O professor Akihiko Ando, 93, é uma simpatia de pessoa. Sempre bem-humorado e com uma memória encantadora, ele recebeu o JP em sua casa para contar histórias sobre sua marcante passagem pela Esalq/USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz) e outros “causos” de sua intensa vida, como o seu casamento com a senhora Masako Ando, 83, com quem teve quatro filhos.
No último dia 6 de março, o professor recebeu, das mãos do Ministro dos Negócios Estrangeiros do Japão, no Consulado-Geral do Japão em São Paulo, uma significativa homenagem de honra ao mérito pelo conjunto de sua trajetória científica e pioneirismo no Brasil.
Graduado em 1958 pela Universidade de Tóquio, Ando chegou ao país em 1959 e um ano depois passou a atuar no departamento de Genética da Esalq. Dedicou-se ao estudo dos efeitos biológicos das radiações e à aplicação da tecnologia de melhoramento genético por meio da energia nuclear.
Amante do guaraná brasileiro (“a melhor bebida do mundo”), Ando, porém, veio para Piracicaba por acaso. Estava de malas prontas para trabalhar em Cuba, onde teria um emprego no governo daquele país, quando houve a revolução cubana, em janeiro de 1959. Aí desistiu e veio para o Brasil. “Nunca tinha pensado no Brasil. A gente aprende, em geografia, que o Brasil é só floresta amazônica”.
Depois de morar por um ano em São Paulo, surgiu a oportunidade na Esalq/USP. Lugar onde se estabeleceu como profissional e ajudou a criar, em 1966, o Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA/USP). Veja, abaixo, os principais trechos da entrevista:
Quando o senhor chegou a Piracicaba?
Me formei em 1958, pela Universidade de Tóquio, em Engenheiro Agrônomo, e cheguei ao Brasil em 1959, solteiro e sozinho, com 26 anos.
Ao sair do Japão, recém-formado, o senhor já tinha como destino Piracicaba?
Essa é uma história longa. Antes de Piracicaba, eu estava indo para Cuba. O Ministério da Educação de Cuba tinha uma fazenda e precisava de um engenheiro para administrar essa fazenda. E eu me candidatei. Porque no Japão, era muito difícil para um recém-formado ter emprego. Mas a Revolução Cubana aconteceu em 1959, dia 29 de janeiro. Aí, o governo cubano Batista (Fulgêncio Batista) caiu. E Fidel Castro, comunista, assumiu. Assim, eu desisti de Cuba. Se fosse para Cuba, poderia ser que eu estivesse morto. Na praça de fuzilamento mataram muita gente do governo. Nessa época, eu tinha um amigo do meu tio que morava em São Paulo. Nunca tinha pensado no Brasil. A gente aprende, em geografia, que o Brasil é só floresta amazônica. Eu vi no mapa: Japão para Cuba e Japão para o Brasil era mais ou menos a mesma distância. E foi assim: no dia 4 de junho de 1959 vim para cá, de navio. Quarenta dias de viagem. Cheguei 14 de julho de 1959. Fiquei na casa desse meu amigo, no bairro de Pinheiros.
E como o senhor se virou em São Paulo?
Eu fiquei na casa dele duas semanas sem pagar nada. Mas ele tinha um menino de 13, 14 anos. E comecei a ensiná-lo matemática em troca desse favor. Esse menino hoje é vice-presidente da Associação Cultural Nipo-Brasileira. Fiquei um ano em São Paulo para aprender a língua portuguesa.
E como o senhor foi para a Esalq?
Eu tinha trabalhado com Centro de Energia Nuclear na Agricultura no Japão. Eu tinha duas publicações em inglês do meu trabalho nessa área. Eu trouxe para cá, por acaso. Um conhecido, formado na mesma universidade que a minha, me disse que em Piracicaba havia a Faculdade de Agronomia e que precisava de uma pessoa. Que estava abrindo uma nova área de pesquisa, de Energia Nuclear na Agricultura, a minha área. E eu me interessei. Eu nunca tinha pensado em trabalhar como educador. Quando cheguei aqui e desci do ônibus, eu amei a Praça José Bonifácio. Muito verde. Peguei um taxi e fui para a Esalq. Gostei muito da grandeza da Esalq. Quando eu conversei com a pessoa responsável da Esalq, mostrei as publicações dos meus trabalhos e ela gostou na hora. Me contratou em setembro de 1960 como técnico especializado. Como professor, a partir de 1967, no departamento de genética. E me aposentei em 2002.
