30 de junho de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: Recesso para um semestre marcado por crises

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 7 min
Divulgação/CMC
Legislativo encerra primeiro semestre após sequência de crises, CPs, punições inéditas e escândalo que ainda promete novos capítulos.

A Câmara Municipal de Campinas entrou oficialmente em recesso parlamentar nesta segunda-feira, após realizar sessões extraordinárias para concluir a votação de projetos pendentes. Encerra-se um semestre que dificilmente será lembrado pela produção legislativa. O período ficou marcado por uma sucessão quase ininterrupta de crises políticas, denúncias, pedidos de cassação, investigações e confrontos internos que transformaram o plenário em palco permanente de turbulências.

A sensação é de que cada semestre consegue superar o anterior em dramaticidade. Se nos últimos anos a Câmara já vinha convivendo com uma rotina de escândalos, os primeiros seis meses deste ano elevaram novamente a temperatura política da Casa.

O semestre começou com um fato inédito. Pela primeira vez desde a criação do Código de Ética, um vereador foi punido disciplinarmente. Otto Alejandro cumpriu suspensão de 45 dias aprovada pelo plenário, estabelecendo um precedente importante para o Legislativo campineiro.

Ao mesmo tempo vieram as sucessivas Comissões Processantes, que passaram a fazer parte quase da rotina da Câmara. Houve pedidos contra diversos parlamentares, contra o prefeito Dário Saadi (Republicanos), contra integrantes da base governista e até uma verdadeira enxurrada de representações que acabaram sendo arquivadas pelo plenário. O instrumento, criado para situações excepcionais, passou a ser utilizado com tanta frequência que praticamente virou elemento permanente da pauta política.

Mas nenhuma crise se aproximou da dimensão alcançada pelo escândalo envolvendo a licitação do transporte coletivo. O caso extrapolou os limites do debate político e passou a mobilizar Polícia Civil, Ministério Público, Câmara Municipal e opinião pública ao mesmo tempo.

A Comissão Processante aberta contra Vini Oliveira (Cidadania) continua sendo o principal foco de tensão dentro do Legislativo. Inicialmente, o cenário apontava para um prognóstico bastante desfavorável ao vereador. As imagens divulgadas, somadas à operação da Polícia Civil e às investigações sobre supostas vantagens indevidas, colocavam o parlamentar em posição extremamente delicada, levando muitos vereadores a tratarem a cassação como um desfecho praticamente inevitável.

Entretanto, a crise ganhou novos contornos quando vieram à tona as gravações envolvendo Higor Diego (Republicanos), um dos principais aliados políticos do governo Dário Saadi dentro da Câmara. Embora o pedido de Comissão Processante contra ele tenha sido arquivado, os diálogos revelados ampliaram significativamente o alcance político do episódio e retiraram parte do foco exclusivo sobre Vini.

Na prática, a entrada de Higor na equação acabou produzindo um efeito político inesperado: deu algum fôlego ao vereador do Cidadania. Não porque tenha reduzido a gravidade da situação enfrentada por Vini, mas porque a narrativa da crise deixou de atingir apenas um parlamentar e passou a alcançar também integrantes da base governista.

Isso não significa que o cenário tenha se tornado favorável ao vereador. Muito pelo contrário. A Comissão Processante continua em andamento, as investigações criminais devem prosseguir e a expectativa é de novos desdobramentos. Mas, diferentemente de algumas semanas atrás, já não existe a mesma convicção absoluta de que a cassação será inevitável.

Mesmo com o recesso parlamentar, o principal capítulo dessa história continuará sendo escrito. A Comissão Processante não entra em férias e seguirá trabalhando durante todo o mês de julho. Os depoimentos, diligências e análises devem continuar porque a sociedade espera respostas claras sobre um dos casos mais graves já registrados na recente história política de Campinas.

O semestre termina, portanto, sem oferecer qualquer sensação de encerramento. Pelo contrário. A Câmara entra em recesso, mas permanece mergulhada em mais uma crise institucional. E se uma lição ficou desses primeiros seis meses é que, naquele velho ditado sobre apagar incêndios, o Legislativo campineiro parece ter descoberto uma fórmula curiosa: a cada tentativa de controlar o fogo, alguém aparecia com um galão de gasolina.

Dário acelera agenda


Divulgação/PMC

O calendário eleitoral costuma alterar completamente o ritmo da política. E foi exatamente isso que se viu no último fim de semana em Campinas. Em apenas dois dias, o prefeito Dário Saadi (Republicanos) participou de quatro agendas públicas, reunindo assinaturas de ordens de serviço, entrega de escrituras, inaugurações e um mutirão de serviços à população. A concentração de eventos dificilmente foi coincidência.

