21 de maio de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: A dupla face de um alerta no transporte

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 4 min
Flávio Paradella
Decisão da Justiça do Trabalho expõe jornadas exaustivas de motoristas do transporte escolar e amplia questionamentos sobre empresa ligada ao consórcio vencedor da licitação dos ônibus.

A decisão da Justiça do Trabalho contra a Rhema Mobilidade é grave por vários aspectos. O primeiro deles é humano. O segundo, operacional. E o terceiro, inevitavelmente, político. Porque quando uma empresa responsável pelo transporte diário de estudantes é acusada de submeter motoristas a jornadas de até 14 horas por dia, o problema ultrapassa a esfera trabalhista e passa a envolver diretamente segurança pública, gestão e confiança no serviço prestado à população.

A própria decisão judicial deixa isso muito claro ao citar a exposição de trabalhadores e terceiros a um “risco grave, iminente e, muitas vezes, irreparável”. E quem são esses terceiros? Crianças, adolescentes, estudantes e famílias inteiras que dependem diariamente desse transporte escolar em Campinas.

Convenhamos: não se trata de mero descumprimento burocrático de regra trabalhista. Motorista exausto ao volante não representa apenas precarização da mão de obra. Representa risco direto de acidente. É uma situação extremamente séria.

As imagens que normalmente aparecem quando se fala em transporte escolar são de segurança, acolhimento e confiança. Não deveriam jamais remeter à ideia de profissionais submetidos a jornadas excessivas, sem descanso adequado e trabalhando além do limite legal. Ainda mais num setor que exige atenção permanente, responsabilidade e reflexo rápido no trânsito urbano.

E talvez o aspecto mais delicado deste episódio seja justamente o fato de a Rhema não ser uma empresa isolada dentro do contexto da mobilidade urbana campineira neste momento. Ela integra o Consórcio Grande Campinas, grupo que venceu o disputado Lote Norte da nova licitação do transporte coletivo da cidade.

É importante deixar algo muito claro: o caso trabalhista não tem relação direta com a licitação dos ônibus urbanos. Mas politicamente e administrativamente é impossível ignorar o peso simbólico do episódio.

Principalmente porque o Consórcio Grande Campinas é alvo de questionamentos desde a vitória no leilão que colocou fim — ao menos em tese — à longa hegemonia do Grupo Belarmino em parte do sistema de Campinas. A disputa é cercada de dúvidas, recursos, acompanhamento do Tribunal de Contas do Estado e até investigação da Polícia Civil envolvendo pontos relacionados à composição do grupo vencedor.

Agora surge esse novo capítulo envolvendo uma das integrantes do consórcio. É quase como um “spin-off” da grande novela da licitação do transporte. Um roteiro paralelo, mas que inevitavelmente influencia a percepção sobre a trama principal.

E percepção importa muito quando estamos falando de um sistema que transporta milhares de pessoas diariamente e que vive uma crise histórica de credibilidade em Campinas.

A derrota do Grupo Belarmino no leilão foi recebida quase como um símbolo de esperança por boa parte da população cansada de ônibus velhos, atrasos, quebras e anos de precarização do serviço. Mas o que esse novo episódio mostra é que a simples troca de operadores não garante automaticamente excelência operacional, credibilidade ou responsabilidade administrativa.

No fim, a decisão da Justiça do Trabalho funciona como um alerta importante. Não apenas sobre relações trabalhistas, mas sobre capacidade de gestão, cultura operacional e responsabilidade com pessoas. Porque empresas que pretendem administrar um dos sistemas de transporte mais complexos do interior paulista precisam transmitir segurança — técnica, jurídica, operacional e humana.

E quando a manchete envolve jornadas abusivas e motoristas extenuados, o alerta acende automaticamente.

A licitação do transporte de Campinas ainda não terminou. O processo segue em análise administrativa, com recursos, fiscalização e questionamentos em andamento. Mas episódios como esse mostram que a cidade talvez ainda esteja longe do ponto final dessa desgastante novela e distante de uma quase utópica excelência.

Aprovados


Divulgação/CMC

A Câmara Municipal de Campinas aprovou nesta quarta-feira (20) dois projetos de lei complementar enviados pelo Executivo. As propostas tratam da futura sede do Departamento de Polícia Judiciária do Interior 2 (Deinter 2) e de mudanças nas regras para exigência do Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV/RIV) em empreendimentos da cidade.

O primeiro texto, aprovado em primeira discussão, altera a lei que autorizou a doação de áreas públicas municipais ao Governo do Estado de São Paulo para a instalação da sede do Deinter 2 em Campinas.

A principal mudança é a retirada do prazo de cinco anos para conclusão da obra. Segundo a Prefeitura, a alteração busca dar mais agilidade ao processo de transferência do imóvel ao Estado, etapa considerada necessária para viabilizar a implantação da unidade da Polícia Civil.

Mesmo com a mudança, o projeto mantém a exigência de que a área seja usada exclusivamente para a instalação do Deinter 2. Caso a finalidade não seja cumprida, o imóvel deverá retornar ao patrimônio do município sem custos para a Prefeitura.

Os vereadores também aprovaram, em segunda discussão, o projeto que altera a legislação sobre o Estudo de Impacto de Vizinhança. O texto modifica regras aplicadas a obras novas, ampliações e regularizações, especialmente em empreendimentos de uso misto e em áreas não habitacionais.

De acordo com a proposta, os critérios para exigência do EIV/RIV passam a considerar o porte da construção e o zoneamento urbano. A justificativa do Executivo é tornar mais clara a obrigatoriedade do estudo em casos de criação ou ampliação de unidades habitacionais e usos não residenciais em empreendimentos mistos.