15 de setembro de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: Uma câmara entre provocações e chineladas

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 9 min
Divulgação/CMC
Primeira sessão após a cassação de Vini teve pauta esvaziada de polêmicas, mas ataques do ex-vereador voltaram ao plenário - e terminaram até com chinelo voando.

A Câmara de Campinas tentou voltar à normalidade nesta segunda-feira (14). Tentou. Era, na prática, a primeira reunião ordinária depois da histórica cassação de Vini Oliveira, já que a sessão da própria quarta-feira, após o julgamento, acabou derrubada por falta de quórum. E havia sinais evidentes de que ninguém parecia interessado em prolongar demasiadamente a noite. A Ordem do Dia foi resolvida rapidamente, o plenário aproveitou para limpar boa parte de uma pauta recheada de honrarias represadas e matérias capazes de provocar discussões mais demoradas acabaram retiradas. Depois de meses de Comissão Processante e de uma sessão de cinco horas e meia que terminou com a primeira cassação de um vereador da história da Casa, era quase uma noite de descompressão.

Até porque a pauta favorecia isso. Foram aprovados diplomas, denominações de vias e outras matérias sem grande potencial de confronto. Entre os projetos de conteúdo mais amplo, avançou em primeira discussão a proposta de Benê Lima (PL) que reserva pelo menos 30% das novas vagas em atividades de artes marciais promovidas ou subsidiadas pelo município para estudantes da rede municipal de ensino. Também passou em primeira votação o projeto de Hebert Ganem (Podemos) sobre placas de sinalização de silêncio em locais que atendem pessoas com transtorno do espectro autista. Já propostas com maior capacidade de produzir debate ficaram para outra hora: saíram da pauta a Semana Municipal da Limpeza Digital, de Wagner Romão (PT) e Luis Yabiku (Republicanos), e principalmente o projeto de Nick Schneider (PL) que obriga a instalação de placas com informações sobre aborto em determinados estabelecimentos.

Só que limpar a pauta é bem mais fácil do que limpar o ambiente político.

A cassação encerrou o mandato de Vini, mas não encerrou sua presença no debate da Câmara. Desde que deixou o Legislativo, o ex-vereador abriu uma ofensiva pelas redes sociais contra antigos colegas, especialmente Otto Alejandro (PL), Nelson Hossri (PSD) e Higor Diego (Republicanos). Já comentamos aqui que esse aftershock da cassação poderia continuar reverberando por algum tempo. Nesta segunda-feira, reverberou literalmente dentro do plenário.

Era absolutamente previsível que vereadores reagissem às acusações feitas por Vini. Nelson Hossri, um dos principais alvos dos últimos dias, foi à tribuna e fez um discurso duro contra o ex-parlamentar. Vini divulgou conteúdos com acusações graves contra ele, e Hossri reagiu tanto publicamente quanto judicialmente. O vereador afirma ter conseguido inclusive uma liminar determinando a retirada de um dos vídeos publicados pelo ex-colega, sob pena de multa diária de R$ 1 mil.

Até aí, nada surpreendente.

A surpresa veio da plateia. E não apenas uma vez.

Enquanto Hossri discursava, uma mulher começou a contestá-lo do espaço destinado ao público. Divergência, manifestação e protesto fazem parte da vida de um Parlamento. Quem sobe à tribuna para falar de política precisa conviver com aplausos, vaias e críticas, evidentemente dentro das regras estabelecidas para o funcionamento da sessão. Só que a discussão desta vez ultrapassou a fronteira da manifestação verbal.

A mulher arremessou chinelos em direção a Nelson Hossri. A cena foi tão inesperada que o próprio vereador pareceu levar alguns instantes para compreender o que estava acontecendo. O presidente Luiz Rossini (Republicanos) anunciou a intervenção enquanto Hossri, ainda no púlpito e visivelmente revoltado, tentava concluir o discurso com um dos chinelos na mão.

Mas não foi o único momento de tensão envolvendo o parlamentar naquela noite. Em outro episódio, Hossri reagiu de maneira exaltada às provocações de outro manifestante e chegou a fazer menção de “partir para cima” dele. A situação só não escalou ainda mais porque o líder do governo, Paulo Haddad (PSD), interveio e conteve o vereador. Foram episódios diferentes, mas que ajudam a medir o estado de ânimo de uma sessão que, olhando apenas para a Ordem do Dia, poderia até parecer burocrática e tranquila.

