08 de julho de 2026

Uma mulher de palavra


| Tempo de leitura: 11 min
A PRIMEIRA - Ana Cáris foi a primeira mulher a disputar a cadeira de prefeita de Cássia e a primeira a ser eleita. Ela agora quer revolucionar a cidade

Para chegar até o gabinete da prefeita de Cássia (MG), Ana Maria Cáris (PT), é preciso atravessar três portas. Nenhuma delas fica fechada. Ela gosta de atender pessoalmente quem vai até a Prefeitura em busca de ajuda ou orientação. Muitas vezes, sai do gabinete e vai até a recepção conversar com quem a procura. Simples, Ana Cáris não é do tipo que se enfeita toda para tirar fotos. No dia da entrevista, não usava maquiagem nem estava de escova. Conversava com tranquilidade sem alterar o tom da voz. Em uma sala ampla com duas mesas e uma estante com destaque para a fotografia com a ex-ministra da Casa Civil e candidata à Presidência, Dilma Rousseff, Ana Cáris falou de como ingressou na política e dos problemas da cidade.


Mulher de corpo franzino, não deixa transparecer a força que tem. Ainda na campanha eleitoral para prefeita, em 2008, gerou polêmica ao dizer que se eleita reduziria o salário do cargo de prefeito que na época era de R$ 18 mil. Considerado muito alto para os padrões de Cássia e também o maior de toda a região. Escutou de tudo. Ganhou o apoio da maioria das pessoas. Mas também foi criticada. “Teve gente que disse que eu estava fazendo política”. Com elogios e críticas, Ana Cáris cumpriu a promessa e a primeira atitude que tomou ao assumir a cadeira de prefeita em 2009 foi reduzir o próprio salário para R$ 9.800.


Outra luta da prefeita é provar que, mesmo sendo mulher, é capaz de administrar a cidade. “Fui a primeira candidata mulher a disputar a Prefeitura de Cássia e a primeira a ser eleita. Tenho que provar todos os dias que sou capaz. Acredito que estou conseguindo”, disse Ana Cáris que, apesar de estar entrando no segundo ano de mandato, já sonha em disputar a reeleição. “Mas tenho consciência de que este é um cargo transitório. A minha vida está nas mãos de Deus”.


Ana Cáris tem 47 anos é solteira e não tem filhos. Se formou em teologia pelo Instituto Santo Tomás de Aquino, de Belo Horizonte (MG). Na capital mineira também começou a trabalhar na Caixa Econômica Federal e, no início da década de 90, foi atraída pela política se filiando ao PT. Enfrentou as urnas pela primeira vez em 2002, quando se candidatou à deputada federal. “O nosso desejo era ajudar o Lula a se eleger presidente”. Cáris não ganhou (obteve 11.600 votos), mas acredita que a campanha abriu portas para projetos futuros. Em 2004, voltou às urnas ao se candidatar à Prefeitura de Cássia. Obteve 3.817 votos, ficando 1.031 votos atrás do candidato eleito, Donizete Vilela. Não desanimou. Enfrentou uma nova disputa em 2008. quando foi eleita prefeita com 5.789 votos, com uma diferença de 668 para Donizete Vilela que disputava a reeleição.


Após reduzir o próprio salário, a prefeita quer agora diminuir os gastos com viagens que também promete gerar polêmica. “No ano passado gastei cerca de R$ 4 mil com viagens e o prefeito anterior gastou R$ 28 mil no primeiro ano de mandato. É preciso ter um controle maior dos gastos e não apenas fazer relatórios de viagens”.


Apesar da agenda apertada, uma vez por semana, a prefeita participa de um programa de rádio local onde responde a perguntas de moradores. “Nunca deixei nenhuma pergunta sem resposta, mesmo que seja agressiva”. Ela quer estar ainda mais próxima. Neste ano, pretende implantar nos próximos meses a Prefeitura Itinerante, em que, uma vez por mês, visitará os bairros junto com os secretários para ouvir de perto as queixas dos moradores. “Não importa em quem a pessoa votou. O que realmente interessa é se necessita de ajuda”.

 

Comércio da Franca - Como a senhora entrou para a política?
Ana Cáris -
Minha família sempre acompanhou a vida política de Cássia de perto. Sempre vimos na política uma forma de melhorar a cidade. Acredito que a minha base começou ali. O que ajudou muito também foi o fato de ter ingressado no movimento de igreja em Cássia. Em 1989 fui trabalhar na Caixa Econômica Federal em Belo Horizonte e me envolvi com o movimento dos funcionários e depois no movimento sindical. Em 1992, me filiei ao PT (Partido dos Trabalhadores) e iniciei o movimento político a partir daquele ano.
 

