14 de abril de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: Câmara barra nova CP e evita armadilha

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação/CMC
Sem fato novo, vereadores arquivam pedido e evitam precedente perigoso para o próprio Legislativo

A Câmara de Campinas, desta vez, decidiu pelo caminho mais sensato. Mesmo com a conhecida má-vontade de boa parte do plenário, o pedido de Comissão Processante contra o vereador Vini Oliveira foi arquivado por unanimidade — e não havia mesmo outro desfecho possível. A denúncia não trouxe qualquer fato novo relevante, repetindo argumentos já conhecidos, situações previamente analisadas e até episódios que já tiveram desdobramentos na esfera judicial. Nada que justificasse acionar o instrumento mais extremo do Legislativo, que é a abertura de um processo que pode culminar na cassação de mandato.

O ponto mais sensível da peça, aliás, escancara o problema. O pedido questionava justamente a atuação fiscalizatória do vereador e suas críticas públicas, inclusive direcionadas a colegas de plenário. Mas fiscalizar é obrigação do parlamentar, e criticar também faz parte do jogo político. Pode-se discordar do estilo, considerar excessivo ou midiático, mas transformar esse comportamento em base para cassação abre um precedente perigoso, sobretudo pela subjetividade. Hoje serve para um, amanhã pode atingir qualquer outro — e muitos ali dentro têm plena consciência disso.

A eventual aprovação de uma Comissão Processante nessas condições criaria uma armadilha institucional, onde o exercício mais contundente do mandato poderia ser enquadrado como quebra de decoro. E há ainda um fator político relevante que pesou na decisão, mesmo que de forma silenciosa: o chamado efeito Streisand. Ao tentar punir ou silenciar, o resultado tende a ser o oposto — mais visibilidade, mais engajamento e, consequentemente, mais força política para o alvo.

No caso de Vini Oliveira, esse risco é ainda mais evidente. O vereador já demonstrou força nas urnas em 2024 e mantém uma presença expressiva nas redes sociais. Transformá-lo novamente em alvo poderia reforçar a narrativa de perseguição, algo que costuma gerar retorno político imediato no ambiente digital. Esse cálculo, ainda que não verbalizado, foi levado em consideração tanto por parlamentares da base quanto por integrantes da oposição.

No fim, prevaleceu o bom senso e a Câmara evitou um erro político e institucional. Ainda assim, o episódio reforça um problema maior: a banalização das Comissões Processantes. Um instrumento que deveria ser excepcional virou rotina, perdeu impacto e passou a ser utilizado de forma recorrente em disputas políticas. Este capítulo se encerra, mas dificilmente será o último — em Campinas, o roteiro já é conhecido e novos episódios parecem sempre à espreita.

A novela da prorrogação dos ônibus


Divulgação/EMDEC

A Câmara de Campinas caminha para colocar um ponto final em mais um capítulo da já desgastada novela do transporte público. Após uma tramitação marcada por ruídos, críticas e correções de rota, o projeto que autoriza a prorrogação dos contratos atuais deve ser aprovado em definitivo nesta quarta-feira, quando retorna ao plenário para a segunda votação — a que realmente define o destino da proposta.

O desfecho, neste momento, parece previsível. A aprovação em primeira discussão, com 25 votos favoráveis, já deu o tom do que deve se repetir agora, sem grandes sobressaltos. O próprio ajuste feito no texto — reduzindo o prazo máximo de três para dois anos — ajudou a diminuir resistências e acomodar parte das críticas que vinham sendo feitas, inclusive dentro da própria base.

Ainda assim, o processo deixa marcas. Não necessariamente cicatrizes permanentes, mas escoriações políticas evidentes tanto para o Executivo quanto para o Legislativo. A Prefeitura demorou a construir a narrativa e explicar a necessidade da medida, deixando o debate correr solto e permitindo que a proposta fosse recebida com desconfiança. Quando reagiu, já estava no campo do reparo, não mais da prevenção.

Do lado da Câmara, o desgaste também foi inevitável. O tema expôs divergências, gerou embates e reforçou a sensação de que decisões estruturais seguem sendo tratadas sob pressão, e não com planejamento antecipado. No fim, prevaleceu o pragmatismo: evitar qualquer risco de interrupção no serviço, ainda que ao custo de mais um remendo em um sistema que se arrasta há anos.

A justificativa técnica para a prorrogação é conhecida e, em certa medida, consistente. A transição para o novo modelo exige tempo. A própria estruturação das futuras concessionárias, a análise documental, a montagem de operação, aquisição de frota e implantação de sistemas indicam um prazo que pode chegar a mais de um ano. Nesse cenário, manter os contratos atuais passa a ser uma solução de segurança para garantir a continuidade do serviço.

O problema nunca foi exatamente o “o quê”, mas o “como”. A proposta chegou mal explicada, com um prazo inicialmente considerado excessivo e sem o devido debate prévio. A correção para dois anos trouxe o projeto para um campo mais aceitável — inclusive dentro do próprio mandato do prefeito Dário Saadi —, mas não apagou o desgaste acumulado.

Com a aprovação final, o tema tende a sair do centro imediato do debate político, ao menos no curto prazo. Mas isso não significa tranquilidade. O transporte público segue como o principal calcanhar de Aquiles da gestão e continuará sendo cobrado diariamente pela população, que convive com um sistema precário enquanto aguarda, mais uma vez, uma solução definitiva.