença dos dois soldados, fardados, a bater à porta e a comunicar, com voz impostada e com texto decorado, em nome das autoridades do país, a Tragédia. E vê-los sustentar “a pose militar” em meio às perplexas, iradas, angustiadas reações dos familiares dos soldados mortos em batalha. Impossível não se emocionar.

Cada pessoa, mulher, homem, pai ou esposa, reage de uma maneira pessoal à “mensagem da Morte”. De modo agressivo ou negando o que “compreendem” da notificação, tendo reações somáticas, vomitando, “saindo do ar”.

Vemos também o impacto destas reações nos soldados mensageiros.

Depois da primeira notificação de um deles protagonizado por Ben Foster, que tinha recebido uma medalha por heroísmo e foi afastado do front por ter sido ferido, vamos acompanhando a aproximação afetiva entre os dois soldados, seus dramas pessoais e seus sentimentos frente à dor que provocam ao chegar à casa dos familiares e transmitir a mensagem mortífera.

Alguns antecipam a tragédia ao ver a dupla fardada e não querem ouvi-los. É um filme sobre o luto, e sobre a capacidade variável das pessoas em relação a este sentimento tão doído que é perder alguém que se ama.

Uma guerra vale uma vida humana, mesmo uma só? E são rapazes e moças jovens, vidas ceifadas aos 18, 20 anos, em nome do que? O que levam os pais, a esposa, os filhos, a aceitarem o gesto de alguém amado ir para a guerra? Como justificar a sua morte em uma guerra impessoal, não significativa?

Como voltar a ter uma vida normal depois do impacto da guerra, envolvendo mortes e mutilações de amigos, o esforço inglório (de resultado quase irreversível) para moldar a alma para matar, de maneira justificada, um outro ser humano? De presenciar atos de perversão variados, pessoas com prazer em torturar outros seres, sob a licença legal de serem “inimigos”, seres não iguais, “como se” não-humanos?

Foi a melhor propaganda pacifista que já assisti. Olhar no olho do Mal, ver o estrago que se faz a si mesmo, mesmo se a ação é “legitimada” socialmente, por uma ideia, ou melhor, por um interesse de um grupo que se pretende porta-voz de uma nação inteira.

E há o Medo, este Pavor que invade a alma quando há o “cair em si”, e ver o “inimigo” morto em nome de algo Abstrato, Incerto, Obscuro.

Guerras criam monstros, monstros criam guerras. Ninguém sabe o que fazer com as monstruosidades ao acabar a Guerra. O que fazer, em tempos de Paz, com os fantasmas monstruosos a nos habitar em qualquer tempo?

Reza a lenda que os reis, insatisfeitos com as notícias dadas pelos mensageiros, costumavam degolá-los, como se fossem os responsáveis pela desgraça que estavam, tão somente, reportando.

(Há um Ideal que vale a pena morrer ou matar por ele? Esta pergunta é para nós, país onde não há guerra à vista, embora tantos assassinatos são presenciados, cotidianamente).

O filme ganhou o Urso de Prata 2009 de Melhor Roteiro e o Prêmio da Paz de Berlim 2009, indicado ao Melhor Filme.