09 de abril de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: O adeus a Signorelli e o vazio institucional

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 4 min
Reprodução/Carlão do PT
A partida de Carlos Signorelli, ex-presidente da Câmara de Campinas, deveria ter sido um momento de reconhecimento à altura da sua trajetória.

A morte de Carlos Signorelli, nome histórico do PT municipal, deveria ter sido um momento de respeito institucional à altura de sua trajetória. Não foi. E isso diz muito mais sobre a atual Câmara Municipal de Campinas do que sobre o próprio legado de quem partiu.

Signorelli não foi apenas mais um ex-vereador. Foi presidente da Câmara, figura central do Legislativo campineiro no início dos anos 2000, eleito por quatro mandatos e reconhecido por um perfil que hoje parece raro: firme nas posições, direto nos embates, mas capaz de dialogar e construir pontes.

Era respeitado inclusive por adversários.

Esse traço ficou evidente no próprio velório, realizado no Cemitério Flamboyant, onde o prefeito Dário Saadi relembrou exatamente essa característica: a capacidade de convivência política mesmo em lados opostos. Chamou Signorelli de amigo.

Algo que, convenhamos, anda em falta na política atual.

A Prefeitura decretou luto oficial de três dias.

Mas se o reconhecimento veio de fora, faltou dentro de casa.

A Câmara se limitou a uma nota curta, fria, protocolar. Um minuto de silêncio na sessão. E só. Nada no site. Nada nas redes sociais. Nenhuma mobilização institucional minimamente compatível com a relevância do ex-presidente da Casa.

Foi pouco. Muito pouco.

E houve ainda um momento estranhíssimo: durante o pedido de ‘minuto de silêncio’, a vereadora Paolla Miguel, do mesmo PT de Signorelli, errou a pronúncia do nome do ex-vereador e sequer mencionou o principal cargo que ele ocupou.

Não é um detalhe.

Não morreu apenas um ex-parlamentar. Demos adeus a uma referência. Morreu alguém que comandou o Legislativo da cidade.

E isso exige mais do que formalidade. Exige memória. Exige cuidado. Exige respeito institucional.

O contraste é inevitável. Enquanto militantes, entidades e antigos colegas se manifestaram com profundidade, destacando a trajetória e o legado, o órgão que ele presidiu tratou o episódio como mais um item de pauta.

Como se fosse rotina.

E talvez seja exatamente esse o problema.

A Câmara de Campinas, cada vez mais, parece perder a dimensão simbólica do próprio papel. Honrarias são banalizadas. Memórias são negligenciadas. Referências políticas são tratadas com descuido.

E, nesse processo, a instituição vai se esvaziando de significado.

Signorelli representava um tempo em que o embate político não anulava o respeito. Em que divergência não significava hostilidade permanente. Em que o Legislativo tinha figuras que marcavam posição — e deixavam legado.

Por isso, o que mais entristece não é apenas a morte.

É a forma como ela foi tratada.

Uma prorrogação menor


Divulgação/CMC

A aprovação era esperada.

E veio exatamente como desenhada nos bastidores: com ajustes, acomodação política e uma dose de pragmatismo para evitar um problema ainda maior. A Câmara Municipal de Campinas deu o primeiro sinal verde para a prorrogação dos contratos do transporte coletivo, mas com um detalhe que diz muito sobre o processo: o prazo caiu de três para dois anos.

Não foi um detalhe técnico. Foi político.

A mudança aproxima o projeto daquilo que já vinha sendo defendido por setores da oposição e, ao mesmo tempo, mantém a transição dentro do mandato do prefeito Dário Saadi. Ou seja, a prefeitura recuou — ou, para usar o termo da moda no próprio governo, modulou.

E fez isso porque apanhou.

Não pelo conteúdo da proposta, que é compreensível. A necessidade de uma transição segura, diante de um sistema historicamente problemático, é evidente. A própria Emdec estima um período longo, entre 11 e 14 meses, para que o novo modelo entre plenamente em operação.

O problema foi outro. Foi o timing.

A prefeitura deixou a crise acontecer primeiro — enviou o projeto para o legislativo — para depois apresentar a argumentação.

Resultado: desgaste.

E aí não se trata mais de gestão de crise. Se trata de correr atrás do prejuízo.

A redução do prazo para dois anos é o símbolo mais claro disso. Uma tentativa de equilibrar o discurso técnico com a pressão política, criando uma “zona de conforto” para aprovação no plenário. Funcionou. Mas não sem custo.

Porque o debate expôs fragilidades.

Mostrou que o governo perdeu a narrativa em um tema central da gestão. E, pior, abriu espaço para dúvidas que poderiam ter sido evitadas com uma condução mais transparente desde o início.

No fim, o projeto passa, mas passa com marcas.

E reforça um padrão que se repete: decisões corretas no conteúdo, mas mal comunicadas no processo.

No transporte de Campinas, que já carrega anos de desgaste, isso pesa ainda mais.