Há evidentemente responsabilidades distintas nessas situações. Arremessar qualquer objeto contra um vereador ultrapassa os limites de uma manifestação política aceitável. Da mesma forma, um parlamentar precisa manter o controle diante de provocações justamente porque ocupa uma posição institucional. O plenário é espaço para embate, inclusive duro, mas não pode transformar divergência política em confronto físico. A segunda-feira ofereceu sinais de que os nervos ainda estão à flor da pele dos dois lados.

E talvez essa seja a imagem mais fiel do momento vivido pelo Legislativo campineiro. A Câmara tentou começar sua vida pós-Vini aprovando honrarias, nomes de ruas e projetos praticamente consensuais, mas a temperatura no plenário estava muito distante da normalidade. O ex-vereador, mesmo sem cadeira, continuou politicamente dentro daquele espaço. Estava no discurso de Hossri, nas reações dos vereadores, no ambiente ainda contaminado pela sessão histórica da semana passada e, indiretamente, nas manifestações que transformaram Hossri no protagonista involuntário dos momentos mais tensos da noite.

Isso não significa que a Câmara continuará indefinidamente presa a Vini Oliveira. A política não admite vácuo por muito tempo e outras disputas inevitavelmente ocuparão esse espaço. Mas imaginar que uma cassação por 23 votos a 5, inédita na história da cidade e seguida imediatamente por uma guerra de acusações nas redes sociais, desapareceria com o simples encerramento da Comissão Processante seria ingenuidade. Vini perdeu o mandato, mas ainda conserva capacidade considerável de pautar aqueles que votaram por sua saída.

E existe uma diferença importante entre o julgamento e aquilo que está acontecendo agora. A Câmara precisou de mais de três meses para decidir se Vini deveria permanecer vereador. Otto anunciou reação judicial às acusações feitas contra ele. Hossri procurou a polícia e a Justiça. Higor voltou a ser colocado no centro da discussão sobre os vídeos relacionados à Smile. Do lado de fora, Vini continua utilizando as redes para confrontar antigos colegas e questionar o tratamento que recebeu. A votação terminou, mas seus efeitos políticos continuam entrando pela porta da Câmara.

A segunda-feira mostrou isso com uma clareza quase caricatural.

Era para ser uma sessão de retomada. Foi rápida, a pauta andou, as grandes polêmicas ficaram para depois e o plenário parecia disposto a recuperar alguma normalidade depois de uma semana excepcional. Mas entre chinelos arremessados, provocações da plateia e vereador precisando ser contido por outro vereador, ficou evidente que a normalidade ainda não voltou à Avenida da Saudade.

A cassação encerrou o mandato de Vini Oliveira.

Não encerrou a tensão que ele deixou para trás.

Uniformes no mato


Reprodução/Instagram Silvio Santos

Uma jaqueta escolar abandonada na margem de uma rodovia poderia ser apenas uma peça perdida. Duzentas e setenta e quatro jaquetas, 59 calças, 59 camisetas e 17 bermudas formam outra história. São 409 peças de uniformes da rede municipal de Campinas encontradas às margens da Rodovia dos Bandeirantes. A Prefeitura recolheu o material, levou tudo para o almoxarifado da Secretaria de Educação, acionou o setor de inteligência da Guarda Municipal e informou que registrará boletim de ocorrência para que a Polícia Civil também investigue. É exatamente o que deveria fazer. Agora falta a parte mais importante: descobrir o que aconteceu e contar publicamente o resultado.

A informação preliminar da Secretaria de Educação de que a maioria das peças apresenta sinais de uso é relevante e recomenda cautela. Não existe, até agora, elemento que permita afirmar que os uniformes saíram diretamente de um estoque municipal, que houve desperdício de material novo ou muito menos que algum servidor tenha participado do descarte. Os uniformes, depois de entregues, ficam com os estudantes, e a própria rede mantém peças de reserva para substituições, novas turmas e atendimento de famílias em situação de vulnerabilidade. Há várias hipóteses possíveis. É justamente para deixar o terreno das hipóteses que existe uma investigação.

