Após 13 depoimentos - cinco meninos, quatro adultos e quatro padres - e quase duas semanas de investigações, a delegada da DDM (Delegacia de Defesa da Mulher) Graciela de Lourdes David Ambrósio quebrou oficialmente o silêncio e falou ao Comércio sobre o caso de pedofilia envolvendo o padre José Afonso Dé, 74. Por cerca de meia hora, Graciela respondeu a todas as perguntas feitas pela reportagem, mas evitou emitir opiniões e repetiu diversas vezes que seu trabalho no caso ainda não estaria terminado. “Estamos colhendo provas, fazendo outros levantamentos e ainda ouvindo vítimas para que, depois, eu possa ter uma convicção e indiciá-lo ou não”, disse a delegada.
Padre Dé é suspeito de cometer estupro contra cinco meninos com idades entre 13 e 17 anos. Em depoimento à polícia eles contaram que o religioso passava a mão em suas pernas e órgãos genitais na sacristia da igreja São Vicente de Paulo, onde atuava como vigário, e durante encontros realizados na casa dele. Segundo os garotos, os abusos aconteceram nos meses de janeiro e fevereiro, sempre às quintas-feiras, após as missas das 15 horas.
No entanto, a delgada contou que, ao longo das investigações e com a divulgação do caso, se deparou com vítimas anteriores ao grupo de meninos que integravam a denúncia inicial. Descobriu e foi procurada por rapazes que hoje têm mais de 20 anos, que relatam ter passado por abusos ainda mais graves.
Confira abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Graciela na última quinta-feira, na DDM.
Comércio - Como a denúncia chegou até a DDM?
Graciela - Veio através do Conselho Tutelar, mas anonimamente. Ficamos quase uma semana fazendo levantamentos para descobrir os nomes e os endereços das vítimas. E ainda estamos atrás.
Comércio - E quem são essas vítimas?
Graciela - Os casos envolvem cinco garotos com idades entre 13 e 17 anos, cujos abusos teriam ocorrido nos meses de janeiro e fevereiro deste ano. São acólitos. Assim como os coroinhas, eles ajudavam os padres, na rotina das missas. Falam que eram assediados ali (na sacristia) e também algumas vezes na casa do padre. Soubemos também de fatos anteriores, que ocorreram há alguns anos com jovens que hoje já são maiores. Sabendo da história, vieram aqui também prestar suas declarações.
Comércio - O que exatamente os meninos relataram à senhora?
Graciela - Os atos que os meninos reclamam são os toques em seus órgãos genitais e o beijo na boca de uma das vítimas, com língua, enquanto (o padre Dé) tocava suas partes íntimas.
Comércio - E não houve relações mais íntimas entre o padre e os meninos?
Graciela - Houve, mas em um caso anterior, já antigo (em 2002). O rapaz fala que o padre fazia sexo oral nele.
Comércio - Há quem acredite que possa ser fantasia dos meninos. Existe algum fato que reforce a tese de estupro?
Graciela - São relatos bastante semelhantes, coerentes e há os casos anteriores que mantêm a mesma linha. Tudo isso servirá de indício para que eu formule uma convicção.
Comércio - Então, a senhora vê coerência nos relatos dos meninos?
Graciela - Que houve, houve. As crianças estão relatando. Tentaram denunciar aos padres. O que a gente percebe é que aqueles atos, para eles, aquelas atitudes, foram muito graves. Que seja um toque no órgão genital, que seja um beijo. Para eles foi grave. Tanto é que eles procuraram o auxílio dos padres e tinham toda a confiança no padre Dé.
Comércio - Por que os padres não reagiram quando foram procurados pelos garotos?
Graciela - Segundo as próprias crianças, assim que foram vítimas desses atos do padre, elas tentaram denunciá-lo aos outros religiosos responsáveis pela paróquia. Dizem também que estiveram com representantes do bispo aqui na Diocese de Franca. E contam que foram orientados pelos padres mais velhos, dizendo que tomariam providências e que os meninos não deveriam se aproximar mais do padre Dé. Tanto é, que depois que eles contaram aos padres não houve mais contatos ou encontros.
Comércio - E por que não levaram os relatos imediatamente ao bispo, já que se tratava de uma denúncia tão grave?
