A reeleição de Lula (PT) para um quarto mandato presidencial não mudou apenas o cenário político nacional. Em Campinas, o resultado também movimentou o tabuleiro de forças, deu projeção a personagens locais e abriu novas possibilidades para os próximos dois anos. Entre os integrantes da política municipal, o vice-prefeito Wanderley de Almeida, o Wandão (PSB), ganhou especial visibilidade com a vitória do presidente. Wandão assumiu uma posição pública que o diferenciou dentro da própria administração municipal e participou ativamente de uma mobilização que procurou ampliar o alcance da campanha para além dos círculos tradicionais da esquerda.
É preciso reconhecer que o PT de Pedro Tourinho e o PSOL de Mariana Conti já ocupavam esse espaço político em Campinas. Ambos possuem trajetórias consolidadas, militância organizada e participação direta na campanha presidencial. A vitória nacional de Lula também oferece a esses grupos uma oportunidade de ampliar sua articulação política, embora o resultado local imponha limites a qualquer leitura triunfalista. A particularidade de Wandão foi atuar como uma ponte entre esse campo e setores que não necessariamente se identificam com o PT ou com o PSOL. Filiado ao PSB e ocupando a Vice-Prefeitura numa administração conservadora comandada pelo Republicanos, ele acrescentou à mobilização uma presença institucional e uma trajetória política distinta daquelas dos representantes tradicionais da esquerda campineira. Furou a bolha.
O apoio de Wandão também não surgiu por conveniência de última hora. Sua história política está ligada ao movimento dos trabalhadores, à proximidade com o ex-prefeito Jacó Bittar e à participação em campanhas anteriores de Lula. Durante o segundo turno, o vice-prefeito tornou pública ainda mais essa identificação, participou de manifestações, trouxe o vice-presidente Geraldo Alckmin e direcionou mensagens aos eleitores que não haviam comparecido à votação de 4 de outubro. A autenticidade de uma trajetória não garante votos, mas ajuda a explicar a naturalidade com que Wandão assumiu um papel de mobilizador. Seu posicionamento também recebeu manifestações favoráveis de lideranças locais da esquerda, sinalizando reconhecimento político num campo que já possuía seus próprios protagonistas.
Divulgação/PSB Campinas
Os números das urnas ajudam a dimensionar o que aconteceu em Campinas. Lula passou de 241.972 votos no primeiro turno para 303.914 no segundo, um crescimento de 61.942 votos. Flávio Bolsonaro (PL) também ampliou sua votação, de 329.733 para 360.222, mas em proporção menor. Com isso, a diferença entre os dois caiu de 87.761 para 56.308 votos. O comparecimento aumentou em 22.656 eleitores, enquanto brancos e nulos também recuaram. Houve, portanto, uma reação eleitoral mensurável da candidatura petista, mesmo sem a conquista da maioria no município. A atuação de Wandão fez parte desse esforço, ao lado de partidos, militantes e outras lideranças.
Do outro lado estava o prefeito Dário Saadi (Republicanos), que também decidiu se envolver publicamente na disputa presidencial. Sua atuação, entretanto, seguiu um caminho diferente. Dário começou a campanha demonstrando apoio muito mais intenso ao governador Tarcísio de Freitas, seu aliado político e partidário, do que ao candidato presidencial do PL. No segundo turno, passou a declarar expressamente seu voto em Flávio Bolsonaro, gravou vídeos, reuniu dirigentes partidários e participou da articulação do ato realizado no Centro de Convivência. A impressão política é que sua aversão ao PT e a Lula constitui um elemento mais evidente desse posicionamento do que uma identificação ideológica e visceral com o bolsonarismo. Trata-se, naturalmente, de uma interpretação sobre sua trajetória e seus gestos públicos, não de uma motivação que o prefeito tenha declarado.
A comparação entre prefeito e vice é inevitável, mas precisa ser feita com cuidado. Wandão se envolveu numa campanha que cresceu expressivamente entre os turnos e terminou vencedora no país. Dário participou da mobilização de um candidato que venceu em Campinas, mas perdeu a disputa nacional. O resultado oferece a Wandão maior espaço de articulação com o campo político que continuará no comando do governo federal, enquanto Dário mantém vínculos relevantes com Tarcísio, reeleito governador paulista. São relações institucionais e partidárias distintas, que podem influenciar os movimentos políticos dos dois nos próximos anos. Isso não significa, porém, que a eleição presidencial tenha redefinido automaticamente a hierarquia de forças dentro da Prefeitura.
E aqui entra o contraponto indispensável a qualquer entusiasmo da esquerda campineira, neste momento, pelo Quarto Andar. Flávio Bolsonaro venceu os dois turnos presidenciais em Campinas. No domingo, recebeu 360.222 votos, equivalentes a 54,24% dos válidos, contra 45,76% de Lula. Na disputa estadual, o recado havia sido ainda mais expressivo: Tarcísio conquistou 61,94% dos votos válidos do município, enquanto Fernando Haddad (PT) ficou com 37,10%. O governador demoliu o adversário e garantiu a reeleição já no primeiro turno. Esses resultados demonstram que, nas duas principais disputas majoritárias de 2026, a maioria dos eleitores campineiros que votaram escolheu candidaturas do campo da direita.
Essa distinção será fundamental para compreender os próximos movimentos. O fortalecimento político de Wandão dentro do campo progressista não significa que Campinas tenha se tornado favorável a um projeto de esquerda. O desempenho de Tarcísio e Flávio permite concluir que a cidade, atualmente, está vinculada à direita. Porém, eleições municipais possuem dinâmicas próprias, influenciadas por avaliações da administração, perfis pessoais, alianças e problemas locais. O eleitor que escolheu Flávio para presidente ou Tarcísio para governador não está automaticamente comprometido com qualquer candidato que venha a representar esse mesmo campo na sucessão de Dário.