Comércio - Assim que a senhora ingressou no partido já disputou eleição para deputada federal. Como foi essa experiência?
Ana Cáris -
A minha campanha para deputada federal nasceu no movimento sindical bancário em 2002, que era a oportunidade de elegermos Lula como presidente do país. Dentro do conjunto de funcionários da Caixa, havia essa perspectiva da apresentação de uma candidatura que fosse uma referência. Foi uma campanha bastante franciscana, mas felizmente tive o apoio da minha família e do partido. Tive um total de 11.600 votos (na época o candidato que se elegeu com menos votos obteve cerca de 30 mil). A campanha cresceu e abriu portas para uma nova candidatura.
 

Comércio - Foi quando decidiu se candidatar à Prefeitura de Cássia pela primeira vez?
Ana Cáris -
Com a boa votação, o partido me chamou para disputar a eleição municipal em 2004. Eram três candidatos: o Donizete Vilela (que foi eleito), o Miguel Rodrigues e eu. Foi uma experiência bastante positiva até porque, em 2004, foi a primeira vez que o PT realmente apresentou um candidato em Cássia. E também foi a primeira vez que uma mulher disputava uma eleição na cidade. Fiz uma campanha de porta em porta. Nas pesquisas, começamos sem intenção de votos e terminamos com 38%. A partir daí, trabalhamos com mais afinco para as eleições de 2008, ampliamos o número de coligação para a disputa, o que nos deixou mais fortalecidos e consegui me eleger.
 

Comércio - A senhora foi a primeira mulher a disputar a Prefeitura de Cássia e a primeira a ser eleita. Já enfrentou algum preconceito por conta de ser mulher?
Ana Cáris -
Acredito que ainda há uma certa resistência. O machismo é muito forte na sociedade. Tenho que provar minha capacidade de administrar a cidade. Acredito que no primeiro ano de governo pavimentei o meu caminho. O importante é que estou tranquila quanto aos meus princípios éticos e cristãos. A forma honesta de agir com a cidade é fundamental. Isso causa um certo transtorno inicial, mas a minha capacidade está sendo provada.
 

Comércio - Assim que assumiu a Prefeitura, a senhora cumpriu uma promessa de campanha que foi reduzir o próprio salário. Como foi a repercussão?
Ana Cáris -
Nem todo mundo acreditou na minha atitude. Isso é até normal, já que as pessoas sempre duvidam das ações que partem da maioria dos políticos. Recebi críticas sim, apesar de forma bem discreta. Algumas pessoas acharam que eu estava fazendo isso visando algum benefício político posterior. Mas a grande maioria reconheceu. Recebi elogios de uma forma geral, de cidadãos comuns e da imprensa. A minha vida é pautada pela justiça. Creio que especialmente o cargo público deve ser visto como um serviço à comunidade e não um benefício próprio.
 

Comércio -Atualmente, qual seu salário como prefeita de Cássia?
Ana Cáris -
O salário era R$ 18 mil. Em 2008, a Câmara de Vereadores aprovou uma redução de R$ 2 mil para vigorar a partir de janeiro de 2009, mas mesmo assim considerei o valor muito alto. Muito acima da média da cidade que é de R$ 1.200. Então reduzimos para R$ 9.800 e do vice-prefeito que era R$ 5.800 passou para R$ 3.800.
 

Comércio - Ainda assim é um salário bem alto para uma cidade do porte de Cássia, não pensou em reduzir ainda mais?
Ana Cáris -
Para chegar a este salário foi feita uma média com os rendimentos dos prefeitos da região. Chegamos à conclusão de que este rendimento é compatível com o nível de trabalho do prefeito de uma cidade como Cássia. A promessa feita no início da mandato foi cumprida. Não pretendemos reduzir mais. Na verdade, tivemos até um reajuste aprovado neste ano. O índice de aumento foi de 3,16%. Com isso, o meu salário passou para R$ 10,1 mil.
 

