Aluno da Escola Paroquial “Francisco Telles”, entre 1953 e 1956, aprendi com as irmãs vicentinas a ler, escrever, a orar e a cantar.
Os cânticos eram melodiosos, o que parece ter sofrido um recuo com o passar do tempo. Hoje, a música parece correr atrás da letra, não se impondo como algo hábil a permanecer na memória e a permitir recordações sonoras as mais gostosas.
Lembro-me, com a nostalgia da idade provecta em que me encontro, de hinos como o “Transbordam selvas de flores/o céu se enche de luz/para entoarem louvores/ao coração de Jesus”.
Àquela época, os alunos se postavam à frente da gruta de Nossa Senhora de Lourdes e rezavam o terço no mês de maio, dedicado a Maria. E no mês de junho, cuja devoção principal é o Coração de Jesus.
Havia a obrigatoriedade de frequência à missa dominical. Logo que ela se encerrasse com o “Ite missa est”, os alunos apresentavam sua caderneta ao sacerdote, na sacristia, para que ele apusesse sua rubrica ou assinatura. Como eu tinha um tio padre, Monsenhor Venerando Nalini, eu conseguia que ele escrevesse, com letra miúda e firme, no pequeno espaço reservado: “Padre Venerando”.
Na segunda-feira, as cadernetas eram recolhidas pela Secretaria da Escola. Aquela que não tivesse a assinatura do sacerdote recebiam um carimbo: “E a missa?”.
Eram tempos em que às procissões acolhiam milhares de pessoas. A Semana Santa em Jundiaí era tradicional. Conta-se até que, em uma de suas visitas à nossa cidade – foram mais do que uma ou duas – o Imperador Pedro II comentou a fama das celebrações da Paixão e Morte de Nosso Senhor. Ávidos para agradar o governante, as autoridades da época promoveram uma encenação da Procissão dos Passos, do Lavapés, da cerimônia do descerramento da cruz e do enterro, com os cantos da Verônica, em pleno mês de setembro.
Mas voltemos aos cânticos. Hoje o Google permite recuperar textos antigos e esquecidos. Mas não encontro menção à música “Teu rosto é sol, que brilhando aquece/as horas tristes da solidão/ e ao teu sorriso, de mãe parece/abrir-se em flor nosso coração”.
Era nítida homenagem a Nossa Senhora, que permaneceu indelével na memória, nada obstante mais de setenta anos tenham decorrido desde então. Um dos fenômenos contemporâneos foi o descompromisso com as práticas religiosas, a adesão a uma espécie de sincretismo. Ainda se batiza, mas nem sempre se crisma ou se faz a Primeira Eucaristia.
Casa-se na Igreja, mais pela pompa e circunstância do que pela convicção de que o matrimônio é um sacramento. As dissoluções do vínculo se tornaram mais do que comuns. Há também muita união estável ou instável. Maternidade ou paternidade “solo” ocorrem com frequência cada vez maior. Não se pode generalizar, mas a constatação é uma evidência com a qual é impossível transigir.
As escolas confessionais foram perdendo a presença prestimosa das freiras e dos sacerdotes. Ainda que levem o nome “Católicas”, as Universidades que ainda são “Pontifícias”, ou seja, sob a proteção do Vaticano, deixam de ser redutos essencialmente católicos, apostólicos e romanos.
Onde foram parar aqueles belos estandartes das confrarias e irmandades? Tenho saudades das cerimônias na Matriz de Nossa Senhora do Desterro, cujo pároco, Monsenhor Doutor Arthur Ricci, era zeloso pastor de sua grei. Conseguiu dotar o templo, hoje Catedral, graças a Dom Agnelo Rossi, de belíssimas imagens, artísticas e incomparáveis.
No coro, o “Scholla Cantorum”, pontificava D. Maria Isabel Toledo Penteado, que regia maviosamente o afinado conjunto de todos os fiéis, em missas, novenas, festividades e cerimônias que já não acontecem mais.
José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Secretário-Executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo