Até a manhã desta quarta-feira, a situação política do vereador Vini Oliveira (Cidadania) já era extremamente delicada. Havia imagens devastadoras do ponto de vista político, uma Comissão Processante aberta por unanimidade na Câmara e um ambiente cada vez mais hostil dentro do Legislativo. Mas ainda existia uma diferença fundamental: não havia uma investigação formal.
Isso mudou.
A operação realizada pela Polícia Civil e pelo Ministério Público elevou o caso a outro patamar. E não foi qualquer movimentação. A própria Polícia Civil deixou claro que o objetivo da ação é apurar a existência de suposto pagamento e recebimento de vantagens indevidas envolvendo o vereador e empresários do setor de transporte coletivo. Empresários que integram o Consórcio Grande Campinas, que levou o lote Norte do leilão do sistema da cidade e, por tabela, derrotou o grupo Belarmino.
Em outras palavras, aquilo que até então era uma grave crise política baseada em imagens, versões e interpretações passou a ser uma investigação criminal conduzida por autoridades que possuem instrumentos para aprofundar a apuração.
A diferença é gigantesca.
Até aqui, Vini sustentava uma linha de defesa baseada na alegação de que os envelopes continham mídias digitais e documentos relacionados a denúncias que teriam sido encaminhadas ao Ministério Público. Era uma explicação que poderia ou não convencer a opinião pública, mas que ainda encontrava espaço diante da ausência de uma acusação formal.
Agora o cenário mudou completamente.
Quando Polícia Civil e Ministério Público cumprem 11 mandados de busca e apreensão, recolhem celulares, documentos, pen drives, dinheiro em espécie e passam a falar oficialmente em supostas vantagens indevidas, a crise deixa de ser apenas política e passa a ser institucional.
Isso não significa culpa.
É importante registrar que Vini Oliveira continua tendo direito à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. A operação busca provas. Não existe condenação e tampouco conclusão definitiva sobre os fatos.
Mas politicamente o dano é enorme. E para completar a maré de Vini, a TH+ Record trouxe novos vídeos de encontros entre o parlamentar e diretores da mesma empresa e no mesmo local, só que em um dia diferente. A imagem mostra uma certa rotina. Pior, a gravação traz uma conversa entre representantes da empresa em que um deles fala: "o Vini mandou mensagem perguntando se ele poderia vir buscar os R$ 20 mil".
Reprodução/TH+ Record
A Comissão Processante aprovada na segunda-feira já representava uma ameaça concreta ao mandato. Agora, a operação realizada apenas dois dias depois e os novos vídeos produzem um efeito devastador sobre a percepção dos vereadores que serão responsáveis por julgar o caso.
Nos bastidores da Câmara, a sensação é de que o cenário, que já era ruim, tornou-se dramaticamente pior.
Se antes existiam parlamentares – poucos – dispostos a aguardar explicações mais detalhadas do vereador, a operação reforçou a impressão de que a situação é ainda mais grave do que inicialmente parecia.
Por isso não surpreende que alguns vereadores já falem abertamente na possibilidade de renúncia do mandato como forma de encerrar o processo antes de um eventual, só que praticamente certo, desfecho mais traumático.
É cedo para saber se isso ocorrerá. Mas o simples fato de esse debate já existir mostra o tamanho da deterioração política enfrentada pelo parlamentar.
Outro aspecto chama atenção.
Talvez pela primeira vez em muito tempo, a Câmara não foi atropelada pelos acontecimentos. Em outras crises recentes, o Legislativo costumava agir apenas depois que investigações avançavam ou que decisões judiciais já estavam consolidadas, como no cas Zé Carlos. Desta vez foi diferente.
A Comissão Processante foi aberta antes da operação policial. Isso significa que, independentemente do resultado das investigações, a Câmara poderá argumentar que agiu diante dos elementos políticos que já estavam disponíveis naquele momento. E esse detalhe pode ser importante nos próximos meses.
Há ainda um problema adicional para Vini: a narrativa construída ao longo de sua trajetória política.
O vereador procurou consolidar sua imagem como um dos mais duros críticos da política tradicional, dos contratos públicos, dos bastidores do poder e das relações entre agentes públicos e empresas. Foi justamente essa postura que ajudou a transformá-lo em um fenômeno eleitoral em 2024.
