08 de julho de 2026

A última crônica


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Para Alfredo Palermo, os temas referentes a assuntos culturais ou do cotidiano sempre surgiam como chamas brilhantes; e sua necessidade de expressá-los e retratá-los através de crônicas no jornal Comércio da Franca o acompanhou por mais de sessenta anos.


De todos os amores, família, magistério, advocacia, literatura, cátedra, política, religião, Rotary, jornalismo, este último foi o que o acompanhou até o último momento. Por sinal, este Comércio é aquele que mais demonstrou-lhe reconhecimento, com registros pontuais em suas páginas, assinadas por Corrêa Neves Júnior, Sônia Machiavelli, Lúcia Brigagão, Odorico Silva, Antônio Palma, Jane Mahalem, Setímio Miguel, Luiz Cruz e outros.


Por isso mesmo entendo importante registrar aqui, na véspera do primeiro de abril, dia do nascimento de Alfredo alguns tópicos daquela que, talvez, teria sido sua última crônica neste jornal que tanto prezava.


Resgato assim, com licença da redação do Comércio, um último desejo dele. Assim, passados noventa dias de seu partida física, transcrevo as principais observações deixadas por meu pai sobre o livro Leite Derramado, que devidamente redigidas e guardadas, formam um esboço para uma – última – crônica que, infelizmente, não logrou ver publicada enquanto ainda vivia. Mas vamos aos registros: “Após um mês e duas leituras reconheço que se trata de uma obra séria e desafiadora. Trata-se de um romance, segundo a editora, mas o grande escritor que é Chico Buarque, embora com 65 anos, pesquisou fatos, folhetos e outras fontes familiares, de mais de 100 anos, da história de seu tetravô que, no séc. XVIII, vem para o Brasil no contingente que acompanhou a rainha D. Maria ‘Louca’.


O autor fala do avô Barão, que foi lorde em Londres e de outros descendentes, inclusive membros da família do romancista. E as descrições de todas essas personagens com o codinome de Eulálio de Assumpção o autor responde pela ficção. Leite derramado é um belo livro e terá sucesso editorial e literário. Apresenta-se em 195 páginas, divididas em 23 capítulos. A sucessão de fatos nos 100 anos de ‘história’ realiza um prodígio de fabulação, em duas ‘paisagens’: (a) é um romance pela evocação da vida dos ancestrais; (b) é uma ‘biografia’ pela arte de Chico entre ficção e realidade fatual”.


A seguir, em seus comentários, Alfredo Palermo e sua experiência literária salienta detalhes que, ao leigo, poderiam passar desapercebidos: “O poeta Chico Buarque resolveu construir seu ‘romance’ colocando no início de cada capítulo um verso da sua ‘lavra’, cada um envolvendo uma expressão da sua autoria e de sua biografia: Capítulo 1 – ‘Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra’; Capítulo 2 – ‘Não sei por que você não me alivia a dor...’; Capítulo 3 – ‘Aquela que veio me ver, ninguém acredita, é minha filha...’”.


Meu pai não chegou a concluir seus comentários sobre Leite Derramado. Nem precisava. Nos destaques que deixou expostos tornou-se clara a sua nítida compreensão. Li o livro e gostei muito, mas meus olhos e minha alma jamais poderão alçar os vôos que ele teve nos momentos de sua leitura. Só os poetas podem compreender bem os poetas. Ou, como diria Vinícius de Moraes:


‘Para isso fomos feitos: / Para lembrar e ser lembrados / Para chorar e fazer chorar / Para enterrar os nossos mortos // Por isso temos braços longos para os adeuses / Mãos para colher o que foi dado / Dedos para cavar a terra // Pois para isso fomos feitos: / Para a esperança no milagre’ (Poema de Natal).

Carlos Eduardo Castro Palermo
Advogado