28 de outubro de 2026
ARTIGO

De novo, 'morro abaixo, morro acima'...

Por Cecílio Elias Netto |
| Tempo de leitura: 3 min

Fale-se o que se quiser; proteste-se, discorde-se, negue-se. Mas a realidade inegável – e, ainda outra vez, confirmada – está em que o sr. Luiz Ignácio Lula da Silva é o maior líder popular que este país já conheceu. E que dificilmente surgirá outro com o mesmo magnetismo de conquistar o povo e de, por este, ser amado. Torna-se expressão realmente mundial, igualando-se a Roosevelt que, no entanto, faleceu antes de concluir o quarto mandato nos Estados Unidos. Reconhecer tal evidência – mais do que ato de humildade – é questão de honestidade moral.  

Este articulista votou para a presidência da República ao mal completar seus 19 anos de idade. Foi no já longínquo 1960. Ao contrário do que muitos insistem atualmente, havia, sim, polarizações, extremismos, radicalidades. Não apenas no Brasil, mas no mundo. Iniciara-se a chamada “Guerra Fria”. Cuba revelava-se, então, modelo de resistência às ditaduras impostas à América Latina. Fidel Castro era considerado herói sul-americano, com Che Guevara tornando-se como que ídolo de uma juventude internacional. Tudo eram sonhos, esperanças. Até mesmo a radicalidade fazia parte da aventura daqueles “Anos Dourados”. Que duraram pouco. Mas, inesquecíveis.  

O golpe militar – com manifesto apoio do governo dos Estados Unidos – trouxe-nos duas décadas de “Anos de Chumbo”, apesar de realizações que não podem ser negadas. Todas elas, no entanto, ao preço da perda da liberdade de um povo. Por isso, a um custo que lhe roubou muito de sua importância. Foi quando, já no final dos 1970, apareceu um jovem que nos parecia tresloucado, operário e sindicalista destacando-se por sua audácia e valentia. E tão aparentemente pretensiosas pareciam que o moço decidiu criar até mesmo um partido político: o dos Trabalhadores, um certo PT.  

O inesperado aconteceu: intelectuais, acadêmicos, pensadores juntaram-se aos operários na criação de algo realmente novo no Brasil. O operário Lula tornava-se reconhecido como o Lech Walesa sul-americano, o líder operário polonês que enfrentara o bloco soviético. Walesa criara o partido “Solidariedade” da Polônia, um novo bastião pela liberdade. O mundo democrático o aplaudira efusivamente e ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz.  E o Brasil despertou para a figura e personalidade de um Lula que jornais e revistas enalteciam sem sequer imaginar que ele revolucionaria, também, o universo político. O magnetismo fora tanto que mulheres consideraram o moço Lula até mesmo como o “homem mais sexy do Brasil”, ora, vejam! 

Pois bem, mulheres... Tal foi o entusiasmo delas por aquilo que o ex-retirante do Nordeste passara a significar, que o poema de Belmiro Braga ressurgiu: “Quando a mulher quer, eu acho/ Que nem Deus a desanima.../ É água de morro abaixo/ É fogo de morro acima.” Lula – desafiando análises psicológicas, interpretações – magnetizou a população. Dividiu-a. Polarizou. Não mais foi possível estar indiferente àquele personagem de aparência e de formação tidas como inviáveis. Estar com ele ou contra ele; querê-lo ou eliminá-lo; amá-lo ou detestá-lo.  

Ora, há que se ter muita passionalidade para não se respeitar essa impressionante decisão popular de conduzir o sr. Lula a um quarto mandato presidencial! E com plena liberdade de escolha, numa eleição que – acima de tudo – revelou o mais importante e valioso: o Brasil é uma democracia. Que, mesmo cobrando certas mudanças, se torna sólida e resistente. Águas vieram morro abaixo, fogo acendeu morro acima. Foi a “vox populi”. E, quando o povo quer, também acho, “nem Deus o desanima”.