A tão aguardada licitação do transporte público de Campinas sofreu um impacto que, embora esperado no roteiro, chama atenção pela intensidade. A judicialização já era praticamente inevitável diante do tamanho do contrato, do volume bilionário envolvido e dos interesses de grupos que, ao mesmo tempo em que criticam o sistema, não abrem mão de disputar sua operação. Ainda assim, a decisão do Tribunal de Contas do Estado de São Paulo de barrar a homologação surpreende não pelo ato em si, mas pela quantidade e pela natureza das dúvidas levantadas.
O TCE determinou que a Prefeitura não avance com a homologação até que sejam esclarecidos indícios de irregularidades no processo. Entre os principais pontos, estão possíveis vínculos entre empresas que participaram da concorrência, incluindo compartilhamento de estruturas, endereços, contatos e até conexões societárias. Em outras palavras, o que deveria ser uma disputa entre concorrentes independentes pode, em tese, esconder relações que comprometem a competitividade do certame.
E é exatamente aí que mora o problema. Não se trata de uma dúvida pontual ou de um detalhe técnico isolado. O que o tribunal apresenta é um emaranhado de questionamentos básicos, que deveriam estar absolutamente blindados antes mesmo da realização do leilão. Isso levanta uma inquietação inevitável: como pontos considerados tão elementares passaram por todas as etapas anteriores sem serem resolvidos?
O caso ganha contornos ainda mais curiosos quando se lembra que o leilão foi realizado na B3, em São Paulo. A escolha da bolsa de valores tinha justamente o objetivo de conferir mais transparência, mais credibilidade e um selo de lisura ao processo. No entanto, mesmo com toda essa estrutura, os questionamentos surgem agora, depois do certame concluído. Para quem observa de fora, é difícil não estranhar.
A reação da Prefeitura indica que o problema está longe de ser trivial. A administração afirma que intensificou diligências, com verificações técnicas, análises de capacidade operacional e até visitas presenciais às sedes das empresas. Há, inclusive, atuação sob o olhar da Polícia Civil, o que eleva ainda mais o nível de gravidade do caso.
Do lado das empresas, a defesa é protocolar. O Consórcio Grande Campinas, vencedor de um dos lotes, nega qualquer irregularidade e afirma cumprir rigorosamente as regras do edital. Reforça confiança na Justiça e se coloca à disposição para esclarecimentos. É o movimento esperado — mas que, neste momento, não elimina as dúvidas levantadas pelos órgãos de controle.
O fato é que a licitação, que já vinha sendo tratada como um avanço após anos de tentativas frustradas, volta a entrar em uma zona de incerteza. E isso tem impacto direto na cidade. Cada atraso, cada questionamento, cada nova etapa de análise mantém o sistema atual — desgastado e precário — em operação por mais tempo.
O transporte público de Campinas, que já era uma novela longa e cansativa, ganha agora mais um capítulo com cara de suspense. E, pelo que se desenha, ainda há bastante estrada pela frente.
No fim, a sensação é clara: o processo até avançou, mas o pavimento segue cheio de buracos.
O debate sobre a volta dos rodeios em Campinas ganhou um capítulo final — ao menos por enquanto — com mais barulho político do que solução prática. Depois do arquivamento do projeto na semana passada, o tema voltou ao plenário nesta segunda-feira, impulsionado novamente pelo vereador Arnaldo Salvetti, que levou apoiadores e manteve o tom de enfrentamento.
O parlamentar voltou a criticar a decisão da Comissão de Constituição e Legalidade e concentrou ataques no colega Otto Alejandro, responsável por pautar o projeto e que mudou de posição ao longo da tramitação. A divergência entre os dois deixou de ser apenas técnica e passou a ser claramente política, com reflexos diretos nas redes sociais e no plenário.
Mesmo com o projeto encerrado dentro da atual legislatura, Salvetti insiste no discurso de que realizará um rodeio na cidade. A promessa, agora, foi empurrada para o próximo ano. O ponto central, no entanto, permanece sem resposta: como viabilizar um evento que hoje é proibido por legislação municipal e reforçado por decisões judiciais?
A fala do vereador aponta mais para mobilização política do que para um caminho concreto. Ao afirmar que poderia realizar o rodeio mesmo diante da legislação vigente, o discurso entra em um terreno delicado, já que a própria tramitação do projeto evidenciou barreiras legais importantes, incluindo entendimento do Ministério Público e decisões do Judiciário.
Do outro lado, Otto Alejandro reforçou que o debate na comissão foi estritamente jurídico, destacando que o projeto foi barrado por unanimidade e que não houve mudança nas condições legais que sustentaram a decisão. Já o presidente do Conselho de Defesa Animal, Flávio Lamas, foi direto ao afirmar que qualquer tentativa de realização de rodeio fora da lei poderia ter implicações legais.
O que se vê, por ora, é um impasse claro: de um lado, a promessa política; do outro, uma barreira legal consolidada. No meio disso, um debate que segue rendendo palco — mas sem sair do lugar.