A política tem dessas sutilezas – de rinoceronte – que, às vezes, falam mais do que discursos inteiros. E em 72 horas, o prefeito Dário Saadi exibiu publicamente dois comportamentos completamente distintos em agendas que reuniram dois polos opostos da disputa presidencial de 2026.
Na sexta-feira, durante o lançamento da pré-candidatura de Guilherme Derrite ao Senado, em Campinas, o prefeito parecia absolutamente à vontade no ambiente bolsonarista. Sorridente, descontraído, circulando entre lideranças da direita, afagando nomes como Sergio Moro e participando ativamente do clima do evento. Não era apenas presença institucional. Havia ali alinhamento político explícito.
E isso ficou cristalino no discurso feito ao lado de Flávio Bolsonaro e do governador Tarcísio de Freitas. Dário não apenas elogiou o senador. Fez um discurso claramente oposicionista ao governo federal e definitivamente abraçou o projeto político do bolsonarismo para 2026.
“O Brasil precisa virar essa página desse governo que nasceu velho”, afirmou o prefeito, antes de defender que Flávio Bolsonaro teria a missão de “retomar o Brasil no caminho certo”.
Foi um Dário político. Convicto. Engajado. Animado. Um prefeito confortável naquele ambiente ideológico e que claramente quis marcar posição pública dentro da polarização nacional.
Já nesta segunda-feira, no Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais, durante a agenda do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Sirius, apareceu outro personagem.
O Dário expansivo da sexta-feira deu lugar a um prefeito protocolar, contido e quase burocrático. Cordial? Sim. Educado? Também. Mas claramente sem o mesmo entusiasmo demonstrado ao lado de Flávio Bolsonaro.
Quem acabou assumindo o protagonismo da recepção foi o vice-prefeito Wandão (PSB), que esteve ao lado de Lula desde a chegada em Viracopos até a agenda no Sirius. Dário parecia cumprir uma obrigação institucional inerente ao cargo de prefeito de Campinas — e apenas isso.
E talvez seja justamente aí que esteja o ponto mais interessante desse episódio. Porque a política costuma tentar vender neutralidade onde ela já não existe mais, e, agora, Dário deixou isso bem claro. As imagens, os gestos e principalmente o comportamento espontâneo normalmente desmontam qualquer discurso ensaiado.
Os dois eventos deixaram bastante evidente onde o prefeito se sente politicamente mais confortável nesta polarização nacional. Não houve exatamente surpresa nisso. Dário nunca escondeu proximidade com setores mais conservadores do eleitorado paulista e mantém boa relação com o grupo político de Tarcísio. Mas agora essa posição apareceu de maneira muito mais explícita.
Nem mesmo os áudios entre Flávio e Daniel Vorcaro impediram o prefeito de externar em público e, com vídeos pelas redes sociais, a sua preferência.
Na agenda bolsonarista havia entusiasmo, identificação e discurso político. Na agenda presidencial com Lula, prevaleceu a formalidade administrativa.
Reprodução/Redes Sociais
Em vídeo nas redes sociais, o prefeito Dário Saadi afirmou que a publicação da habilitação das empresas vencedoras do leilão do transporte público representa um novo avanço na licitação do sistema em Campinas. A manifestação foi feita após a Prefeitura divulgar, no Diário Oficial desta terça-feira (19), o resultado da análise documental das propostas de menor valor apresentadas na B3, em São Paulo.
“Acabamos de dar um passo importante na licitação do transporte público, que está em andamento. Hoje foi publicado a habilitação das empresas que venceram o leilão lá na Bolsa de Valores em São Paulo, na B3. Nós fizemos questão de levar para a Bolsa de Valores, vai ser um processo mais transparente”, afirmou o prefeito.
A etapa confirmou a Sancetur – Empresa Santa Cecília Turismo como habilitada para o Lote Sul, que atende as regiões Leste, Sul e Sudoeste. Já o Consórcio Grande Campinas foi habilitado para o Lote Norte, responsável pelas regiões Norte, Oeste e Noroeste.
Apesar do avanço, a publicação não conclui a concorrência. A partir de agora, fica aberto o prazo para apresentação de recursos e contrarrazões. Segundo Dário, eventuais questionamentos serão analisados pela comissão responsável pelo processo.
“A partir de agora, abrem-se os prazos de questionamentos de recursos dentro da própria comissão. Caso tenha questionamentos, a comissão analisará e dará o seu parecer. Após essa análise da comissão, se não tiver mudança nos ganhadores, passa para a homologação, que é a assinatura final do secretário de transportes. Caso a comissão aceite algum questionamento, é feita nova habilitação”, disse.
O prefeito também relacionou a conclusão da licitação à necessidade de renovação da frota de ônibus e melhoria do serviço prestado à população.
“Todo mundo sabe da importância de renovar a frota de ônibus aqui em Campinas e melhorar o transporte público. Por isso, nós estamos correndo e fazendo a licitação, mas fazendo de forma transparente, de forma ética. Com a conclusão, os vencedores da licitação terão que renovar a frota. E é isso que a gente está correndo atrás. E nós vamos continuar trabalhando para entregar um serviço de transporte público de melhor qualidade para a população de Campinas”, completou.
A licitação do transporte é uma das maiores já realizadas pela administração municipal. O modelo prevê concessão em dois lotes operacionais e inclui ônibus convencionais, BRT, transporte acessível, bilhetagem e monitoramento. A estimativa é de R$ 1,9 bilhão em investimentos ao longo de 15 anos, com renovação de veículos, tecnologia embarcada e melhorias em terminais e estações.
O processo, no entanto, ainda passa por análise de órgãos de controle. Em abril, o Tribunal de Contas do Estado de São Paulo (TCE-SP) determinou que a Prefeitura não homologue a licitação, estimada em R$ 11,8 bilhões, até o esclarecimento de supostas inconsistências apontadas na concorrência.
Entre os pontos levantados pelo tribunal estão possíveis vínculos entre empresas participantes, compartilhamento de endereços, telefones, estruturas administrativas e conexões societárias. O TCE também pediu informações sobre os mecanismos adotados pela Prefeitura para verificar a independência entre os licitantes.
Para responder aos questionamentos, a administração municipal enviou ao tribunal, no dia 12 de maio, documentação complementar com 18 diligências técnicas, financeiras e cadastrais realizadas ao longo da concorrência. O material inclui verificações de capacidade técnica, readequação de planilhas, checagens cadastrais e análises feitas pela B3 sobre a composição do capital social dos grupos vencedores.
Com a habilitação publicada, a licitação entra em nova fase, mas ainda sem desfecho definitivo. A assinatura dos contratos depende da conclusão do prazo de recursos, da análise dos órgãos de controle e da homologação formal do processo.