25 de agosto de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: Data center vira teste de coerência

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 8 min
Vereadoras de esquerda atacam projeto bilionário em Campinas enquanto Lula defende expansão de data centers e incentivos ao setor no país.

É muito mais fácil ser pedra do que vidraça. Campinas acaba de atrair um empreendimento tecnológico de proporções gigantescas, com investimento inicial anunciado de R$ 5 bilhões e possibilidade de alcançar R$ 20 bilhões, milhares de empregos diretos e indiretos e potencial para inserir ainda mais a cidade na cadeia internacional de tecnologia e inteligência artificial. Evidentemente, um data center dessa dimensão provoca impactos e precisa ser fiscalizado, cobrado e submetido às exigências ambientais necessárias. O debate é legítimo. O problema começa quando o rigor utilizado contra o adversário político desaparece quando o mesmo modelo de desenvolvimento é defendido pelo próprio campo ideológico.

Foi exatamente o contraste produzido nos últimos dias. Vereadoras da esquerda campineira passaram a atacar o projeto da Terranova anunciado para o Polo de Inovação para o Desenvolvimento Sustentável (PIDS), em Barão Geraldo. Mariana Conti (PSOL) usou a tribuna da Câmara nesta terça-feira para criticar Dário Saadi e disse que o prefeito na “na maior cara de pau” anunicou a chegada de um empreendimento que, segundo ela, enfrenta questionamentos em diferentes partes do mundo. Paolla Miguel (PT) também foi às redes sociais levantar preocupações sobre consumo de água e energia, impactos ambientais, ruídos e aquilo que classificou como risco de “colonialismo digital”.


Reprodução/Instagram

São questionamentos que podem e devem fazer parte da discussão pública. Um data center que poderá atingir 386 MW de capacidade de tecnologia da informação e cuja subestação prevê possibilidade futura de chegar a 1 GW evidentemente merece escrutínio. É preciso saber de onde virá a energia, quais serão os impactos sobre os recursos naturais, quais contrapartidas ficarão para Campinas e quanto dos empregos e da riqueza prometidos efetivamente permanecerá na cidade. Desenvolvimento econômico não pode funcionar como salvo-conduto ambiental.

Mas coerência também não deveria ser opcional.

Praticamente ao mesmo tempo em que a esquerda campineira elevava o tom contra o empreendimento, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendia publicamente justamente a expansão dos data centers no Brasil. No final de semana no Rio de Janeiro, Lula afirmou que o país possui abundância de energia e condições privilegiadas para receber esses projetos, citou fontes renováveis e disse que o Brasil pretende “dar um show” nessa área. Não é uma declaração isolada: seu governo lançou o Redata, regime criado para oferecer benefícios tributários ao setor e transformar o país em destino mais competitivo para esse tipo de investimento.


Presidente Lula durante cerimônia do ECA Digital, quando também foi assinada a MP do Redata | Foto: Ricardo Stuckert/PR

Portanto, temos uma situação curiosa. Quando um data center bilionário chega a Campinas sob uma administração comandada por Dário Saadi, o discurso é de ameaça ambiental, consumo exagerado de recursos e colonialismo digital. Quando o governo Lula trabalha para atrair exatamente esse tipo de empreendimento para o Brasil, a iniciativa é apresentada como estratégia de desenvolvimento, inovação e aproveitamento da matriz energética nacional. As duas posições podem até ser conciliadas tecnicamente — é perfeitamente possível defender data centers e exigir critérios ambientais rigorosos —, mas essa ponderação precisa aparecer dos dois lados.

O Ceará ajuda a tornar a contradição ainda mais evidente. Um dos grandes projetos do setor está sendo implantado em Caucaia, na região do Complexo do Pecém, em um Estado comandado pelo governador petista Elmano de Freitas. O empreendimento associado ao TikTok integra uma estratégia de atração de investimentos tecnológicos e conta com participação e incentivos do poder público estadual. Se empreendimentos dessa natureza representam por definição uma ameaça ambiental ou uma espécie de submissão tecnológica, a indignação deveria atravessar as fronteiras partidárias.

É justamente aí que o discurso local perde força.

Não há problema algum em Mariana Conti, Paolla Miguel ou qualquer outro parlamentar exigir explicações da Prefeitura e da Terranova. Esse é precisamente o papel de quem fiscaliza o poder público. Perguntar sobre consumo energético, utilização de água, impactos ambientais, incentivos fiscais e contrapartidas para Campinas é absolutamente necessário. A cidade não deve entregar benefícios públicos a qualquer empreendimento apenas porque os números anunciados têm muitos zeros.

Da mesma forma, entretanto, é preciso reconhecer o outro lado da equação. Captar um investimento inicial de R$ 5 bilhões, com perspectiva de chegar a R$ 20 bilhões, geração estimada de 3,6 mil empregos diretos e indiretos e conexão com um dos setores mais estratégicos da economia mundial é um feito relevante para Campinas. A cidade disputa investimentos com outros municípios, estados e países. Emprego na construção é importante no curto prazo; formação profissional e postos especializados e de maior remuneração podem deixar efeitos econômicos mais duradouros.

