05 de abril de 2026
COLUNISTA

A última semana de jesus: a paixão que salva

Por Hugo Evandro Silveira |
| Tempo de leitura: 4 min
Pastor Titular - Igreja Batista do Estoril

A última semana de Jesus não pode ser lida como uma simples sucessão de acontecimentos dramáticos. Ela é o centro da história da redenção, o ponto em que o amor eterno de Deus encontra de modo visível e doloroso a miséria do pecado humano. Cada passo de Cristo em direção a Jerusalém foi consciente, voluntário e carregado de propósito. Ele não foi arrastado para a cruz pelas circunstâncias; avançou para ela em obediência ao Pai e por amor aos seus. Quando Jesus entra em Jerusalém montado num jumentinho, cumpre-se a profecia do Rei manso e humilde. A multidão o aclama, os ramos são lançados pelo caminho e os lábios gritam "Hosana", mas o coração de Jesus não se ilude com o entusiasmo popular. Ele sabe que a mesma cidade que agora se comove diante dele em poucos dias clamará por sua morte. Por isso, ao contemplar Jerusalém, ele chora. Essas lágrimas já nos introduzem no mistério da paixão: o Salvador não sofre apenas fisicamente; ele sofre moral e espiritualmente ao ver a cegueira de homens e mulheres que não reconhecem o tempo da visitação divina.

Cristo é o Rei rejeitado, o Messias que vem para os seus, mas os seus não o recebem. Nos dias que se seguem sua presença expõe a esterilidade de uma religião que conservava aparência, mas perdera a essência. A figueira sem fruto e o templo corrompido pela ganância revelam o mesmo diagnóstico: pode haver folhas sem fruto, movimento sem verdade, liturgia sem arrependimento e devoção sem santidade. Jesus não tolera uma fé superficial. Seu amor não é cúmplice da hipocrisia religiosa.

Seus opositores começam a tramar sua prisão e tentam encurralá-lo com palavras, mas habilidoso Jesus revela os segredos do coração corrompido deles. Ao mesmo tempo em que denuncia a dureza religiosa, também exalta a fé simples como a da viúva pobre e anuncia que sua morte será fecunda como um grão de trigo lançado à terra. Aqui a paixão começa a ganhar contornos ainda mais profundos: Jesus não será apenas vítima da maldade humana; ele será a semente santa que morre para produzir vida para muitos.

Judas é o amigo que negocia a traição. O contraste é doloroso: enquanto alguns se aproximam de Jesus para adorá-lo, outros se aproximam para vendê-lo. Há algo profundamente perturbador nisso: o coração pode conviver externamente com Cristo e ainda assim, internamente, já tê-lo abandonado. Justamente por isso, antes de condenarmos Judas com facilidade, precisamos perguntar se não temos, ainda que algumas vezes, barganhado nossa fidelidade a Cristo por conveniências menores.

No cenáculo, Jesus lava os pés dos discípulos, institui a Ceia, consola corações aflitos, promete o Espírito Santo e intercede pelos seus. Poucas horas antes de ser preso, ele ainda serve, ama e fortalece. No Getsêmani, a agonia se intensifica. O Filho santo contempla o horror do juízo que carregará no lugar de pecadores. Sua obediência se dá em meio à dor, ao suor, à angústia e às lágrimas. Quando ele diz ao Pai celestial: "Não seja como eu quero, e sim como tu queres", ouvimos a submissão perfeita do segundo Adão vencendo onde o primeiro caiu.

Na sexta da crucificação, Jesus é rejeitado, zombado, espancado, coroado com espinhos e crucificado entre criminosos. O Justo é tratado como injusto para que os injustos sejam aceitos como justos diante de Deus. Na cruz não vemos apenas um exemplo de amor sacrificial, mas a obra decisiva da expiação. Ali a culpa é assumida pelo inocente, a ira divina é satisfeita, a dívida dos pecadores é paga e a reconciliação com o Criador é realizada. Quando Cristo clama "Está consumado", não fala como quem sucumbe, mas como quem concluiu a missão: A redenção foi realizada.

No sábado, o silêncio da morte faz parecer que tudo havia terminado, com as promessas enterradas junto ao corpo. No entanto, Deus continua operando mesmo quando os olhos humanos só enxergam ausência e escuridão. É por isso que a esperança de quem crê não depende da visibilidade, mas da fidelidade. Então no domingo o túmulo fica vazio. A pedra foi removida. A morte não pôde reter o Autor da vida. A ressurreição é a confirmação gloriosa de que o sacrifício da cruz foi aceito, de que o pecado foi vencido e de que a nova criação já começou em Cristo. O Ressuscitado traz paz e inaugura uma esperança que jamais poderá ser sepultada. A paixão de Cristo exige mais do que admiração; exige rendição.