09 de maio de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: A reprise de uma velha e sempre atrasada novela

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação/PMC
Prefeitura de Campinas admite atraso e aumento de custo em reservatórios anti-enchentes; justificativas levantam dúvidas sobre planejamento.

O novo cronograma das obras dos piscinões anti-enchentes de Campinas dificilmente espanta quem acompanha grandes intervenções públicas na cidade. A Prefeitura confirmou atraso em dois dos principais reservatórios do plano de macrodrenagem, e a sensação que fica é de mais um capítulo de uma velha novela campineira: prazo otimista demais no papel e realidade muito mais complexa no canteiro de obras.

No caso do reservatório RP-1, na região do Paranapanema, a entrega saiu de junho de 2026 para junho de 2027. O custo também saltou de R$ 205 milhões para R$ 220 milhões. A justificativa apresentada pela Prefeitura foi a inclusão de uma nova estrutura de drenagem para captar água da região do Swift e levá-la até o reservatório.

O problema é que essa explicação acaba levantando outra dúvida inevitável: como uma ligação considerada importante para o funcionamento do sistema não estava prevista inicialmente? Quem olha a magnitude da obra percebe claramente que dificilmente ela seria concluída em apenas dois anos. O novo cronograma apenas oficializa algo que já parecia bastante improvável desde o início.

O projeto foi sendo ajustado no meio do caminho. A nova intervenção anunciada pela Prefeitura parece até lógica dentro do funcionamento hidráulico da região. Justamente por isso, chama atenção o fato de não ter sido incorporada desde o começo. Só que mesmo sem esse novo “escopo”, a obra claramente está em patamar que não seria possível entregá-la no mês que vem.


Divulgação/PMC

O cenário se repete no reservatório RS-1, na região central, que também teve prazo ampliado. A entrega agora passou de junho de 2027 para março de 2028. Desta vez, sem aumento de custo — pelo menos por enquanto.

A justificativa apresentada envolve as características do solo, descrito como uma antiga área pantanosa, além de interferências estruturais e necessidade de reforço em túneis. E aí surge outra pergunta inevitável: ninguém aprendeu nada com a interminável obra do Mercadão Municipal, justamente na mesma região? Durante anos, a Prefeitura utilizou exatamente o mesmo argumento do solo complexo para explicar atrasos e dificuldades naquela intervenção.

É claro que obras de macrodrenagem dessa dimensão são extremamente complexas. Não se trata de algo simples ou previsível em todos os detalhes. Mas também é verdade que Campinas acumula um histórico complicado quando o assunto envolve cronogramas de grandes obras públicas.

As intervenções estão sob responsabilidade do secretário Carlos José Barreiro, um nome a quem tenho profundo respeito. Ainda assim, existe um histórico recente difícil de ignorar. O caso mais emblemático talvez seja o BRT, iniciado ainda na gestão de Jonas Donizette e atravessando praticamente todo o primeiro mandato de Dário Saadi até alcançar a conclusão apenas no fim de 2024.

No fim, a cidade continua precisando desesperadamente dessas obras. As enchentes seguem castigando regiões históricas da cidade e os piscinões são fundamentais para reduzir esse impacto. Mas fica cada vez mais evidente que o grande desafio de Campinas não é apenas construir — é planejar de maneira mais realista e comunicar isso com transparência desde o começo.

Porque, quando os atrasos já parecem previsíveis antes mesmo de serem oficialmente anunciados, o problema deixa de ser apenas técnico e passa a ser também de credibilidade.

As crises em série do legislativo


Divulgação/CMC

A Câmara Municipal de Campinas parece viver em permanente estado de turbulência. A cada semana, surge um novo capítulo envolvendo denúncias, investigações, pedidos de CP, disputas internas ou suspeitas de mau uso da máquina pública. Como costuma ironizar um assíduo leitor desta coluna: “de tédio a gente não morre com esse Legislativo”.

Agora, os holofotes voltam-se para o vereador Edison Ribeiro, figura considerada quase folclórica na política campineira, mas que há décadas mantém forte influência eleitoral na região do Satélite Íris, no Distrito do Campo Grande. O parlamentar passa a enfrentar um avanço importante em uma investigação de suposta rachadinha, prática que, vale lembrar, já apareceu em outros episódios envolvendo nomes do Legislativo local.

A decisão da Justiça de quebrar os sigilos bancário e fiscal do vereador e de seu filho, André Cristhiano Cayres Ribeiro, eleva significativamente o peso da investigação conduzida pelo Ministério Público. Não se trata mais apenas de denúncia política ou embate retórico. Quando a apuração chega ao ponto de acessar movimentações financeiras e dados fiscais, o processo ganha outro nível de profundidade.

Segundo o Ministério Público, depoimentos de comissionados indicariam devolução de parte dos salários como condição para permanência nos cargos. A investigação ainda adiciona outro elemento delicado: o suposto uso de maquinário público da Administração Regional 13 em benefício de evento ligado ao parlamentar. São acusações pesadas, que agora entram em fase de análise mais robusta após autorização judicial.

A defesa nega irregularidades e afirma que tudo será esclarecido durante a instrução do processo. E é importante deixar claro: há direito pleno à ampla defesa, ao contraditório e à presunção de inocência. O caso ainda está longe de um desfecho definitivo.

Mas politicamente o impacto já existe. Principalmente porque o episódio reacende um fantasma que ronda a Câmara de Campinas há anos: as recorrentes suspeitas envolvendo gabinetes, cargos comissionados e estruturas políticas locais.

E talvez justamente por isso o ambiente interno do Legislativo deva mergulhar em um silêncio quase absoluto sobre o tema. Afinal, a suspeita de rachadinha não é um assunto distante ou isolado dentro da história recente da Casa. Muitos preferem tratar o tema com cautela máxima — ou simplesmente fingir que ele não existe.

No fim, o caso Edison Ribeiro reforça uma sensação já bastante presente na opinião pública: a de um Legislativo frequentemente consumido pelas próprias crises. E o mais preocupante é que, em meio a tantos episódios sucessivos, existe o risco de algo grave virar rotina. Quando escândalos passam a ser recebidos com naturalidade, o desgaste institucional deixa de atingir apenas um vereador e contamina ainda mais a já fragilizada Câmara.