O próprio projeto anuncia medidas que precisam ser fiscalizadas para verificar se sairão efetivamente do papel, como resfriamento líquido em circuito fechado para reduzir o consumo de água, preservação de aproximadamente 285 mil metros quadrados de áreas verdes ou destinadas ao município e parcerias com universidades e centros de pesquisa. A discussão séria deveria justamente acompanhar essas promessas e cobrar resultados.

O que não funciona é transformar o empreendimento automaticamente em virtude ou pecado dependendo de quem corta a fita.

Se data centers são estratégicos para o Brasil quando Lula fala sobre eles, também podem representar uma oportunidade econômica para Campinas. Se trazem riscos ambientais quando Dário Saadi anuncia um, esses mesmos riscos existem no Ceará e em qualquer outro Estado governado por aliados do presidente. Água não conhece partido. Energia elétrica não distingue esquerda de direita. Impacto ambiental tampouco pergunta quem ocupa o Palácio do Planalto, o Palácio dos Bandeirantes ou o quarto andar do Paço Municipal.

A cobrança, portanto, precisa ser exatamente a mesma.

Fiscalizem a Terranova. Cobrem Dário. Questionem os incentivos. Exijam transparência sobre água, energia, ruído, empregos e contrapartidas. Mas façam também essas perguntas quando Lula comemorar a chegada de novos data centers ao país e quando governos aliados concederem incentivos para atraí-los.

Caso contrário, aquilo que poderia ser uma discussão importante sobre desenvolvimento sustentável vira apenas mais um instrumento de disputa política.

E aí sobra barulho, mas falta convicção.

Ser pedra é realmente muito fácil. O teste de coerência começa quando chega a vez de ser vidraça.

Aval para renegociar dívida com Camprev


Divulgação/PMC

A Câmara de Campinas concluiu nesta terça-feira (25) a votação dos projetos que autorizam a Prefeitura a reparcelar dívidas com o Camprev, com a União e com o Regime Geral de Previdência Social (RGPS). A principal proposta permite alongar R$ 337,8 milhões em débitos previdenciários com o Camprev por até 300 meses, o equivalente a 25 anos.

As votações ocorreram em sessões extraordinárias convocadas justamente para acelerar a tramitação. Agora, os textos seguem para sanção do prefeito Dário Saadi. A corrida contra o relógio continua: para aproveitar as condições abertas pela Emenda Constitucional nº 136/2025, a Prefeitura precisa sancionar as leis e formalizar os termos de adesão até 31 de agosto.

Segundo o governo, o conjunto das renegociações pode gerar economia de cerca de R$ 45 milhões por ano, ou R$ 3,7 milhões por mês, principalmente pela redução do valor desembolsado mensalmente no curto prazo. A administração argumenta que isso amplia a previsibilidade do caixa e abre espaço para outras despesas.

O Projeto de Lei Complementar nº 65/26 autoriza o município, autarquias e fundações a renegociar débitos com o Regime Próprio de Previdência Social. O novo acordo pode incluir inclusive contribuições descontadas de servidores e beneficiários que eventualmente não tenham sido repassadas ao instituto, além de saldos de parcelamentos anteriores.

Entre os valores que poderão ser incorporados está o saldo remanescente do Acordo de Parcelamento nº 383/2020. O alongamento não congela a dívida: os valores serão corrigidos pelo IPCA e acrescidos de juros compostos de 0,48% ao mês.

Como garantia, as parcelas poderão ser retidas diretamente do Fundo de Participação dos Municípios (FPM) até a quitação do acordo. A Prefeitura afirma que a operação foi analisada pelas áreas técnicas da Secretaria de Finanças, do Camprev, pela consultoria atuarial do instituto e pela Procuradoria-Geral do Município.

A renegociação do Camprev chegou ao plenário cercada de questionamentos sobre o impacto de empurrar por até 25 anos uma dívida ligada ao regime previdenciário dos servidores. A vereadora Mariana Conti (PSOL) havia pedido a retirada do regime de urgência e questionado a documentação apresentada para sustentar a operação.

Entre os pontos levantados estavam as projeções atuariais, a composição da dívida e as garantias vinculadas ao FPM. O governo, por outro lado, sustentou que a urgência era necessária justamente por causa do prazo federal para adesão.

Os vereadores também aprovaram em definitivo o projeto que autoriza a Prefeitura a renegociar uma dívida com a União originada de contrato firmado no início dos anos 2000. Nesse caso, o prazo pode chegar a 360 parcelas mensais, ou 30 anos.

Também passou pelo plenário o projeto que permite a Campinas aderir ao Parcelamento Excepcional de Municípios para débitos com o RGPS. Essas obrigações poderão ser divididas em até 300 parcelas, com possibilidade, conforme as regras federais, de redução de multas, juros de mora, encargos legais e honorários advocatícios.

Com a etapa legislativa concluída, o foco agora passa para o Executivo. A Prefeitura tem menos de uma semana para sancionar os textos e formalizar as renegociações dentro do prazo previsto pela legislação federal.