O prefeito Dário Saadi (Republicanos) nunca fez qualquer esforço para esconder sua preferência na eleição para o Governo de São Paulo. Dário é um aliado político de Tarcísio de Freitas, correligionário do governador e, poderíamos dizer, um “tarcisista” convicto. Durante a campanha, participou de atos, dividiu palanque, defendeu realizações do governo estadual e colocou Campinas no roteiro político da tentativa de reeleição de Tarcísio. Em setembro, por exemplo, a cidade recebeu um grande encontro regional da campanha, com prefeitos e lideranças políticas, no qual Dário participou diretamente da defesa de mais quatro anos para o governador.
Na disputa presidencial, entretanto, o volume foi bem diferente. Isso não significa dizer que Dário tenha escondido sua preferência. Em maio, esteve no lançamento da candidatura de Guilherme Derrite ao Senado, em Campinas, evento que reuniu Tarcísio, Sergio Moro e Flávio Bolsonaro. Na ocasião, o prefeito discursou em ambiente claramente alinhado à candidatura presidencial de Flávio. Mais tarde, no encontro regional de Tarcísio, também houve manifestação favorável ao candidato do PL.
Mas existe diferença entre declarar apoio e transformar esse apoio em uma bandeira política pessoal. E foi justamente essa segunda atitude que praticamente não vimos de Dário durante a campanha presidencial. O prefeito possui redes sociais bastante ativas, utiliza esses canais para divulgar ações administrativas e também agendas políticas, mas não emprestou sua imagem à candidatura de Flávio Bolsonaro com a mesma intensidade observada na campanha de Tarcísio.
É uma diferença interessante porque Dário também nunca escondeu sua oposição ao PT e ao governo Lula. Portanto, não parece existir dúvida relevante sobre em qual lado dessa disputa presidencial o prefeito se posiciona. A questão é o tamanho da exposição que escolhe assumir. Com Tarcísio, abraço aberto. Com Flávio, apoio declarado quando o ambiente político o colocou diante dessa escolha, mas sem transformar o candidato presidencial numa presença constante de sua própria comunicação.
A cautela chama ainda mais atenção quando lembramos que Dário já demonstrou proximidade com o campo bolsonarista. Em maio, inclusive, escrevemos nesta coluna sobre as diferenças de comportamento do prefeito em agendas envolvendo Flávio Bolsonaro e Lula. Naquele momento, Dário apareceu bastante confortável entre lideranças da direita e explicitou alinhamento político naquele evento. O que a campanha posterior mostrou, porém, foi que essa proximidade não se converteu numa exposição eleitoral comparável àquela dedicada a Tarcísio.
Pode haver várias explicações políticas para isso, mas seria especulação escolher uma sem que o próprio prefeito a apresente. Dário pode simplesmente considerar a eleição estadual mais diretamente relacionada à sua administração, pode distinguir Tarcísio do bolsonarismo nacional ou pode ter decidido não transformar a eleição presidencial numa bandeira de seu governo. O fato observável é a diferença de intensidade.
E ela ficou ainda mais evidente nesta semana graças justamente ao homem que ocupa a sala ao lado.
Enquanto Dário manteve essa postura discreta na corrida presidencial, seu vice, Wanderley de Almeida, o Wandão (PSB), resolveu eliminar qualquer possibilidade de dúvida sobre seu voto no segundo turno. Publicou uma fotografia vestido de vermelho e usando um boné “Lula Tetra”. Junto à imagem, escreveu: “Eu sou filho de um motorista de ônibus e de uma costureira, pra mim só há uma escolha”. Nos comentários, reforçou a mensagem ao escrever que é “da periferia” e mencionar “consciência de classe”.
O contraste é politicamente delicioso.
Prefeito e vice chegam ao segundo turno presidencial em lados opostos — e com comportamentos igualmente opostos. Wandão colocou literalmente o boné de seu candidato. Dário, até aqui, não transformou o apoio a Flávio numa bandeira pública comparável àquela que levantou por Tarcísio.
Isso também ajuda a lembrar como é peculiar a composição política do governo de Campinas. Dário pertence ao Republicanos, partido de Tarcísio e que já anunciou a intenção de lançar candidato próprio à sucessão municipal em 2028. Wandão pertence ao PSB, legenda que integra o campo de apoio a Lula e que possui em Jonas Donizette sua principal liderança local. O próprio presidente nacional do Republicanos, Marcos Pereira, já admitiu que a aliança entre Republicanos e PSB em Campinas poderá não se repetir.
Por enquanto, porém, os dois continuam administrando juntos.
E talvez a fotografia política desta semana seja justamente essa: Dário e Wandão dividem o mesmo governo municipal, mas não precisam dividir o mesmo candidato a presidente.
Wandão resolveu mostrar o seu com roupa vermelha, boné e declaração explícita. Dário já declarou o seu em palanques, mas escolheu uma exposição bem menor.
Não sabemos se essa diferença é apenas circunstancial ou se contém algum cálculo olhando também para o futuro político de Campinas.
Mas, numa eleição em que quase todo gesto é cuidadosamente calculado, às vezes aquilo que um político escolhe não publicar diz tanto quanto aquilo que publica.
Divulgação/CMC
A morte de animais vítimas de violência poderá passar a ser lembrada oficialmente no calendário de Campinas. A Câmara Municipal aprovou, nesta quarta-feira (7), a criação do Dia Municipal em Memória dos Animais Vítimas de Maus-Tratos, com celebração prevista para 4 de janeiro. A proposta foi votada em turno único durante a 57ª Reunião Ordinária.
De autoria do vereador Hebert Ganem (Podemos), o projeto foi inspirado no caso do cão comunitário Orelha, que ganhou repercussão nacional e se tornou uma referência nas discussões sobre crueldade e proteção animal. A iniciativa pretende transformar a lembrança dos animais mortos em uma oportunidade de conscientização sobre a violência.
Diferentemente de propostas que estabelecem multas ou outras penalidades, o projeto tem caráter educativo e simbólico. O objetivo é incentivar reflexões sobre os maus-tratos, estimular o respeito aos animais e manter o tema presente nas discussões sobre políticas públicas de proteção animal.
A referência ao cão comunitário Orelha está no centro da proposta. O caso mobilizou manifestações em defesa dos animais e passou a representar, para integrantes da causa animal, a necessidade de ampliar o debate sobre a prevenção da violência.
Segundo Hebert Ganem, a criação da data também busca fortalecer as iniciativas de proteção animal já existentes no município. Para o vereador, preservar a memória das vítimas é uma maneira de contribuir para que novos episódios de crueldade não se repitam.
A aprovação ocorre em meio à presença frequente de propostas relacionadas à causa animal na pauta do Legislativo campineiro. Na mesma reunião desta quarta-feira, os vereadores também tinham prevista a análise de mudanças nas regras do Banco de Ração e Utensílios para Animais, programa municipal criado em 2021.
Com a aprovação em turno único, a proposta segue para as etapas necessárias à sua transformação em lei. A instituição da data, por si só, não cria novas punições para casos de maus-tratos, mas busca ampliar a conscientização e a mobilização em defesa dos animais.