De fala ponderada e comportamento comedido, o diplomata Hélio Franchini Neto, 31, demonstra ser um profissional dedicado e amadurecido, apesar da pouca idade. Do conjunto de conquistas que já acumula em seu currículo, como o mérito em ser aprovado no curso de diplomacia do Itamaraty em 2004 e o mestrado em Ciência Política pela Universidade de São Paulo, a mais recente é a ascensão ao cargo de primeiro secretário da Embaixada Brasileira no Peru, em julho do ano passado. Além disso, já foi homenageado com a “Medalha do Pacificador”, do Exército Brasileiro, com o título de “Membro Honorário” da Força Aérea Brasileira e “Amigo da Marinha”.
Fluente em inglês, francês e espanhol, além do português, Franchini Neto já viajou o mundo a trabalho. Alemanha, Áustria, França, Itália, Jordânia e Moçambique são apenas alguns dos países já visitados por ele, sem contar as voltas sulamericanas por Uruguai, Paraguai, Argentina, “Não conheço o Chile, é até uma dívida que tenho com um colega de Embaixada”, afirma.
Hélio atualmente vive com sua mulher na capital peruana Lima, em um apartamento no requintado bairro de San Isidro. Francano ilustre e apaixonado por seu terra natal, onde viveu até os 17 anos, o diplomata concedeu uma entrevista ao Comércio da Franca, numa manhã de sábado, durante suas férias.
Falou das últimas experiências vividas no Peru, como o resgate dos brasileiros isolados em Águas Calientes, perto de Machu Picchu, de sua jornada diária na Embaixada e de planos para o futuro. Eterno apaixonado por literatura e leitor voraz de livros -são cerca de 5 por mês -, Hélio pretende lançar, em breve, seu primeiro romance. Trata-se do livro Distopia, que, segundo ele, merecerá inclusive um evento especial de lançamento em Franca.
Após dois anos e meio de imersão na cultura peruana, Hélio Franchini Neto está às vésperas de retornar ao Brasil para assumir uma função na Secretaria de Estado em Brasília e aproveita para fazer um balanço de seu trabalho.
Comércio da Franca - Em que tipo de atividade você está envolvido como primeiro secretário da Embaixada de Lima?
Hélio Franchini Neto - Desde que cheguei a Lima, chefio o setor político e de imprensa da Embaixada Brasileira, cuja função é representar o Brasil perante o Peru, defender e informar. Tratamos de acordos com o Peru, preparamos visitas de autoridades, participamos de negociações. Defender significa que ficamos atentos ao que está sendo falado sobre o país, o que conflui com a terceira função de informar. Fazemos contato com a imprensa e cuidamos da comunicação entre embaixadas. Há uma quarta função, que, por sinal, começou a ganhar destaque sobre as outras, que é o atendimento a brasileiros no exterior.
Comércio - O que pode dizer sobre eventos sociais e coqueteis? São importantes para fechar acordos?
Hélio Franchini Neto - Temos um terceiro turno que são os encontros. Existe um mito de que os coqueteis seriam diversão, mas são trabalho. Tem muita coisa que é mais fácil de tratar em um almoço do que em uma sala de reunião. O evento diplomático não difere do que uma empresa faz ao levar um cliente para almoçar, obviamente com objetivos distintos. Isso é de fato trabalho, é só um ambiente mais descontraído para dar sequência aos contatos.
Comércio - Qual é o impacto da internet para a diplomacia?
Hélio Franchini Neto - Na década 1990, disseram que as embaixadas iam perder sua função, uma vez que, com a internet e viagens rápidas de funcionários, uma estrutura na capital de cada país poderia dar conta de fazer toda avaliação da conjuntura internacional. Discordo e acho que hoje não há mais ninguém falando isso. A percepção que uma pessoa tem de um país, vivendo naquela sociedade, sentindo as necessidades, conhecendo as pessoas, é completamente diferente de se estar distante.
Comércio - O diplomata usa rede social?
Hélio Franchini Neto - Não conheço nenhuma proibição. Eu particularmente não uso. Eu tinha redes sociais até quando fui para Brasília, mas desde que fui para o Peru eliminei.
Comércio - Quais as ações importantes o Brasil vem mantendo no Peru que você presenciou?