É justamente por isso que 2028 começa a aparecer no horizonte, ainda que faltem dois anos e muitas definições. Dário terá de administrar a reta final de seu mandato e seu grupo político precisará construir uma candidatura à sucessão, cujo nome ainda não está definido. Wandão, por sua vez, terá de decidir como pretende utilizar a projeção conquistada nesta eleição e de que maneira sua relação com o PSB, o PT e outras forças progressistas poderá evoluir.
Pedro Tourinho, candidato natural do PT em Campinas, e Mariana Conti, que teve um sucesso estrondoso e foi eleita deputada estadual, também continuarão ocupando espaços próprios nesse campo. A reeleição de Lula cria novas possibilidades de articulação, mas não resolve antecipadamente quem liderará a esquerda campineira nem como ela se apresentará à próxima eleição municipal.
Há ainda variáveis que ninguém controla neste momento. O desempenho dos dois anos finais da administração Dário, a capacidade do grupo governista de apresentar um sucessor competitivo, a avaliação do segundo mandato de Tarcísio e os primeiros resultados do quarto governo Lula poderão alterar o ambiente político. Também será necessário observar se as alianças formadas na campanha presidencial terão continuidade ou se cada partido retomará seus interesses municipais. O cenário de outubro de 2026 é uma fotografia importante, mas não um retrato definitivo de outubro de 2028.
A eleição de domingo deixou, portanto, duas mensagens que não deveriam ser confundidas. Wandão ganhou projeção política, ampliou sua participação no debate local e passou a ocupar uma posição de maior visibilidade entre os apoiadores do presidente reeleito. Ao mesmo tempo, as urnas mostraram que Campinas manteve maioria para candidaturas da direita nas disputas presidencial e estadual.
O vice-prefeito pode sair politicamente fortalecido de uma eleição que seu candidato venceu no país, mas perdeu na cidade. Essa é a aparente contradição que melhor resume o novo tabuleiro campineiro. O que Wandão, Dário e os demais personagens farão com esse resultado será parte da história política dos próximos dois anos.
Até 2028, há muito chão. E nenhuma das forças que hoje comemoram seus próprios resultados pode tratar o eleitorado de Campinas como território conquistado.
Divulgação/CMC
A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) provocou uma cobrança pública dentro da base do prefeito Dário Saadi (Republicanos) na Câmara de Campinas. Durante a sessão ordinária desta segunda-feira (26), o vereador Marcelo Silva (PP) criticou o apoio do vice-prefeito Wanderley de Almeida, o Wandão (PSB), à candidatura petista e defendeu uma revisão das relações políticas no governo municipal.
Marcelo demonstrou insatisfação com o fato de Dário e Wandão terem apoiado candidatos diferentes na eleição presidencial. Enquanto o prefeito se posicionou a favor de Flávio Bolsonaro (PL), o vice participou da campanha de Lula. Para o vereador, a divergência pode dificultar a articulação política nos dois anos restantes do mandato. “Está no momento de nós revermos aqui a posição dessa casa. Fica muito complicado a gente conseguir governar mais dois anos tendo esse distanciamento entre o Dario, entre o Wandão”, afirmou.
O vereador também ironizou e sugeriu que Wandão procure os parlamentares de PT, PSOL e PCdoB, partidos que estiveram ao seu lado na campanha presidencial, para tentar buscar apoio a projetos considerados difíceis para a administração municipal. “Também pedi ao Wandão para que converse com vereadores aqui do PT, do PSOL, do PCdoB, que tanto esteve ao lado nessa caminhada”, declarou.
Marcelo citou especificamente o Camprev, instituto de previdência dos servidores municipais, como exemplo de tema que exige articulação política. “Eu quero ver se eles vão vir aqui defender o projeto do governo”, disse, ao questionar se a aproximação eleitoral poderia resultar em apoio às propostas da Prefeitura.
O parlamentar também defendeu uma mudança na postura da base governista. “Acho que chegou a hora de a gente tentar sacudir essa casa, rever as posições, porque fica complicado a gente trabalhar com políticas tão antagônicas lado a lado”, afirmou.
A manifestação ocorreu um dia depois do segundo turno, quando Flávio Bolsonaro venceu em Campinas com 54,24% dos votos válidos, contra 45,76% de Lula, apesar da reeleição do petista no cenário nacional.
Marcelo comemorou o resultado local e criticou a participação do vice-prefeito na campanha. “Nem com o esforço gigantesco do vice-prefeito fazendo caminhada, chamando a população, conseguiu com que revertesse”, declarou.
A fala de Marcelo expõe o desconforto de parte da base governista com o posicionamento do vice-prefeito e leva a divergência eleitoral para o debate sobre a aprovação de projetos na Câmara.
Divulgação/PMC
O prefeito de Campinas, Dário Saadi (Republicanos), reconheceu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas evitou mencionar o nome do petista em sua manifestação sobre o resultado das eleições presidenciais. Em uma nota curta encaminhada à imprensa, Dário preferiu agradecer aos eleitores que votaram em Flávio Bolsonaro (PL) e defender a ampliação das parcerias entre o governo federal e os municípios.
“Quero agradecer aos campineiros que, em sua maioria, votaram em Flávio Bolsonaro. Estarei sempre defendendo os interesses de Campinas junto ao governo federal e espero que o presidente reeleito amplie a parceria com os municípios!”, afirmou Dário.
Embora não tenha citado Lula nominalmente, o prefeito utilizou a expressão “presidente reeleito”, reconhecendo o resultado das urnas. Ao mesmo tempo, sinalizou que pretende manter a interlocução institucional com Brasília, independentemente das diferenças políticas demonstradas durante a campanha.