07 de novembro de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: Dois projetos e duas promessas sem fim

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 12 min
Divulgação/Rodovia das Colinas
Marginais da Santos Dumont e acessos da Bandeirantes atravessam governos, acumulam estudos e continuam sem solução definitiva.

Há promessas políticas que envelhecem tão mal que acabam se transformando em parte da paisagem. Em Campinas, duas reivindicações viárias parecem ter alcançado essa condição: a construção das marginais da Rodovia Santos Dumont (SP-75), entre a Anhanguera e a Bandeirantes, e a implantação de novos acessos da Rodovia dos Bandeirantes à região do Campo Grande. São projetos que atravessaram governos, renderam reuniões, anúncios, estudos, fotografias e declarações de autoridades. O que ainda não produziram foi aquilo que realmente interessa à população: obras iniciadas e melhorias concretas na mobilidade. E, embora as duas histórias tenham obstáculos bastante diferentes, compartilham um problema recorrente da administração pública brasileira: a facilidade para anunciar soluções e a dificuldade para transformá-las em realidade.

O caso mais emblemático é o das marginais da Santos Dumont. Acompanho essa reivindicação praticamente desde que comecei a trabalhar com jornalismo e já perdi a conta de quantas vezes ouvi que a obra finalmente sairia do papel. Passaram pelos governos estaduais Geraldo Alckmin, José Serra, João Doria e, agora, Tarcísio de Freitas. As administrações se sucederam, os discursos foram renovados e o motorista continuou enfrentando os mesmos congestionamentos. O trecho urbano da rodovia, utilizado diariamente por trabalhadores, moradores da região sudoeste e pessoas que se deslocam para Viracopos, Indaiatuba e outros municípios, tornou-se um dos símbolos da saturação viária de Campinas. O mais triste é perceber que o caos deixou de ser tratado como uma situação excepcional. Foi incorporado à rotina, como se perder tempo todos os dias num corredor congestionado fosse uma condição inevitável para quem vive naquela parte da cidade.

A história documentada ajuda a dimensionar a dimensão dessa espera. Em 2014, durante o governo Alckmin, houve anúncio das marginais. Em 2017, o próprio Estado publicou um decreto declarando de utilidade pública quase 30 mil metros quadrados de imóveis necessários à implantação do projeto. Depois vieram novas discussões, revisões técnicas, reuniões com a concessionária e avaliações sobre desapropriações, acessos e interferências nos bairros. Em abril de 2025, a Prefeitura de Campinas aprovou o projeto em sua esfera de competência. Naquele ano, a expectativa divulgada era iniciar a construção no primeiro semestre de 2026. Ou seja, não estamos falando de uma ideia vaga, desenhada num guardanapo durante uma reunião política. Existem projetos, atos administrativos e uma longa sequência de compromissos públicos. O que continua faltando é a execução.

Em abril deste ano, Tarcísio voltou a colocar a obra no horizonte ao anunciar que os trabalhos começariam no segundo semestre de 2026. A intervenção, estimada em aproximadamente R$ 400 milhões, prevê cerca de sete quilômetros de marginais em cada sentido, com melhorias nos acessos e na integração com bairros como Jardim São José, Jardim Itatinga e Parque Oziel. O governador afirmou que havia um entendimento com a concessionária para viabilizar o investimento, associado à prorrogação da concessão. É uma informação relevante, porque uma das dificuldades históricas era justamente a ausência dessa obrigação no contrato original. Mas anúncio de solução contratual não é obra iniciada. Longe disso, afinal o ano está acabando e nada aconteceu.

A cobrança, portanto, precisa ser objetiva. Se o projeto está aprovado municipalmente, se houve negociação com a concessionária e se o próprio governador anunciou o início para este semestre, qual é exatamente o impedimento que ainda separa Campinas das máquinas trabalhando na construção das marginais? Falta autorização definitiva da Artesp? Existem desapropriações pendentes? A inclusão do investimento no contrato foi formalizada? Há ordem de serviço e cronograma de execução? Essas respostas deveriam ser apresentadas de maneira transparente. O que não parece razoável é que uma obra discutida há tantos anos continue dependendo de previsões que mudam conforme o calendário político. Para quem enfrenta congestionamentos diariamente, pouco importa qual administração ficará com os créditos pela inauguração. Importa que a obra finalmente aconteça.