Hélio Franchini Neto - Acompanhei o embaixador em Lambayeque, onde existe uma grande obra da Odebrecht. Eles basicamente estão fazendo um túnel de 20 quilômetros de extensão cortando os Andes para poder levar água de um lado para o outro e irrigar uma ampla faixa de seca. Não está concluída ainda. É uma obra de engenharia fantástica. Na parte sul, está para ser concluída a rodovia interoceânica, uma ligação direta entre Peru e Brasil. Existe, ainda em estudo, outro projeto que envolve estrada e rio, saindo de um porto peruano até Manaus ou Belém. São obras fantásticas. Trabalhamos para que esses eixos sejam um corredor para o Brasil atingir o Oceano Pacífico, mas que também seja uma forma de os peruanos inserirem seus produtos no mercado brasileiro.
Comércio - Como foi o trabalho da Embaixada logo após o episódio de Águas Calientes (cidade próxima a Machu Picchu que ficou isolada durante fortes chuvas em janeiro)?
Hélio Franchini Neto - Foi uma semana completamente atípica. Salvo algumas horas de sono, o resto foi trabalho. Naquela segunda-feira, chegou a informação de que havia brasileiros isolados em Águas Calientes, na região de Cuzco, que está a mil quilômetros de Lima. A informação nos chegava aos poucos. Águas Calientes, no Vale Sagrado, só dá para chegar de trem e está a 120 quilômetros de Cuzco. Nem o governo peruano tinha a dimensão do que estava acontecendo. Na terça-feira de manhã, houve um contato dizendo que tinham aproximadamente 20 brasileiros presos lá. Imediatamente foi formado o gabinete de crise. Todos os diplomatas foram mobilizados, tudo foi suspenso. Imediatamente duas pessoas foram despachadas para Cuzco, o cônsul e o vice-cônsul. Logo que começou o problema, foram enviados faxes para as companhias aéreas informando que os brasileiros iriam perder voos e pedindo para que não cobrassem taxa de remarcação de passagem. Posso dizer pessoalmente que o que estava à mão e além de nossas possibilidades foi feito. Todos os relatos de problemas, como falta de comida, foram registrados até quarta-feira de manhã. Depois foram resolvidos. O nosso vice-cônsul tinha dinheiro suficiente para garantir que nenhum brasileiro ficasse na rua. Na quinta-feira os peruanos tiraram quase duas mil pessoas de lá com seus helicópteros. Foi uma operação fantástica e é preciso elogiá-los apesar da tragédia.
Comércio - Por que europeus e americanos estavam saindo primeiro?
Hélio Franchini Neto - Saíram primeiro os europeus e os americanos, sim, mas não por uma questão de nacionalidade. Normalmente em Cuzco, nessa época, os turistas americanos e europeus são idosos e os turistas sulamericanos são jovens. Cerca de 80% dos brasileiros estavam na faixa dos 18 aos 30 anos e os europeus e americanos eram em sua maioria idosos. Não houve preferência.
Comércio - Como foi seu trabalho?
Hélio Franchini Neto - Minha função foi falar com a imprensa, transmitir todas essas informações. Escrevia dois informes por dia para a Secretaria de Estado, sem contar as entrevistas. Eram 30 veículos de comunicação ligando cinco vezes ao dia. Não tive problemas com a imprensa. Minha função era esclarecer e prestar informação a cada minuto que ela evoluía para as pessoas ficarem mais calmas. Depois, na sexta-feira, nosso trabalho foi garantir a volta dos brasileiros ao Brasil.
Comércio - Como está a situação no local hoje?
Hélio Franchini Neto - Águas Calientes ainda está isolado, a destruição da linha foi muito grande, a reconstrução ainda não acabou.
Comércio - Como analisa a relação entre Brasil e Peru?
Hélio Franchini Neto - É extremamente pacífica e talvez este seja um dos melhores momentos da relação bilateral. Os presidentes Lula e Alan García se entendem bem. Há uma agenda positiva em todas as áreas, cada vez mais intensa desde 2000. Economicamente e fisicamente, a integração tem avançado, assim como na promoção de eventos culturais, missões comerciais, bolsas de estudo, ciência e tecnologia.