A partir de 4 de julho, entram em vigor as restrições impostas pela legislação eleitoral. Entre elas, ficam proibidas a publicidade institucional de atos de governo e a participação de candidatos em inaugurações de obras públicas. Para quem ocupa cargo no Executivo, isso muda completamente a dinâmica da agenda oficial durante a campanha.

Para Dário, que não disputa a eleição deste ano, o impacto é nulo. Já para seus aliados, especialmente aqueles que buscarão votos em outubro, o cenário é completamente diferente. É justamente nesse momento que eventos públicos deixam de ser apenas atos administrativos e passam a representar importantes vitrines políticas.

Não por acaso, o principal nome presente nas agendas foi o do deputado federal Jonas Donizette (PSB), candidato à reeleição e principal aliado político do prefeito. Também marcaram presença diversos vereadores da base governista que pretendem disputar vagas na Assembleia Legislativa ou na Câmara dos Deputados, além de parlamentares que trabalham para fortalecer seus grupos políticos durante o período eleitoral.

Na política, alianças funcionam como uma via de mão dupla. Prefeitos precisam de deputados para obter recursos, emendas e apoio institucional. Deputados, por sua vez, dependem da estrutura política dos prefeitos para ampliar sua presença nos municípios. As agendas públicas acabam simbolizando essa parceria, especialmente às vésperas do período em que a legislação restringe esse tipo de exposição.

Isso não significa que haja irregularidade nas inaugurações ou nos anúncios realizados. Todos os compromissos ocorreram dentro do período permitido pela legislação eleitoral. O que chama atenção é a estratégia política de concentrar entregas justamente na última janela disponível para esse tipo de participação conjunta.

A programação reforçou uma prática bastante comum em anos eleitorais. Antes do início das restrições, governos procuram acelerar entregas, formalizar investimentos e apresentar resultados administrativos. Depois disso, o protagonismo naturalmente migra para a campanha eleitoral, onde as regras de exposição passam a ser muito mais rígidas.

Com o fechamento dessa janela, a Prefeitura entra em um novo momento institucional, enquanto os aliados de Dário iniciam oficialmente a corrida pelos votos. As obras continuam, os serviços públicos permanecem, mas as fotografias de inaugurações, os discursos em palanques e as grandes agendas compartilhadas tendem a desaparecer do noticiário pelos próximos meses.

Zé Carlos ressurge


Divulgação/PMC

A assinatura da ordem de serviço para a construção da nova unidade do Ceprocamp Padre Anchieta teve o roteiro tradicional de uma agenda pública: prefeito, vice, vereadores, lideranças políticas e aliados celebrando mais uma obra anunciada pela administração municipal. Mas uma presença chamou atenção no evento deste domingo. Entre os presentes estava o ex-vereador Zé Carlos (PSB), personagem central de uma das maiores crises recentes da Câmara de Campinas.

Zé Carlos renunciou ao mandato há exatamente um ano, em 30 de junho de 2025, após vir à tona um acordo com a Justiça no qual admitiu ter pedido propina para manutenção de contratos quando presidia o Legislativo campineiro. A saída encerrou formalmente sua trajetória parlamentar naquele momento, mas não apagou o peso político e simbólico do episódio. Por isso, sua presença em uma solenidade oficial da Prefeitura inevitavelmente chama atenção.

O evento contou também com o deputado federal Jonas Donizette, o vice-prefeito Wandão (PSB) e o vereador Eduardo Magoga (Podemos). A obra em si tem relevância para a região da Vila Padre Anchieta, reduto eleitoral de Zé Carlos. O empreendimento terá investimento de R$ 6,69 milhões e previsão de atendimento a 480 alunos por dia em cursos de qualificação profissional e Educação de Jovens e Adultos. É uma entrega importante e com potencial impacto social.

Mas, na política, imagem também comunica. E a presença de Zé Carlos em uma agenda pública, ao lado de nomes relevantes do grupo governista, reabre uma questão incômoda: qual é o espaço reservado a figuras que deixaram mandatos sob confissão de práticas graves envolvendo dinheiro público?

Não se trata de impedir circulação, presença em eventos ou participação na vida pública. Mas uma solenidade oficial tem peso institucional. E, diante do histórico recente, a aparição de Zé Carlos não passa despercebida.