A segunda reivindicação, envolvendo os acessos da Rodovia dos Bandeirantes ao Campo Grande, possui uma história ainda mais antiga e um obstáculo de natureza diferente. Há registros de discussões sobre essa ligação desde os anos 1980. Em 2009, a Câmara de Campinas já debatia alternativas para conectar a região à rodovia, inclusive mudanças na classificação de trechos das avenidas John Boyd Dunlop e Ruy Rodriguez. Em 2020, a Artesp voltou a anunciar estudos técnicos para possíveis alças entre os quilômetros 92 e 95. No ano seguinte, uma divulgação parlamentar informou que o então diretor-geral da agência havia garantido a construção dos acessos. Mas uma resposta oficial da própria Artesp, em 2022, confirmou apenas a existência de estudos preliminares e esclareceu que as intervenções não faziam parte das obrigações contratuais da concessionária AutoBan. Entre a garantia anunciada e o compromisso efetivamente formalizado havia, portanto, uma distância considerável.

O principal entrave está na própria concepção da Bandeirantes, uma rodovia expressa de Classe 0, projetada para deslocamentos de alta velocidade e com controle rigoroso dos pontos de entrada e saída. Essa característica impõe restrições técnicas importantes à criação de conexões diretas com avenidas urbanas. Não significa, necessariamente, que qualquer novo acesso seja juridicamente impossível, mas exige soluções compatíveis com as normas de segurança, autorizações específicas e adequações contratuais. É justamente essa distinção que precisa ser esclarecida de uma vez por todas. Se existe uma alternativa tecnicamente viável, qual é o projeto, quanto custará, quem pagará e quando poderá ser executado? Se as soluções reiteradamente anunciadas não atendem às exigências da rodovia, por que continuam sendo apresentadas à população como se estivessem próximas de se concretizar?

É nesse segundo caso que considero especialmente necessária uma mudança de postura das lideranças políticas locais. Ao longo dos anos, parlamentares e representantes municipais anunciaram reuniões, cobraram estudos, divulgaram avanços e alimentaram expectativas de uma ligação que nunca foi entregue. É legítimo que procurem alternativas e pressionem o Estado por investimentos. O problema começa quando a divulgação de uma reunião ou de um estudo preliminar passa a produzir a impressão de que a obra está encaminhada, mesmo sem autorização definitiva, orçamento ou compromisso de execução. A sucessão de anúncios pode até demonstrar movimentação política, mas não comprova que os obstáculos tenham sido superados. E o cidadão tem o direito de saber a diferença entre uma reivindicação em análise e uma intervenção efetivamente viabilizada.

Também é preciso reconhecer que a demanda por melhores acessos ao Campo Grande é real e não desaparece diante de uma restrição técnica. Trata-se de uma das regiões mais populosas de Campinas, que enfrenta dificuldades históricas de mobilidade e depende de corredores urbanos intensamente utilizados. Se a ligação direta à Bandeirantes não puder ser implantada nas condições pretendidas, o poder público tem a obrigação de estudar e apresentar alternativas concretas, em vez de manter indefinidamente a mesma promessa em circulação.

As duas histórias revelam, no fundo, formas diferentes de um mesmo desgaste. Na Santos Dumont, existe um projeto que avançou administrativamente, mas continua à espera de execução. Na Bandeirantes, a discussão permanece presa à viabilidade técnica, às restrições de uma rodovia expressa e à ausência de um compromisso contratual comprovado. Misturar as duas situações seria um erro, mas aceitar indefinidamente a repetição das promessas seria outro. Governantes e parlamentares não precisam ter respostas imediatas para todos os problemas. Precisam, porém, apresentar informações honestas sobre o que é possível, o que está impedido e quais medidas concretas estão sendo adotadas.

