21 de abril de 2026
SAUDADE

Luto por pets cresce e Jundiaí discute sepultamento em jazigos

Por Giulianna Mazzali |
| Tempo de leitura: 5 min
Jornal de Jundiaí
Arquivo pessoal
Thalita Leite relembra a trajetória de cuidado com Theo

Para muitas famílias, cães, gatos, hamsters, calopsitas e uma infinidade de outros animais domésticos deixaram de ser apenas animais de estimação. O caminhar pela casa, seguindo os passos do dono, os aconchegos no colo e a presença fiel nos dias bons e nos difíceis mostram que os pets passaram a ocupar espaço de afeto, convivência diária e um vínculo profundo dentro de casa — são parte da família.

Quando essa companhia chega ao fim, a despedida revela a dimensão da conexão e do pertencimento, e evidencia a importância desses companheiros na vida das pessoas. Porém, o que fica — o luto, a saudade, a casa vazia — abre espaço para discussões sobre esses sentimentos e sobre formas mais sensíveis de se despedir e homenagear quem partiu.

Em fevereiro deste ano, o governo estadual sancionou uma lei que autoriza que os animais de estimação sejam sepultados em jazigos familiares. A lei, conhecida como “Bob Coveiro”, já havia sido aprovada na Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo) em dezembro de 2025 e homenageia o cão Bob, que viveu em um cemitério em Taboão da Serra por 10 anos, até ser enterrado com sua tutora após o falecimento.

Apesar de a legislação já estar em vigor, o texto determina que cabe aos serviços funerários municipais estabelecerem as regras de sepultamento. Em Jundiaí, de acordo com a Secretaria de Infraestrutura e Serviços Públicos do município (SMISP), “o tema tem sido discutido pelos órgãos competentes, que envolvem a Prefeitura e as Secretarias relacionadas, a fim de definir critérios sanitários, ambientais e administrativos para eventual autorização do sepultamento”.

Ainda segundo a SMISP, a elaboração do documento está em fase final e seguirá para análises das pastas competentes. Além disso, informou que, até o momento, o município não realizou o sepultamento de nenhum animal em cemitérios públicos.

Mas vontade não falta. Luiz Alessandro Baggio (60) era pai de Maya, uma yorkshire, e de Gina, uma maltês. Na última Sexta-Feira Santa, o assessor municipal deu adeus à sua companheira Maya, com quem dividiu a vida por 15 anos, seu primeiro pet. Para ele, que ainda sente o peso da ausência em sua rotina, o enterro no túmulo da família é uma opção. “A casa ficou diferente, porque ela fazia parte de tudo. A saudade é constante e qualquer coisa me faz lembrar dela, então penso que esse tipo de homenagem ajuda a fechar um ciclo. Reconhecer o quanto ela foi importante. Se pudesse, faria o sepultamento. É uma forma de mantê-la por perto, como sempre foi.”

Luiz Alessandro Baggio perdeu recentemente Maya, cadela que o acompanhou por 15 anos

Luiz, que ainda está lidando com o luto, se apoia nas lembranças de Maya para tentar seguir em frente. Ele e Gina, que também sentiu a perda da amiga de quatro patas, estão passando pelo momento juntos.

A psicóloga e professora Simone Demasi Carbol (44) explica que a saudade com a perda de um animal pode ser até mais forte do que com a perda de uma pessoa. “Na maioria das vezes, eles só nos deram amor e alegria, então não ficam mágoas. Quando eles se vão, é muito comum sentir um vazio, uma tristeza grande e até culpa. E tudo isso é legítimo. É uma dor real, porque perdemos uma fonte importante de afeto.”

Segundo Simone, muitas pessoas não são respeitadas e legitimadas quando perdem seus animais, o que pode gerar sentimentos de incompreensão e culpa pelo seu sofrimento. “A pessoa sente que não tem espaço para viver a dor dela, o que pode atrapalhar o processo de luto e trazer mais demora para a cura. Gosto de pensar que, se estamos vivendo um luto por nossos pets, é porque tivemos a oportunidade de viver muito amor e alegria.”

Simone Demasi Carbol defende legitimidade dos impactos emocionais da perda dos pets

 

Há pessoas, porém, que finalizam o processo de luto com um pensamento lindo e a consciência leve. Thalita Leite (46) adotou, em 2018, o Theo, um maltês já adulto e com uma doença chamada linfangiectasia granulomatosa, condição rara caracterizada pela dilatação e ruptura dos vasos linfáticos intestinais.

Thalita conta que, enquanto Theo viveu, investiu em remédios, tratamentos e tudo o que pôde oferecer, do bom e do melhor. Trabalhando de home office, conseguiu dar muito amor, carinho e atenção ao companheiro, uma relação forte como “de mãe e filho”, segundo a jornalista.

Em 2024, Theo se despediu da família por meio da eutanásia, já com doze anos e um estágio muito avançado da doença. Thalita explica que ela e Mocca, cachorro que adotou alguns anos depois de adotar o Theo, sentiram muito a perda, mas que o sentimento também foi de alívio. “Não perdi meu cão de repente, então foram meses e anos sabendo que ele ia partir. Senti uma saudade enorme, mas estava muito tranquila, porque sabia que tinha cumprido o meu papel e feito tudo o que podia por ele.”

Thalita afirma que não sepultaria seus animais no túmulo de sua família, mas entende a importância de uma despedida. Para Simone, o importante é cada pessoa fazer aquilo que faz sentido para si. “Cada um vive a dor e o luto de um jeito muito único, por isso, os rituais também são únicos. Ainda assim, eles podem ser muito importantes, porque ajudam a dar forma aos sentimentos. Basta respeitar sua dor e criar algo especial para esse momento, a partir da relação que teve com seu pet.”

No município, já existem empresas privadas que oferecem, de maneira ética e personalizada, formas diferentes de despedida, entre elas o enterro e a cremação. Independentemente do que o coração precisar, o importante é encontrar conforto para seguir em paz e com a certeza de que essa conexão nunca será perdida.