Comércio - Por falar em promessa, durante a campanha a senhora prometeu ampliar o atendimento médico, o Distrito Industrial e construir 50 casas populares por ano. Já conseguiu cumprir alguma dessas promessas?
Ana Cáris -
Na questão da saúde, contratei mais dois médicos logo em janeiro do ano passado. Também consegui melhorar e trazer especialistas que estão atendendo no Pronto-socorro a partir de um consórcio com outros municípios. Contratei ainda outros profissionais como terapeuta ocupacional e aumentei a distribuição de medicamentos na farmácia municipal que passou a atender em período integral. Reconheço que a saúde ainda tem muito para caminhar, mas o investimento que foi feito não acontecia há muito tempo. Ainda ampliamos o atendimento odontológico nas creches municipais. No caso do Distrito Industrial, depois de muitos anos, tivemos um aumento de 80 postos de trabalho aqui em Cássia. Temos um distrito, onde funcionam principalmente empresas calçadistas que são de Franca e abrem filiais na cidade. Damos um apoio às empresas com infra-estrutura para que elas possam se fixar com mais facilidade no município. Dentro da nossa perspectiva de crescimento estamos incluindo o setor de cerâmica e olaria. Também devemos inaugurar ainda neste ano um frigorífico de peixes e construiremos outro para o abate de bovinos e suínos.
 

Comércio - E no caso das casas, a senhora conseguiu construir as 50 unidades?
Ana Cáris -
No ano passado, iniciamos um projeto através do programa do governo federal Minha Casa, Minha Vida e conseguimos 50 unidades. Fizemos o cadastramento que despertou o interesse de 1.200 pessoas. Acredito que iniciaremos a construção até o mês de maio. Também estamos buscando outras alternativas por meio de parcerias para conseguir cumprir essa promessa da construção de 200 unidades até o final do mandato.
 

Comércio - A senhora disse que as empresas calçadistas que abrem filiais em Cássia são de Franca. O que tem em Cássia que atrai esses empresários?
Ana Cáris -
Principalmente a mão-de-obra. Os empresários que montam filiais em Cássia dizem que gostam de trabalhar com os cassienses que demonstram interesse pelo trabalho. O problema é que a gente enfrenta a dificuldade com a falta de mão-de-obra especializada. Por isso, devemos inaugurar em breve uma escola de pesponto para que os cidadãos possam se especializar.
 

Comércio - Qual o principal problema de Cássia hoje?
Ana Cáris -
Além da dificuldade para gerar emprego, também temos uma deficiência na área de transporte urbano e intermunicipal. Temos transporte coletivo, mas ele não atende todas as regiões da cidade. O ônibus é de uma empresa particular, mas é subsidiado pela Prefeitura. O transporte não atendia o Pronto-socorro, por exemplo, mas atualmente melhorou. Outro desafio é pavimentar toda a cidade. Ainda faltam três bairros (de um total de 15). Também falta lazer nos bairros. Quanto à água, toda a cidade é abastecida, mas infelizmente a administração anterior renovou o contrato com a Copasa (Companhia de Saneamento de Minas Gerais) por 30 anos, mas não incluiu o tratamento de esgoto. Estamos com um projeto junto a Funasa (Fundação Nacional de Saúde) para que possamos construir uma ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) que hoje é todo jogado nos córregos que cortam a cidade. O investimento chegará a R$ 8 milhões. Também temos problema de enchente na parte baixa da cidade já que temos cinco córregos que cortam o município. Recentemente tivemos a visita de um engenheiro de Belo Horizonte que vai nos apresentar um projeto para o tratamento de esgoto e também dos córregos.
 

Comércio - No ano passado, o Ministério Público cobrou explicações da senhora em razão da paralisação das obras de reforma do prédio que abriga a escola de música e da cidade não ter um local adequado para o abate de animais. A senhora ainda tem enfrentado problemas com o Ministério Público?
Ana Cáris -
Eu tenho uma relação bastante tranquila e próxima com o Ministério Público. Quando recebi a notificação em razão da paralisação da escola de música, já havíamos, desde o início, promovido várias ações para conseguir recursos para dar andamento às obras. O Estado também sofreu com a queda na arrecadação, então, o dinheiro não foi liberado. Além disso, a obra apresentava problemas estruturais e de cálculos que precisávamos solucionar. Quando o Ministério Público nos cobrou explicações, já tínhamos conseguido a liberação da primeira parcela dos recursos. Já estamos trabalhando na obra com perspectiva de entregá-la num prazo de dois meses. No caso do frigorífico tentamos fazer um consórcio com outros municípios não deu muito certo, então abrimos o processo licitatório para contratar uma empresa para investir na construção.
 

Comércio - Como espera entregar a cidade a seu sucessor em 2012?
Ana Cáris -
Tenho feito uma revolução silenciosa em Cássia e acredito que serei reconhecida ao fim do meu mandato. Estamos investindo principalmente na área de educação para dar uma formação de maior qualidade para as crianças. Também estamos trabalhando para gerar emprego na cidade e no campo, dando um suporte maior ao agricultor.