Comércio - Qual a imagem que o peruano tem do brasileiro?
Hélio Franchini Neto - Não há imagem melhor do que a que o Brasil tem no Peru. É uma coisa incrível a simpatia que o peruano tem com o brasileiro. Vi uma pesquisa, em julho do ano passado. O Brasil ficou em primeiro lugar, com taxa de confiança de 87%. Isso você nota no governo, na imprensa, na população, na rua. A hospitalidade é fantástica.
Comércio - Você está encerrando seus trabalhos no Peru. Quando volta para o Brasil?
Hélio Franchini Neto - Volto definitivamente para o Brasil em julho. Volto para Brasília para assumir alguma função que ainda não foi definida. Saio extremamente feliz de Lima. Tanto profissionalmente quanto pessoalmente, não tenho do que reclamar.
Comércio - Sente saudade de Franca?
Hélio Franchini Neto - Sim, a saudade é constante. Fui criado aqui, é onde cresci e onde está minha família. Sinto sempre um certo saudosismo. É sempre bom voltar para casa, mas estar longe daqui é o sacrifício que escolhi.
Comércio - Você continua estudando?
Hélio Franchini Neto - Sim, isso é incentivado e valorizado de forma permanente. Gosto de seguir a carreira acadêmica. Fiz mestrado e quero iniciar o doutorado. Tento me manter escrevendo artigos, agora menos, porque estou ensaiando uma carreira literária. Em julho, devo lançar meu primeiro romance.
Comércio - O que você pode adiantar sobre o livro?
Hélio Franchini Neto - O livro se chama Distopia e segue basicamente a linha de romances como 1984, de George Orwell, com sociedades futuristas autoritárias. São imagens distópicas, ou seja, o contrário do sonhado, que basicamente servem como crítica a elementos da realidade atual. No livro, o mundo é dividido em três blocos e há um personagem que acaba visitando todos eles. A história mostra que não há de fato democracia neles. O livro já está formatado e será lançado pela Editora Ateliê, de São Paulo. Pretendo lançá-lo em São Paulo e aqui em Franca. A previsão é de que fique pronto em maio.
Comércio - Como sente o reconhecimento das pessoas aqui em Franca?
Hélio Franchini Neto - Fico muito orgulhoso e ao mesmo tempo um pouco acanhado. Aqui eu sinto que o reconhecimento é mais do ponto de vista pessoal do que profissional. É fantástico. Mas estou ainda nas bases de minha carreira. Esse reconhecimento gera um sentimento ainda maior de responsabilidade.
Comércio - Você pretende ser embaixador um dia?
Hélio Franchini Neto - Ser embaixador é o topo da carreira, mas não há uma garantia disso. Ao menos eu desejo sim e tento fazer meu trabalho da melhor maneira possível. Acredito que quem faz bem o trabalho tem grandes chances de chegar lá.
Comércio - O que mudou no perfil do diplomata desde a década de 1940?
Hélio Franchini Neto - Mais a partir de 1945, quando foi fundado o Instituto Rio Branco, o perfil foi mudando. Antes era muito concentrado no Rio de Janeiro, por ser a então capital do País. Hoje basicamente o diplomata é um profissional liberal que busca uma carreira. Trabalhei em um dos concursos do Itamaraty e digo: não há indicação, só se entra por concurso.
Comércio - Qual é a receita para ir bem no concurso para diplomata?
Hélio Franchini Neto - Estudar muito. O concurso é muito exigente e amplo, condiz com o que se espera de um diplomata, que atua em política, economia, em múltiplas funções. Todas as matérias exigidas são muito profundas, exigem muito estudo e paciência. Não chegam a 10% os que passam na primeira tentativa. Eu passei na quarta tentativa. Existem cursinhos preparatórios que ajudam muito. Língua portuguesa deve ser um exercício constante, é a prova mais difícil do concurso.
Comércio - Quais as qualidades de um diplomata?
Hélio Franchini Neto - Tem que gostar do que faz, deve ter curiosidade e disciplina, se interessar por política internacional, gostar de escrever e ter bom trato social. O networking é uma das coisas mais importantes para um diplomata, além de ter vontade de morar em lugares que nem sempre são os melhores.