"O maior pecado contra nossos semelhantes não é odiá-los,
mas ser indiferente a eles: esta é a essência da desumanidade"
George Bernard Shaw, escritor e jornalista irlandês
Os católicos de todo o mundo acompanham apreensivos a apuração de denúncias de pedofilia e abuso sexual contra menores que atingem hoje membros do clero em pelo menos oito países distintos: Alemanha, Áustria, Estados Unidos, Holanda, Irlanda, Itália, Suíça. E Brasil. Apesar das singularidades de cada caso, os escândalos são, em essência, muito parecidos. Padres, com a autoridade que a batina impõe aos católicos, subjugavam crianças e jovens menores de idade, obrigando-os a sessões de sexo e carinhos íntimos (bolinações e beijos). Tudo isso de forma repetida, com a conivência de colegas de sacerdócio, por anos a fio.
Não que as denúncias fossem inexistentes. Elas aconteciam mas, quase sempre, acabavam abafadas por alguma autoridade mais graduada da diocese em questão, sob justificativas do tipo "errar é humano" e com apelos sentimentais em favor da "imagem da Igreja". A tática, por décadas, funcionou, com consequências trágicas. Evitou momentaneamente que os casos se tornassem públicos e, ao mesmo tempo, permitiu que as vítimas se multiplicassem.
Assim, demorou muito até descobrirem que 542 meninos da região de Boston, nos Estados Unidos, tinham sido presas fáceis para os padres Paul Shanley e John Geogham. Os abusos, cometidos ao longo de uma década, eram sempre acobertados pelos líderes da arquidiocese de Boston, que transferiam os padres pedófilos de paróquia em paróqia na tentativa - fracassada, é claro - de evitar que o caso se tornasse público.
Na Alemanha, a situação parece endêmica e são muitos os padres sob suspeita. Há mais de 300 vítimas que denunciam religiosos de 18 das 27 dioceses do país. As acusações mais graves atingem um colégio jesuíta, onde 170 crianças teriam sido abusadas, e o Regensburger Domspatzen, prestigioso coral de meninos dirigido por monsenhor Georg Ratzinger, ninguém menos do que o irmão mais velho de Bento XVI. A participação do irmão do Papa ainda é incerta, mas a arquidiocese de Regensberg já admite que quatro padres - e, por mais absurdo que possa parecer, duas freiras - são acusados por envolvimento com abusos sexuais.
Na Irlanda, o número de vítimas se conta aos milhares, resultado de quase três décadas de abusos continuados. Um dos documentos obtidos pela investigação que continua em andamento revela que quatro arcebispos de Dublin ignoraram solenemente todas as denúncias que chegaram a eles entre os anos de 1975 e 2004. O próprio chefe da igreja no país, cardeal Sean Brady, é acusado de ter participado de uma reunião nos anos 70 que tinha um único objetivo: obrigar jovens vítimas de abusos a fazer "voto de silêncio". A situação era tão absurda que os religiosos irlandeses foram convocados a depor diante do próprio Papa. Quatro bispos renunciaram.
No Brasil, Franca é o epicentro de tristes episódios que envolvem membros da Igreja Católica. Um grupo de jovens, com idades entre 13 e 16 anos, acusa o conhecido Padre Dé de pedofilia. Cinco deles alegam terem sofrido abuso sexual no início deste ano. Outros dois, com narrativas bastante semelhantes, relatam agressões em períodos anteriores. A Polícia investiga o caso e, tudo indica, deve indiciar o religioso, por estupro. Se isso se confirmar, caberá à Justiça decidir se Padre Dé é ou não culpado e, em caso afirmativo, qual a pena a ser aplicada.
Padre Dé nega as acusações tanto quanto se recusa a responder qualquer pergunta sobre o caso. Num pronunciamento à imprensa na tarde de quinta-feira, limitou-se a fazer um longo discurso sobre o que considera as virtudes de seu sacerdócio. Não reservou nem um minuto para responder uma única pergunta sequer sobre as denúncias. Além do pronunciamento autoelogioso, distribuiu uma 'nota oficial' na qual jura inocência e diz que jamais praticou "atos libidinosos" com menores. De forma sutil, insinua que pode ter havido confusão nos relatos dos menores. "A todos abraço e afago como se meus filhos fossem", justifica.
É prematuro assegurar que Padre Dé seja culpado, mas as evidências de que coisas estranhas aconteciam nas casas mantidas pelo religioso são bastante sólidas. A começar pela mais flagrante delas: os métodos de formação sacerdotal adotados pelo padre Dé nunca foram vistos com bons olhos nem mesmo pela cúpula da diocese de Franca. Por esta razão, padre Dé jamais teve uma paróquia sob sua responsabilidade na cidade.
Além disso, é difícil imaginar que razões teriam jovens distintos, que conviveram com o padre em épocas diferentes, para inventar uma história sórdida destas, tão rica em detalhes, tão minuciosa e precisa nas descrições, tão coerente em suas semelhanças. A troco de que agiriam estes jovens assim? Com que propósito? Em benefício de quem? É mesmo crível imaginar que os meninos se submeteriam a todo o constrangimento de expor suas famílias e sua intimidade se não tivessem emocionalmente muito abalados? Ou se não tivessem sido brutalmente constrangidos e humilhados? É difícil que pelo menos sete garotos de famílias distintas tenham inventado uma história como esta. Impossível não é. Só é muito pouco provável. A resposta final virá só com o fim do inquérito policial e, dependendo de sua conclusão, de um processo judicial.
No meio desta tristeza, surpreende - e reconforta - a postura do novo bispo. Dom Pedro Luiz Stringhini tem tido, até o momento, um comportamento irrepreensível e, sob todos os aspectos, louvável. Diferente de seus pares de outros países que tentaram, a todo custo, varrer a sujeira para debaixo do tapete, Dom Pedro tem agido com admirável bom senso e equilíbrio. Apesar de abalado, dirige-se com clareza aos fiéis através da imprensa e age com rapidez. Defende a apuração completa de tudo, promete manter-se afastado da investigação policial e, preventivamente, suspendeu as prerrogativas eclesiásticas de Padré Dé, que tem ordens para permanecer à disposição das autoridades na diocese mas, até o final das investigações, sem celebrações públicas.
Tivessem a Irlanda, a Alemanha, os Estados Unidos ou mesmo o Brasil, de anos passados, mais bispos como Dom Pedro, certamente a situação dos católicos seria diferente hoje. Haveria uma Igreja muito mais transparente - e forte. E, certamente, um contingente muito menor de garotos traumatizados. Errar é realmente humano. Desumano é compactuar com quem tenta esconder os problemas, ignorando que as grandes vítimas, no Brasil ou no Exterior, são garotos que tinham nos seus pastores ídolos e exemplos. Dom Pedro Luiz Stringhini tem dado firmes demonstrações de que sabe, perfeitamente, diferenciar uma coisa da outra. Ainda bem.
CORRÊA NEVES JÚNIOR é diretor-responsável do Comércio da Franca jrneves@comerciodafranca.com.br