Graciela - Uns não acharam que era sério, acharam que era brincadeira, mas depois sentiram que poderia haver verdade na história. Outro pediu para que eles se afastassem do padre, não ficasse ali por perto, e se houvesse o fato novamente, que o comunicassem. Quanto às denúncias feitas para os representantes da Diocese, ainda não tenho notícia das providências tomadas. Isso ainda será averiguado.
Comércio - Há coerência aí também?
Graciela - Também. O que nós temos de concreto é isso: as crianças tentaram comunicar os padres. Isso está bem claro e foi confirmado pelos padres.
Comércio - E a senhora sabe se a Diocese tomou alguma providência para apurar o caso?
Graciela - Nós chegamos a ouvir alguns padres e, embora eles tenham dito que tenham tomado conhecimento, não chegaram a tomar nenhuma providência. Agora com relação à Diocese, ainda não tive tempo de ouvir o bispo responsável (Dom Pedro Luiz Stringhini) para saber qual medida foi tomada em relação ao padre enquanto o inquérito está em andamento.
Comércio - O bispo será mesmo chamado a depor?
Graciela - Sim. Preciso saber o que ele achava de o padre Dé manter esses vocacionados, se concordava com esse trabalho dele. E, ainda, as denúncias chegaram a ele no início de fevereiro... Quais foram as providências tomadas?
Comércio - Qual é a condição do padre Dé hoje nesse inquérito?
Graciela - Ele está sendo investigado. Estamos colhendo provas, fazendo outros levantamentos, ouvindo outras vítimas para que depois eu possa ter uma convicção e possa enquadrá-lo ou não.
Comércio - Qual é o crime do qual o padre é suspeito?
Graciela - O crime que está sendo apurado é o estupro de vulnerável, porque há menores de 14 anos envolvidos. Mas, como há vítimas com até 17 anos, estou avaliando um possível enquadramento em outro crime também. Disso só terei convicção depois de terminadas as investigações.
Comércio - Neste caso, se confirmadas as denúncias, o que pode acontecer com o padre?
Graciela - Se enquadrado no estupro de vulnerável, a lei prevê reclusão de 8 a 10 anos. Como são várias vítimas também poderá ser enquadrado em outros crimes, como por exemplo, na prática de ato libidinoso através de fraude. Isso porque os meninos, mesmo os que têm 16 e 17 anos, não esperavam aquela atitude dele. Os garotos estavam ali na casa dele, achando que iam ser avaliados em sua vocação e, de repente, sofrem um assédio desse tipo. Ou mesmo na igreja, com o padre na sacristia. Como eles iam esperar um ato libidinoso desse praticado por um padre? Ficaram ali parados, sem reação, diante da atitude dele. Mas isso ainda é incerto. Apenas quando eu fizer o interrogatório dele é que eu terei certeza se eu vou indiciar ou não. Isso também não quer dizer que depois, na fase judicial, não possam haver outras interpretações por parte do promotor ou do juiz.
Comércio - E quando a senhora planeja ouvir padre Dé?
Graciela - Primeiro serão colhidas todas as provas e ouvidas as testemunhas, para aí sim, se eu estiver convicta, interrogá-lo. É claro que a gente já tem aqui uma noção do que está acontecendo. Há coerência nas declarações das vítimas, há outras provas e levantamentos que estamos fazendo. Só depois é que vamos decidir quanto ao indiciamento dele ou não e qual será o enquadramento. Para que, assim, a Justiça possa dar continuidade.
Comércio - E qual é a situação dos padres que ficaram de tomar providências? Eles também respondem por algum tipo de crime?
Graciela - Eles não negam. E temos um artigo no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) que diz todos têm obrigação de, sabendo de um crime envolvendo crianças e adolescentes, fazer a denúncia. Nós também avaliaremos a situação deles, caso a caso. Claro que é possível, mas ainda é precipitado fazer um julgamento sobre isso.
Comércio - A senhora pretende fazer uma acareação entre os meninos e o padre Dé?
Graciela - Acho que não há necessidade, porque são várias vítimas falando a mesma coisa. No entanto, entre testemunhas, sim. Eu poderia fazer uma acareação entre o padre Idair Perina (pároco da Igreja São Vicente de Paulo, onde padre Dé atuava como vigário e apontado pelas vítimas como conhecedor das denúncias) e os meninos, por exemplo, mas ainda não decidi.