Os desdobramentos da investigação envolvendo o transporte coletivo de Campinas continuam produzindo ondas cada vez maiores dentro da política local. Depois de atingir o vereador Vini Oliveira (Cidadania), as gravações agora chegaram ao prefeito Dário Saadi (Republicanos) e ao vereador Higor Diego (Republicanos), ambos alvos de pedidos de Comissão Processante que devem ser analisados pela Câmara nesta segunda-feira. O desgaste político é inevitável, mas os elementos divulgados até aqui mostram situações bastante diferentes das enfrentadas por Vini.
No caso do prefeito, sinceramente, o cenário parece anos-luz de uma abertura de Comissão Processante. Os áudios divulgados mostram empresários e terceiros - um deles Higor Diego – discutindo qual seria a posição de Dário sobre a prorrogação dos contratos do transporte coletivo. Há menções ao prefeito, avaliações sobre sua postura e especulações sobre suas decisões, mas não existe, até o momento, qualquer gravação envolvendo diretamente Dário Saadi, tampouco indícios de favorecimento, conluio ou aproximação indevida com empresários do setor. A própria representação admite não apresentar conclusões ou acusações concretas. É uma situação que permanece muito mais no campo da interpretação e das ilações do que propriamente em fatos objetivos capazes de sustentar uma cassação. Por isso, é certo que o pedido será arquivado.
A situação de Higor Diego é mais, digamos, diferente. Não porque exista prova de irregularidade, mas porque os diálogos revelam um grau de proximidade com um dos maiores interessados com o tema, o que inevitavelmente desperta questionamentos. O vereador aparece discutindo justamente a principal pauta daquele momento: a prorrogação dos contratos emergenciais do transporte. E demonstra desenvoltura ao falar sobre estratégias, bastidores e possíveis mudanças no projeto que tramitava na Câmara. O contexto é importante. Naquele período, a Prefeitura defendia inicialmente uma extensão de até três anos. A proposta sofria forte resistência política e enfrentava críticas da imprensa, da oposição e de parte da opinião pública. Nos áudios, o empresário Emerson de Jesus, da Smile, reclama exatamente desse prazo. Higor, por sua vez, já adianta, como se tentasse tranquilizá-lo, que a estratégia seria alterar o projeto e reduzir esse período. Pouco tempo depois, foi exatamente o que aconteceu: a proposta acabou aprovada com limite máximo de dois anos. O empresário queria 1 ano.
Isso prova tráfico de influência? Não. Prova favorecimento? Também não. Um vereador pode conversar com empresários, sindicatos, usuários e representantes de setores impactados por projetos em tramitação. Isso faz parte da atividade parlamentar. O problema é que os diálogos colocam Higor numa zona extremamente sensível, porque quem escuta as gravações pode chegar a interpretações completamente diferentes. Alguns vão ver apenas um vereador bem articulado com o assunto informando uma discussão que era pública. Outros enxergarão alguém com acesso privilegiado a definições importantes, com poder de decisão e que transmitia essas informações, e recebia feedbacks, a um grupo empresarial diretamente interessado no resultado da votação.
Ainda assim, a tendência política também é para o arquivamento da representação. A Câmara costuma ser bastante resistente à abertura de Comissões Processantes quando não há elementos mais objetivos e diretos (nem quando está escancarado abre). Mas existe um aspecto que talvez preocupe ainda mais do que os próprios pedidos de CP. A cada novo vazamento, surge um novo personagem, uma nova conversa e uma nova frente de desgaste. O que começou como uma discussão sobre uma licitação bilionária já provocou a queda de dirigente da Emdec, gerou buscas da Polícia Civil, abriu uma Comissão Processante contra um vereador e agora alcança integrantes do governo e da base aliada.
É justamente por isso que o maior problema neste momento não é a votação desta segunda-feira. O que realmente preocupa nos bastidores da Prefeitura e da Câmara é a sensação de que ninguém sabe qual será o próximo capítulo. O Quarto Andar e o Legislativo seguem navegando em uma crise cujo destino permanece indefinido e onde o maior temor já não é o que foi divulgado, mas o que ainda pode aparecer.
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Se não for dominada pelas Comissões Processantes e polêmicas da licitação, a Câmara Municipal de Campinas vota nesta segunda-feira , durante a 37ª Reunião Ordinária, dois projetos de impacto para a administração pública e a rede de proteção à criança e ao adolescente. Entre os itens da pauta estão a Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2027 e uma nova regulamentação para o funcionamento do Conselho Tutelar no município.
A LDO está prevista no Projeto de Lei nº 115/2026, de autoria do Executivo. O texto orienta a elaboração da Lei Orçamentária Anual e define as prioridades da Prefeitura para o exercício seguinte. Para 2027, a proposta aponta como diretrizes a promoção da qualidade de vida, o desenvolvimento econômico e a sustentabilidade, em alinhamento ao Programa de Metas 2025-2028.
O projeto também estabelece regras para a elaboração do orçamento, execução de despesas, arrecadação de receitas, repasses a entidades públicas e privadas, administração da dívida pública e execução das emendas parlamentares impositivas.
Na justificativa encaminhada à Câmara, o Executivo afirma que a proposta busca garantir a continuidade dos serviços públicos essenciais, preservar a capacidade de investimento do município e fortalecer mecanismos de transparência, participação social e responsabilidade fiscal na gestão dos recursos públicos.
Outro item da pauta é o Projeto de Lei nº 162/2026, que atualiza a estrutura, o funcionamento e o processo de escolha dos membros do Conselho Tutelar de Campinas. A proposta substitui a legislação em vigor desde 2008 e busca adequar as regras às mudanças no Estatuto da Criança e do Adolescente e às demandas identificadas nos últimos anos.
O texto mantém os 30 cargos de conselheiro tutelar existentes na cidade e fixa subsídio mensal de R$ 8.493,62, com reajuste pelos mesmos índices aplicados aos servidores municipais. A proposta também prevê jornada mínima de 36 horas semanais e regime de plantão para garantir atendimento contínuo, inclusive à noite, nos fins de semana e feriados.
A nova regulamentação ainda detalha o processo de escolha dos conselheiros tutelares e cria uma Comissão de Ética Permanente para apurar denúncias e aplicar eventuais penalidades disciplinares.
Segundo o Executivo, a atualização busca dar mais segurança jurídica, aperfeiçoar os mecanismos de fiscalização e fortalecer a atuação dos Conselhos Tutelares na garantia dos direitos de crianças e adolescentes em Campinas.