Chegou a semana. Depois de meses de Comissão Processante, acusações, vídeos, pareceres e uma quantidade quase inesgotável de especulações, a Câmara de Campinas finalmente decidirá nesta quarta-feira (9) se Vini Oliveira (Cidadania) continuará vereador. A sessão começa às 9h, não tem hora para terminar e carrega a possibilidade de produzir um fato inédito na história política da cidade: pela primeira vez, um parlamentar pode ter seu mandato efetivamente cassado pelo plenário do Legislativo campineiro.
É impossível antecipar 33 votos que serão nominais, mas, observando o ambiente político construído nas últimas semanas, hoje considero maior a probabilidade de cassação do que de manutenção do mandato. Os três integrantes da Comissão Processante já aprovaram por unanimidade o relatório de Otto Alejandro (PL) pela perda do cargo. A esquerda, responsável pela denúncia que deu origem ao processo por meio de Mariana Conti (PSOL), forma outro bloco naturalmente muito difícil para Vini. E, principalmente, não se percebe até agora dentro da Câmara uma movimentação política expressiva em defesa do vereador.
Mas existe uma diferença fundamental entre considerar um resultado provável e considerá-lo decidido.
A cassação só acontecerá se forem computados pelo menos 22 votos expressamente favoráveis à perda do mandato. É a maioria qualificada de dois terços da composição total da Câmara. Não interessa quantos vereadores estejam presentes na hora da votação: o número necessário para cassar continua sendo 22. E essa regra produz uma situação interessante. Vini não precisa construir uma maioria para salvá-lo. Não precisa sequer reunir 12 votos contrários à cassação. Se o painel terminar com 21 votos pela perda do mandato, ainda que praticamente todo o restante da Câmara não tenha votado pela manutenção, a cassação estará rejeitada e Vini continuará vereador.
É justamente isso que torna a quarta-feira menos previsível do que o ambiente político pode sugerir.
Cassação de mandato é a pena máxima que um Legislativo pode impor a um de seus integrantes. Entre considerar que Vini errou, reprovar sua conduta e apertar o botão que efetivamente retira um mandato conquistado nas urnas existe uma distância política considerável. O desafio do relatório de Otto não será demonstrar que possui maioria. Será alcançar uma maioria qualificada de 22 vereadores dispostos a aplicar a punição máxima.
E surgiu nos últimos dias um ingrediente adicional. A Corregedoria da Câmara, em procedimento completamente diferente, propôs suspender Vini por 60 dias, sem vencimentos, por causa da representação apresentada por Benê Lima (PL). Juridicamente, são processos independentes. Politicamente, entretanto, a existência de uma punição intermediária pode entrar no cálculo de vereadores que considerem inadequada a conduta de Vini, mas entendam a cassação como excessiva.
Por isso teremos uma quarta-feira longa.
O rito permite a leitura de peças do processo, concede até 15 minutos de manifestação aos vereadores interessados e reserva até duas horas para a defesa de Vini ou de seu advogado. Mariana Conti, autora da representação, não participará do julgamento e será substituída pelo suplente Paulo Bufalo. Depois de tudo isso, chegará o momento que realmente importa: a chamada nominal dos vereadores e a contagem até 22.
Também haverá uma enorme ironia pairando sobre o plenário. Todo esse imbróglio nasceu de acontecimentos relacionados à licitação bilionária do transporte coletivo de Campinas. A Comissão Processante atravessou meses investigando reuniões de Vini com a Smile Transportes, integrante de um dos consórcios vencedores. E chegamos ao julgamento do vereador quando o próprio resultado daquele leilão já foi anulado pelo Tribunal de Contas do Estado.
O leilão caiu antes de Vini. Na quarta-feira saberemos se o vereador terá destino semelhante.
Independentemente da decisão, há ao menos uma certeza: este capítulo finalmente terá um ponto final. A Câmara passou meses girando em torno do caso, atravessou o recesso com a CP funcionando, assistiu a uma sucessão de reviravoltas e agora terá de assumir coletivamente uma decisão que até aqui estava concentrada nos três integrantes da comissão.
E a responsabilidade será individual. Não haverá voto escondido. Cada vereador terá seu nome associado à decisão de cassar ou não um colega.
Se o placar chegar a 22, Campinas produzirá um episódio inédito e Vini Oliveira perderá o mandato.
Se parar em 21, acabou. Vini fica.
Entre um resultado e outro existe apenas um voto — mas também existe a distância entre uma das maiores crises recentes da Câmara e um capítulo que entrará definitivamente para sua história.
Se alguém acompanha a política nacional e acha que faltam personagens, escândalos e reviravoltas, definitivamente está assistindo ao seriado errado. Brasília vive uma temporada que roteirista algum teria coragem de entregar de uma vez só. O escândalo dos descontos indevidos de aposentados e pensionistas do INSS já produziu dezenas de indiciamentos pela Polícia Federal, e envolve o filho do presidente Lula. O Supremo entrou numa guerra interna envolvendo Alexandre de Moraes e André Mendonça, com acusações sobre a condução de investigações e Moraes, acuado com a relação quase umbilical com Daniel Vorcaro, pedindo ao presidente da Corte, Edson Fachin, apuração sobre a atuação do colega. E ainda temos o capítulo de “Dark Horse”, a tosca cinebiografia de Jair Bolsonaro que custou, segundo perícia privada apresentada pela produtora, cerca de R$ 75 milhões e recebeu milhões do mesmo Vorcaro, enquanto seu financiamento continua cercado por questionamentos e investigações.
Perto disso, evidentemente, Campinas joga na Série B dos escândalos políticos. Mas parece que alguém no Paço ou na Câmara decidiu que a cidade precisava de um spin-off próprio. E não faltou material nesta temporada.
Tivemos uma licitação de R$ 11 bilhões para finalmente substituir um sistema de transporte coletivo que há anos agoniza pelas ruas. O leilão aconteceu, produziu vencedores, derrotados e uma quantidade extraordinária de confusão política. No meio do caminho surgiu Vini Oliveira dentro da sede da Smile Transportes, a famosa caixa preta, envelopes, vídeos, perícias e acusações. Nasceu uma Comissão Processante que agora pode terminar, nesta quarta-feira, com a primeira cassação de um vereador pelo plenário na história da Câmara de Campinas.
Como todo bom seriado político, ainda veio a reviravolta: o leilão que estava na origem de toda essa confusão acabou anulado pelo Tribunal de Contas. A disputa terá de ser refeita. A licitação voltou várias casas no tabuleiro, mas a Comissão Processante continuou caminhando normalmente até colocar o mandato de Vini à beira do precipício.
Tudo isso acontece enquanto a Câmara está tomada pela eleição. Vereadores já estão com um olho no painel de votação e outro nas urnas de outubro. Situação e oposição transformam praticamente qualquer assunto em munição eleitoral e o próprio Vini passou a apresentar sua possível cassação nas redes sociais como parte de uma tentativa de destruí-lo politicamente.
Não temos um Banco Master, não temos ministros do Supremo guerreando entre si e felizmente ninguém apareceu ainda pedindo dezenas de milhões para financiar uma superprodução cinematográfica sobre algum político campineiro.
A escala é outra. Mas, guardadas todas as proporções, a política de Campinas conseguiu acompanhar a temperatura de Brasília com impressionante dedicação.
Nesta quarta-feira, ao menos um desses roteiros finalmente terá um desfecho. Vini será cassado ou permanecerá vereador. Depois de meses de caixa preta, Smile, CP, vídeos, envelopes e acusações, teremos um ponto final nesse capítulo.
No resto, ninguém deveria esperar tranquilidade.
Porque Brasília pode até produzir a série original. Mas Campinas demonstrou em 2026 que sabe fazer um spin-off bastante (in)competente.