Por isso, quando um parlamentar que construiu sua identidade política na fiscalização e no combate a supostas irregularidades passa a ser alvo de uma operação que investiga eventual recebimento de vantagens indevidas, o desgaste tende a ser proporcionalmente maior.
A cobrança por explicações passa a ser muito mais intensa. E elas precisarão ser robustas.
Porque, neste momento, a questão já não gira apenas em torno da caixa preta, dos envelopes ou da reunião realizada em Paulínia. A discussão agora envolve uma investigação formal conduzida pela Polícia Civil e pelo Ministério Público.
O conteúdo dos celulares apreendidos, dos documentos recolhidos e dos materiais encontrados durante a operação poderá definir os próximos capítulos dessa história.
Mas uma coisa parece clara. A operação desta quarta-feira não criou a crise política de Vini Oliveira. Ela mudou completamente sua dimensão.
E, neste momento, o vereador atravessa o mandato por uma corda bamba completamente desorientado.
Divulgação/Governo de SP
A operação que atingiu o vereador Vini Oliveira também ajuda a compreender um aspecto que passou despercebido por parte da opinião pública: a Polícia Civil não chegou ao caso do transporte coletivo de Campinas na semana passada.
Na verdade, a corporação já vinha olhando com atenção para os desdobramentos da licitação bilionária do transporte público campineiro muito antes das imagens exibidas pela imprensa.
Desde o leilão realizado na B3, em São Paulo, agentes da Polícia Civil já desenvolviam diligências e levantamentos relacionados ao processo. Com autorização judicial, investigadores passaram a analisar documentos, estruturas societárias, composição de empresas e endereços ligados aos grupos que disputaram e venceram a concorrência.
O foco principal sempre esteve voltado para compreender melhor a formação dos grupos econômicos envolvidos, especialmente o Consórcio Grande Campinas, vencedor do Lote Norte da concessão.
Não se tratava, necessariamente, de uma investigação criminal contra o resultado da licitação em si, mas de um trabalho de inteligência para entender quem são os atores envolvidos em um contrato que pode movimentar bilhões de reais ao longo dos próximos anos.
E foi justamente nesse contexto que surgiu o episódio envolvendo Vini Oliveira. As imagens da reunião realizada em Paulínia acabaram oferecendo algo que toda investigação busca: um fato concreto, documentado e visualmente verificável.
Até então, existiam diligências, levantamentos e análises. Com a divulgação dos vídeos, surgiu um novo elemento que permitiu aprofundar a apuração.
É como dizem os próprios investigadores em muitas operações: às vezes o trabalho consiste em seguir rastros. Em outras, surge uma oportunidade de abrir uma porta.
No caso do transporte coletivo de Campinas, o episódio envolvendo o vereador acabou funcionando como um portão escancarado.
A partir dali, a Polícia Civil passou a ter um fato específico para investigar, uma reunião registrada por imagens, personagens identificáveis e uma sequência de acontecimentos que poderia ser confrontada com outras informações já levantadas anteriormente. É o fio da meada.
Não por acaso, a operação desta semana teve como alvo não apenas o vereador e seu entorno, mas também empresários ligados ao setor de transporte.
Isso ajuda a explicar por que a ação foi conduzida pelo NECCOLD/DIG/DEIC, unidade especializada em investigações complexas, em conjunto com o Gaeco, braço do Ministério Público voltado ao combate ao crime organizado.
O que é possível esperar agora é uma ampliação do escopo investigativo.
E esse talvez seja o ponto mais importante deste novo capítulo. A operação não parece ter sido construída apenas para responder às imagens divulgadas pela imprensa.
As imagens funcionaram como um catalisador para uma investigação que já existia.
Por isso, talvez seja precipitado enxergar a ação apenas como um desdobramento da crise enfrentada pelo vereador. A impressão que emerge dos bastidores é outra.
O caso Vini pode ter sido apenas a oportunidade que faltava para aprofundar uma apuração que já caminhava, mas com passos contidos.
E, se essa leitura estiver correta, os próximos capítulos podem ir muito além da situação individual do parlamentar.
Afinal, o que começou com uma licitação bilionária, passou por uma reunião em Paulínia e desembocou em uma operação policial ainda parece estar longe de seu desfecho.
Os fatos me obrigaram a dar um tempo no descanso. Como sempre cita um ácido leitor: “de tédio você não morre em Campinas”. Aos leitores, um excelente feriadão e, se nada mais ocorrer, na terça-feira estarei de volta.