A chamada Caravana 3D passou por Campinas com o roteiro oficial já conhecido: anúncios, convênios, promessas e cifras bilionárias.
Mas o que ficou, de fato, não foi apenas o pacote de R$ 1,4 bilhão anunciado pelo governador Tarcísio de Freitas.
Foi o ambiente, do qual pude presenciar na última quinta-feira.
O histórico Prédio do Relógio ficou lotado com prefeitos de cerca de 90 municípios, além de vereadores, secretários e empresários. Um cenário que, na teoria, tinha como objetivo acelerar investimentos e aproximar o Estado das cidades.
Na prática, virou outra coisa.
Uma espécie de ritual político clássico, daqueles que atravessam governos, ideologias e gerações.
Bastou a chegada de Tarcísio para que o evento ganhasse outro ritmo. Foram cerca de 45 minutos até que o governador conseguisse chegar ao palco. No caminho, uma fila informal de cumprimentos, selfies, pedidos, conversas rápidas e tentativas de proximidade.
A cena não é nova.
Remete diretamente à Marcha dos Prefeitos, em Brasília, especialmente nos primeiros mandatos de Luiz Inácio Lula da Silva, quando prefeitos peregrinavam pela capital federal em busca de recursos, visibilidade e acesso ao poder central.
Mudam os nomes.
Mudam os estilos.
Mas o comportamento político permanece praticamente o mesmo.
A Caravana 3D, que carrega no nome conceitos como desenvolvimento, dignidade e diálogo, acaba funcionando também como um grande palco de articulação e demonstração de força política.
E em ano eleitoral, esse simbolismo ganha ainda mais peso.
O volume de convênios — foram 97 autorizações — e os investimentos anunciados reforçam a presença do Estado nos municípios. Mas, paralelamente, o evento evidencia algo que não está no release oficial: a centralidade da figura do governador como eixo de poder e conexão política, mas de olho em outubro.
Prefeitos querem recursos.
Mas também querem proximidade.
Querem foto.
Querem vínculo.
E o governador, claro, aceita, pois já joga em clima de reeleição.
No fim, a Caravana cumpre seu papel institucional.
Mas revela, mais uma vez, que a política — independente do discurso ou da época — ainda gira em torno de gestos antigos, quase ritualísticos.
E Campinas, desta vez, foi o cenário perfeito para esse déjà vu.
Divulgação/CMC
A Câmara de Campinas ensaiou uma trégua nos pedidos de Comissão Processante, mas ela durou pouco.
E, mais uma vez, o alvo é o vereador Vini Oliveira.
O novo protocolo não chega a surpreender. O que chama atenção é o conteúdo — ou a falta dele.
Ao analisar a peça, fica evidente que não há fato novo relevante. São argumentos já conhecidos, episódios já debatidos e, em alguns casos, situações que sequer permanecem no campo político, pois já foram resolvidas na esfera judicial.
E aí está o ponto central.
A Comissão Processante não é um instrumento qualquer. Ela existe para avaliar se há base para cassação de mandato, a punição mais grave dentro do Legislativo.
Quando esse mecanismo passa a ser acionado sem elementos inéditos ou robustos, o efeito é imediato: perde força, perde peso e perde credibilidade.
No caso específico, há menções a decisões judiciais, vídeos em redes sociais e críticas públicas do parlamentar. Nada que a própria Câmara já não tenha analisado — e, em momento anterior, arquivado.
Se houve excessos em falas ou postagens, há caminhos institucionais claros. A Justiça já foi acionada em episódios envolvendo o vereador. Empresas ou pessoas que se sintam atingidas também têm instrumentos legais à disposição.
Mas transformar isso, novamente, em pedido de cassação parece um passo além.
E um passo perigoso.
Porque cria um ambiente onde qualquer embate político ou exagero retórico vira, automaticamente, motivo para CP.
Se esse for o parâmetro, dificilmente sobraria alguém ileso no atual cenário político.
O efeito colateral também é previsível.
Ao invés de fragilizar, esse tipo de movimento tende a fortalecer o discurso de perseguição adotado pelo próprio vereador. E, no ambiente das redes sociais — onde Vini Oliveira construiu sua base — isso vai gerar engajamento, fidelização e capital político.
Ou seja, o tiro pode sair pela culatra.
O novo pedido ainda passará pelo crivo técnico da Procuradoria e, depois, pelo plenário.
Mas, independentemente do desfecho, o episódio reforça uma percepção que cresce dentro e fora da Câmara: a banalização de um instrumento que deveria ser excepcional.
E quando o excepcional vira rotina, deixa de causar impacto.
Vira apenas mais um capítulo repetido que, obviamente, tem o mesmo fim.
Um adendo à história do Vini. Apesar de achar frágil, quem vai definir o futuro do vereador é o plenário. E o julgamento é político. Se os vereadores quiserem cassar, eles cassam. Decisão soberana.
O jovem parlamentar nunca foi bem-visto pelo seu estilo explosivo e inesperado, porém Vini vinha mais maleável, até o início deste ano eleitoral.
As postagens e discursos voltaram a ser mais agressivos e, novamente, passaram a apontar para o Quarto Andar. O episódio mais recente foi a votação do projeto para prorrogar os atuais contratos do transporte público. A condição dos ônibus se tornou um dos roteiros rotineiros dos posts de Vini, com críticas pesadas ao Executivo.
Papel dele.
Porém, na última quarta, a Câmara precisou votar, em primeira discussão, a extensão. Vini foi contrário. Ok.
Só que o que irritou a base foi seu discurso de que ele não teria “sangue nas mãos”.
Aí, Vini despertou, novamente, a ira de quem apenas o tolera.
Vale lembrar que, apenas por Vini respirar, a bancada de esquerda já vota a favor de qualquer pedido contra o parlamentar.
Agora, ele deixou a base — que é quem salva ou condena — com sangue nos olhos.