O motorista campineiro não precisa de mais uma fotografia de reunião, de outro anúncio otimista ou de uma previsão que será substituída no próximo semestre. Precisa de soluções para deslocamentos que consomem tempo, dinheiro e qualidade de vida. E, quando uma intervenção não pode ser realizada, precisa que alguém tenha a coragem de explicar por quê, sem transformar uma impossibilidade técnica em promessa eleitoral permanente.

Na Santos Dumont, a pergunta é quando a obra finalmente começará. Na Bandeirantes, a pergunta anterior ainda não foi respondida: o acesso prometido pode mesmo ser construído?

Enquanto essas respostas não chegam, Campinas continua pagando a conta de duas esperas que já duram tempo demais.

E promessa, por mais vezes que seja renovada, não abre uma única faixa de trânsito.

Novo acesso ao Anel Viário


Divulgação/CMC

A possibilidade de construir um novo acesso ao Anel Viário José Roberto Magalhães Teixeira (SP-083), em Campinas, entrou na pauta da Câmara Municipal. Os vereadores aprovaram uma moção que solicita ao Governo de São Paulo e à concessionária responsável pela rodovia a realização de estudos para implantar uma alça de entrada e saída nas proximidades dos condomínios Colinas de Roma e Colinas de Mônaco, na região do Jardim Aliança. A proposta busca reduzir os deslocamentos de moradores que atualmente precisam percorrer caminhos mais longos para alcançar o sistema rodoviário.

A iniciativa é do vereador Carmo Luiz (Republicanos), que encaminhou o pedido à Rota das Bandeiras, à Agência de Transporte do Estado de São Paulo (Artesp) e à Secretaria de Parcerias em Investimentos do governo estadual. O parlamentar argumenta que a falta de uma ligação direta com a SP-083 obriga motoristas a utilizar vias urbanas e procurar acessos mais distantes, aumentando o tempo das viagens e a circulação de veículos pelas ruas da região.

Na justificativa apresentada à Câmara, Carmo Luiz sustenta que a dificuldade de conexão com o Anel Viário afeta deslocamentos cotidianos para o trabalho, escolas, hospitais e estabelecimentos comerciais.

Segundo o vereador, os trajetos adicionais podem representar maior gasto com combustível, aumento do tempo de viagem e sobrecarga do trânsito nas vias locais. A proposta é criar uma alternativa que permita distribuir melhor o fluxo de veículos e facilitar a ligação dos bairros com a malha rodoviária regional.

“A implantação de um acesso estrategicamente localizado, caso comprovada sua viabilidade técnica, poderá proporcionar melhores condições de deslocamento aos moradores, facilitar a conexão com o sistema rodoviário regional e contribuir para uma distribuição mais eficiente do fluxo de veículos”, argumenta o parlamentar.

O Anel Viário José Roberto Magalhães Teixeira é uma ligação rodoviária importante para a circulação de veículos na região de Campinas. Por isso, a abertura de novos acessos depende de avaliações que considerem segurança viária, capacidade de tráfego e compatibilidade com a infraestrutura existente.

A moção solicita justamente que a concessionária e os órgãos estaduais examinem as condições necessárias para uma eventual intervenção.

Além de facilitar o deslocamento dos moradores, o vereador defende que uma nova alça poderia contribuir para a organização do trânsito e o desenvolvimento urbano da região.

“A mobilidade urbana interfere diretamente na rotina das famílias, na produtividade dos trabalhadores e na qualidade de vida da população”, afirma Carmo Luiz.

Vereador de Sumaré vira réu por tráfico


Divulgação

A Justiça determinou que o vereador Hélio Pereira da Silva (Cidadania), de 55 anos, permaneça preso preventivamente e fique afastado da Câmara Municipal de Sumaré por 180 dias. A decisão também transformou o parlamentar em réu por acusações relacionadas ao tráfico de drogas e à posse irregular de arma de fogo. Segundo o Ministério Público, Hélio teria financiado e comandado uma estrutura de distribuição de entorpecentes na cidade, com possível utilização de recursos públicos ligados ao Legislativo.

