28 de junho de 2026
COLUNISTA

Autossabotagem

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

Você já esteve às portas de algo bom - uma conquista que custou esforço, um relacionamento que valia a pena, uma versão melhor de si mesmo - e, inexplicavelmente, cometeu exatamente o que não deveria? Saiu da dieta quando finalmente estava funcionando, entregou o trabalho aquém do que poderia, abandonou o estudo quando a matéria começava a fazer sentido, feriu quem amava sem conseguir sequer explicar por quê. E o que torna tudo mais perturbador: você sabia o que estava fazendo enquanto fazia.

Esse fenômeno tem nome antigo: Aristóteles o chamou de akrasia, que pode ser traduzido como a fraqueza da vontade. É o estado em que o ser humano conhece o bem, enxerga o melhor caminho e, ainda assim, age em sentido contrário. Sócrates havia proposto uma saída simples: todo erro moral seria no fundo um defeito de conhecimento. Para ele se o homem soubesse de verdade o que é bom, jamais escolheria o mal. Aristóteles recusou essa explicação com a seriedade que o problema merecia - porque a experiência humana desmente Sócrates toda vez que escolhemos o erro sabendo exatamente o que estamos fazendo. Não se trata de falta de conhecimento, mas de algo mais profundo e difícil de admitir.

O pensamento cristão longe de se surpreender com essa análise, a recebe como confirmação de uma verdade que a Escritura anuncia desde as suas primeiras páginas. O apóstolo Paulo em Romanos 7 articula com precisão o mesmo drama: "O bem que quero, não faço; mas o mal que não quero, esse pratico." Não é confissão de ignorância, mas o grito de um homem que se vê dividido por dentro - e que nomeia essa divisão como resultado da natureza caída, da vontade carnal que guerreia contra o espírito. A teologia cristã chama essa condição de depravação total: a Queda que corrompeu todas as dimensões humanas - inteligência, afeto, memória e sobretudo a vontade. O homem natural não apenas pratica o mal; ele frequentemente quer praticá-lo, mesmo quando outra parte de si quer o contrário.

Daí o caráter tão perturbador da autossabotagem: ela não é fraqueza de caráter no sentido vulgar, nem burrice disfarçada. É uma guerra. Uma parte de você age contra outra. Você é simultaneamente o agente e o obstáculo. E essa fratura interna não se resolve por esforço de vontade - porque a própria vontade está comprometida.

A autossabotagem raramente é aleatória. Ela tem gatilhos - pressão, visibilidade, proximidade incômoda do sucesso - e quase sempre está escondendo um medo: de falhar depois de ter tentado de verdade, de mudar e não se reconhecer, de decepcionar quem se ama. Esse medo, quando examinado com honestidade, revela uma desconfiança mais funda - a de que nada, nem mesmo Deus, seja suficiente para sustentar o peso do que pode dar errado. E é dessa desconfiança que nasce a necessidade de querer controlar tudo. O problema é que o controle não suporta a imprevisibilidade da vida - e quando ele falha, a autossabotagem entra como uma saída torta: "melhor errar por conta própria do que ser surpreendido pelo fracasso".

Aristóteles já intuía que a virtude não nasce de decisões isoladas, mas de hábitos construídos com paciência - o que a tradição cristã reconheceria como formação espiritual, o cultivo disciplinado de práticas que moldam o caráter ao longo do tempo. Remover o acesso fácil ao que alimenta o comportamento sabotador é mais eficaz do que confiar na própria força de vontade. Da mesma forma, reduzir o intervalo entre a intenção e a ação é estratégia sábia: quanto mais tempo passa entre decidir e agir, mais espaço se abre para que a fraqueza da vontade opere. A procrastinação é o habitat natural da falta de controle. E quando a recaída vem - porque ela virá - a resposta cristã não é a autoflagelação, mas o discernimento. A recaída não apaga o progresso; apaga-o apenas se for usada como prova de que não há esperança. A Escritura não conhece a categoria da vergonha paralisante - conhece a do arrependimento restaurador. A pergunta certa não é "por que eu sou assim?", mas "o que este episódio revela sobre o que ainda precisa ser tratado em mim e diante de Deus?"

A autossabotagem não recua diante da força de vontade. Recua diante da compreensão - e diante de uma identidade que já não depende do próprio desempenho para se manter de pé. A batalha interior é real, e ninguém sai dela ileso. Mas há uma diferença decisiva entre lutar sem saber por quê e lutar sabendo em quem se confia. Essa é a diferença.