O problema é que não estamos diante de uma imagem inédita em Campinas. Em abril de 2024, cerca de dez conjuntos de frio da rede municipal foram encontrados dentro de uma caixa na Vila 31 de Março, à margem de uma estrada. Naquele episódio, a Educação informou que eram modelos antigos e lembrou que as peças permaneciam com os alunos. Em maio deste ano apareceu um caso ainda mais incômodo: uniformes foram encontrados dentro de uma caçamba no Santa Genebra, alguns aparentemente novos e embalados, outros usados e inclusive com nomes de crianças nas etiquetas. Brinquedos pedagógicos e uma placa da Prefeitura também estavam no descarte. A administração anunciou apuração, boletim de ocorrência e participação da Guarda Municipal e da Polícia Civil.

E aqui surge uma pergunta inevitável: o que aquela investigação descobriu?

Não tivemos, até agora, divulgação pública posterior esclarecendo de onde vieram as peças encontradas no Santa Genebra, se foi identificado algum responsável, se houve irregularidade, se alguém foi responsabilizado ou se a apuração simplesmente concluiu que não existia participação do poder público. Qualquer uma dessas respostas é possível. O que não deveria acontecer é uma investigação anunciada publicamente desaparecer também publicamente sem que se saiba sua conclusão.

É por isso que o episódio da Bandeirantes exige algo além de mais uma nota informando que “os fatos serão apurados”. A Prefeitura precisa apurar com rigor, mas também com celeridade e transparência. Se descobrir que as 409 peças pertenciam a famílias e foram descartadas por um particular, que informe. Se identificar saída irregular de uma escola, estoque ou unidade municipal, que diga de onde vieram e responsabilize quem tiver responsabilidade. Se não conseguir determinar a origem, que também torne isso público e explique quais diligências foram realizadas.

A quantidade encontrada desta vez torna possível inclusive uma investigação administrativa mais sofisticada. É preciso saber se fornecedor, modelo, lote, período de fabricação ou registros de distribuição permitem rastrear ao menos parcialmente a origem das peças. Também seria importante explicar qual é o procedimento oficial quando uma escola possui uniformes excedentes ou usados, como funciona eventual recolhimento e qual é a regra para desfazimento desse tipo de material. Depois de episódios repetidos, não basta saber quem jogou. É legítimo perguntar se o sistema possui mecanismos capazes de identificar por onde cada quantidade relevante de material público circulou.

Uniforme escolar custa dinheiro público quando é comprado pela Prefeitura. Mas, depois de entregue ao aluno, passa naturalmente a existir uma diferença fundamental sobre sua guarda e destino. A investigação precisa justamente estabelecer em qual lado dessa fronteira estavam essas 409 peças. Sem isso, qualquer condenação antecipada seria irresponsável.

Só que cautela não pode virar desculpa para silêncio.

Quando um episódio acontece uma vez, investiga-se o episódio. Quando situações semelhantes começam a reaparecer, é preciso investigar também se existe algum problema no processo.

Campinas já viu uniforme escolar abandonado em estrada. Depois viu uniforme dentro de caçamba. Agora encontra 409 peças na margem da Bandeirantes.

A Prefeitura fez corretamente a primeira parte ao recolher o material e abrir a apuração. Desta vez, precisa também fazer questão de nos contar como essa história terminou.

Golpe no Whatsapp


Divulgação/PMC

A Prefeitura de Campinas alertou nesta terça-feira (15) para uma tentativa de fraude pelo WhatsApp usando indevidamente o nome do prefeito Dário Saadi. As mensagens falsas informam que o chefe do Executivo teria mudado o número de telefone.

Segundo a administração municipal, até o momento foram identificadas duas mensagens vinculadas aos DDDs 34 e 74. A Prefeitura reforça que esses contatos não têm qualquer relação com Dário Saadi nem com o município.

As autoridades policiais e os órgãos de segurança pública já foram formalmente acionados para a adoção das providências cabíveis.

A orientação para quem receber esse tipo de mensagem é não responder, descartar o conteúdo, bloquear o número e denunciar o contato pelo próprio aplicativo.