09 de julho de 2026

Ex-secretário reforça passado de denúncias


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AUTORIDADE - O ex-secretário de Governo, ex-deputado estadual e ex-prefeito de Apucarana, José Domingos Scarpellini afirma que recebeu denúncias de abuso sexual contra o padre em 1977

O ex-secretário de Governo do Paraná, José Domingos Scarpellini, 60, reforçou as denúncias de pedofilia contra padre José Afonso Dé. O político, que já foi vereador e prefeito de Apucarana (PR) - cidade onde o religioso foi ordenado em 1969 e atuou até 1982 - e deputado estadual por cinco mandatos afirmou que em 1977 o bispo diocesano Dom Romeu Alberti, da cidade paranaense, recebeu uma denúncia de abuso sexual contra o padre Dé e ordenou uma investigação interna do caso. O relato nunca chegou à Justiça.


Segundo Scarpellini, a acusação foi feita por dois comerciantes locais - Delcides Tonini e Odair Pupo - que dirigiam as atividades do cursilho na paróquia Cristo Rei, no bairro Ponta Grossa. No local, padre Dé comandava não só a igreja, mas também o Seminário Menor de Apucarana, onde jovens com idades entre 12 e 17 anos se tornavam internos para descobrir se tinham vocação para a vida religiosa. “Delcides veio me confessar que estava surpreso com as ações do padre Dé. Afirmou que o religioso vinha, sistematicamente, abusando sexualmente de um dos menores do seminário, tendo relações com ele”, disse o ex-secretário. O político, no entanto, contou não ter estranhado a notícia. “Conhecia muito o padre Dé e já havia rumores na cidade sobre ele viver cercado por aquela criançada e sobre as coisas que aconteciam dentro do seminário. Apucarana tinha 40 mil habitantes naquela época (atualmente tem 120 mil). Todo mundo se conhecia e sabia de tudo”.


Os denunciantes, hoje falecidos, nunca procuraram a polícia. No Fórum da cidade também não há registros de indiciamento de padre Dé pela Justiça.


A Diocese de Apucarana afirmou não ser capaz de dizer se houve ou não uma investigação interna, um processo ou a condenação do padre. “De acordo com o Código de Direito Canônico, toda a documentação referente a processos criminais envolvendo padres deve ser incinerada após 10 anos de conclusão e este caso tem mais de 30”, disse a advogada da Diocese Dea Freitas Godoe.


O tempo também não deixou vivo nenhum religioso que pudesse ter testemunhado a investigação. A reportagem procurou três párocos contemporâneos de padre Dé no Paraná. Apenas um deles, padre Egídio De Vini, concordou em falar sobre o assunto. “O bispo foi embora em 82 e já morreu. Assumi a chancelaria da Diocese em 1985 e a partir de então fiquei responsável pelos arquivos. Não sei de nada antes disso e nunca soube de denúncia alguma contra o Dé”, disse De Vini.


A não confirmação oficial, no entanto, não diminui a convicção de Scarpellini de que o processo existiu. “Lembro de ter dito a ele que apenas um procedimento interno da igreja não adiantaria e recomendei que ele procurasse o comissário de menores da época José Antônio Curtis. Não o fiz eu mesmo porque não acreditei que a denúncia pudesse dar em alguma coisa, que a igreja fosse tomar alguma medida. Como não acredito até hoje”, disse o político.


DECEPÇÃO
Scarpellini disse ter mantido contato com os autores da denúncia ainda por muitos anos e que sempre perguntava sobre o andamento do processo. Segundo ele, alguns meses depois de Delcides ter encaminhado a acusação ao bispo Dom Romeu, o comerciante já estava desanimado com o caso. “Ele disse que ninguém estava tomando providências e que tinha medo de acabar ‘sobrando’ para ele, o que de fato aconteceu. O processo foi arquivado porque não foi constatada a materialidade dos atos libidinosos por parte do padre Dé. Delcides foi afastado da direção do cursilho e se tornou ‘persona non grata’ na comunidade por ter ‘ofendido a dignidade da igreja e a honra do padre’”. Ainda de acordo com Scarpellini, o denunciante acabou marginalizado nos negócios em sua cidade natal e teve que se mudar para Curitiba. “Espero que desta vez o caso tenha um desfecho diferente”, disse o ex-secretário.