A morte de uma criança de forma brutal, tendo um pai e uma madrasta como principais suspeitos da autoria do crime, ambos no banco dos réus em um julgamento quase cinematográfico, mereceu todas as capas do jornalismo esta semana. E por um motivo muito claro: tal qual a exposição do fato, é grande o consumo dele por parte de quem lê, vê e ouve as informações. E eis que temos um motivo para refletir sobre o espetáculo da tragédia, sobre prejuízos que isso ocasiona na sociedade, assim como acerca de ganhos que a discussão do fato pode permitir.
Há um evidente efeito negativo da superexposição na mídia. O circo midiático da violência, que não apenas se faz presente no caso específico que envolve a família Nardoni, é um desserviço pernicioso. Esbarra no limite entre informar e gerar pânico. E esse limite é extrapolado, por exemplo, quando se mostram inúmeras vezes animações de como a menina Isabela teria sido jogada da janela do apartamento de seu pai, assim como quando se escancaram outros detalhes mórbidos do assassinato, repetidos à exaustão.
Graças ao nosso instinto de sobrevivência, situações de pânico estimulam no cérebro a Amídala, e esta aciona neurotransmissores que nos dão o alarme de defesa contra o perigo percebido. Portanto, o medo nos convoca à atenção. E não é de hoje que a mídia pega carona nessa premissa neurológica para “vender seu peixe”. Esse espetáculo faz com que até democracia seja arranhada, pois se tira da população a condição de analisar as evidências de maneira mais objetiva que emocional. E trata-se de uma atitude que, se beneficia os veículos, por um lado, possibilitando mais venda de jornais, mais cliques em sites e Ibope na TV, também pode prejudicá-los, por outro. É também atribuição do sistema neurológico a fuga daquilo que incomoda, e isso pode explicar porque um ícone do jornalismo sensacionalista, o “NP”, acabou baixando as portas.
Há, entretanto, uma oportunidade para se tirar do caso uma reflexão, não apenas no sentido de lamentar ou se indignar pela morte da inocente menina que se foi, mas buscando novas condutas aos que continuam praticando atos brutais e inaceitáveis (muitas vezes bem longe da mídia). O caso Nardoni nos alerta que é preciso rever o quanto de afeto temos de dar às nossas famílias, quanto de atenção um pai ou uma mãe separada dá aos filhos que deixou com o ex-cônjuge (crianças que nunca serão seus “ex-filhos”, mas sempre os mesmos filhos de quando o casal ainda era unido), e qual o elo de respeito entre um casal que resolve não mais compartilhar suas vidas.
Quando, mesmo após uma ruptura conjugal, permanece um elo de justiça entre um ex-casal, um apoio mútuo, os filhos sofrem menos. Quando não há, o sofrimento de inocentes criaturas pode ser desastroso. Isso porque a atitude dos pais, juntos ou não, continua sendo modelo para suas crianças, que deles dependem, que com eles aprendem ou “desaprendem”.
De toda a tragédia que ora toma o centro do picadeiro, fica um desafio a pais e mães: o de manter intacta a responsabilidade que lhes é inerente como genitores, mesmo quando o amor pelo cônjuge se vai. Porque os filhos ficam, necessitando do amor que mais lhes protege e lhes prepara para a vida: o amor materno e o amor paterno, ambos inalienáveis, necessários para a construção de famílias mais estruturadas e de um país mais digno.
Leo Fraiman
Psicoterapeuta, palestrante e diretor da Clínica Fraiman - leo@fraiman.com.br