O vereador, que ocupava a presidência da Câmara, está preso desde 9 de setembro, quando foi detido em Paulínia durante a Operação Archimagus, conduzida pela Polícia Federal. Com a nova decisão, a prisão, anteriormente temporária, passou a ser preventiva. O afastamento judicial também impede Hélio de utilizar veículos oficiais, servidores, sistemas administrativos e quaisquer recursos da Câmara, mesmo por intermédio de terceiros.

A determinação foi assinada pelo juiz Leonardo Delfino, que recebeu a denúncia apresentada pelo Ministério Público de São Paulo. Além de Hélio, Maikon Baptista da Costa e Admilson da Silva passaram à condição de réus e tiveram a prisão preventiva decretada. Os três respondem a acusações relacionadas à suposta estrutura criminosa, mas ainda não há condenação.

A suspeita central da investigação é de que Hélio ocupava uma posição de comando em uma organização responsável pela compra, preparação, armazenamento e comercialização de drogas em Sumaré.

Segundo o Ministério Público, as atividades investigadas ocorreram pelo menos entre maio e setembro de 2026. O grupo teria uma divisão de funções, com integrantes encarregados de adquirir entorpecentes, preparar os produtos para distribuição e abastecer pontos de venda.

Na decisão, o juiz apontou indícios de que o parlamentar financiaria a compra de drogas e de materiais utilizados no refino, além de coordenar a distribuição por meio de intermediários.

As suspeitas surgiram durante uma investigação da Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) de Campinas, que realizou monitoramentos entre janeiro e agosto. O trabalho resultou na Operação Archimagus, deflagrada em setembro, com mandados cumpridos em municípios paulistas e em Minas Gerais.

Um dos pontos considerados pela Justiça envolve o possível uso da estrutura da Câmara Municipal de Sumaré nas atividades investigadas.

Conforme os elementos apresentados no processo, encontros entre o vereador e outros suspeitos teriam ocorrido com a utilização de um veículo oficial do Legislativo. Durante as diligências, os policiais encontraram dois aparelhos celulares e R$ 6.760 em dinheiro no automóvel.

A investigação também identificou movimentações financeiras e conversas extraídas de celulares que, segundo o Ministério Público, ajudariam a demonstrar a existência de uma estrutura organizada para o comércio de drogas.

Outro elemento citado na decisão foi a apreensão de um revólver calibre .38 e munições em um imóvel rural utilizado pelo vereador em Jacutinga, Minas Gerais. No gabinete da Presidência da Câmara, os investigadores localizaram documentos bancários relacionados a uma pessoa apontada como ligada a uma refinaria de cocaína.

Esses materiais integram o conjunto de indícios analisado pela Justiça, mas as circunstâncias e a responsabilidade de cada acusado ainda serão examinadas no processo criminal.

A decisão alcançou ainda Maikon Baptista da Costa e Admilson da Silva, apontados como integrantes da suposta organização.

Durante a operação de setembro, Maikon foi preso em flagrante após a apreensão de 857 gramas de maconha e haxixe em seu apartamento.

Admilson foi detido posteriormente, em 26 de setembro, quando policiais encontraram porções de maconha, haxixe e cocaína, além de R$ 3.794,20 em dinheiro. Conforme os registros citados pela Justiça, ele teria admitido aos agentes que comercializava entorpecentes.

Ao avaliar a necessidade das prisões preventivas, o magistrado considerou a continuidade das atividades investigadas, os valores financeiros envolvidos e o risco de reorganização da suposta estrutura criminosa.

A decisão judicial estabelece que Hélio não poderá exercer as funções de vereador nem atuar como presidente da Câmara durante o período inicial de 180 dias. A restrição poderá ser reavaliada pela Justiça.

O parlamentar também está proibido de entrar nas dependências do Legislativo, realizar atos de gestão ou representação e utilizar a estrutura da instituição, diretamente ou por meio de outras pessoas.

A Casa informou que foi comunicada da ordem judicial e adotará as providências necessárias para seu cumprimento. O Legislativo continua sob o comando interino de Lucas Agostinho, primeiro vice-presidente da Mesa Diretora.

Mesmo após a prisão em setembro, Hélio permaneceu candidato a deputado federal pelo Cidadania nas eleições de 2026. Ele recebeu 1.981 votos e terminou a disputa na condição de suplente.