O senhor participou da criação do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (CENA/USP), em 1966?
Sim. Decidimos concentrar todo o trabalho que usa energia nuclear na agricultura num só lugar. Sabe por quê? Energia nuclear é útil, mas por outro lado perigoso. A radiação pode provocar câncer na pele e outros danos no corpo. Então, era melhor concentrar num só lugar. E esse movimento ganhou força com o departamento de química, departamento de física e departamento de genética.
É verdade que ‘arrumaram’ a esposa para o senhor?
Quando cheguei a uma certa idade, mais de 30 anos, no início da década de 60, começaram a procurar a minha futura esposa. Pessoas daqui e do Japão. Preocupados para eu não ficar sozinho. E, em um dia, chegou uma carta de minha mãe, com um currículo, de uma moça (Masako Ando) recém-formada, de Tóquio. Era de uma família de nobreza no Japão. Ela tinha 24 anos e eu, 35. Mas achava que ela não queria viver aqui comigo trabalhando na Esalq. Ela poderia viver muito melhor no Japão.
E como foi esse namoro?
Quando fui ao Japão conhecê-la, em 1966, a gente saía para tomar um café, essas coisas. Para aumentar o tempo de encontro. Mas, eu recusei, porque era uma moça de nobreza e eu aqui só tinha emprego. Não tinha casa, não tinha carro... No ano seguinte, em 1967, eu tive a chance de ir para Formosa, no sul do Japão, em uma reunião sobre energia nuclear na agricultura. Aí, quando eu desci no aeroporto de Tóquio, minha mãe me encontrou e trouxe essa história de novo (da noiva). Eu tinha somente três dias no Japão, na correria, mas me encontrei com ela no centro do Japão. Fomos a um barzinho, um café. E começamos a conversar. Mas estava convicto que o Brasil não era o lugar para ela. E voltei para cá.
E como esse casamento acabou dando certo se o senhor dispensou a moça?
Um certo dia, isso em 1967, recebi uma carta. Ela falou que tal dia, tal hora, “eu vou chegar no aeroporto de Congonhas”. Eu me assustei. Nunca imaginei que ela poderia viajar sozinha. Ela tinha guardado dinheiro para a viagem. Estava se preparando para isso. E chegou aqui sozinha. Só me conhecia no Brasil. Não conhecia a mais ninguém. Eu senti muita responsabilidade por ela. Tinha uma escola em São Paulo que precisava de uma moça. E começou a trabalhar. Ficou três meses lá. Aí minha vida já mudou. Agora, todo final de semana seguia para São Paulo. Trabalhava no sábado até o meio-dia e pegava o ônibus da Piracicabana às 13h. Era muito caro. Então, eu a trouxe para cá e a coloquei em uma pensão só para mulher aqui. Depois, comprei um Fusca. Aí começamos a passear por todos os lugares: Águas de São Pedro, Botucatu, Salto... Já era uma época de pré-casamento (namoro).
E como que saiu o casamento?
Como estrangeiro, ela tinha o passaporte limitado (visto). De seis meses. Então, eu resolvi, que se ela concordasse - pois já tinha observado o meu nível de vida em Piracicaba - a gente poderia se casar. Ela concordou. Nossa festa teve mais de 100 pessoas. Quase todas da Esalq-USP. Depois, nos casamos no Japão. Pedi um mês de férias, e casamos no dia 4 de agosto de 1968, no dia no aniversário dela. Tivemos quatro filhos - Cláudio, 56 anos; Eduardo, 55; Alice, 53; e Leo, 51 anos.
E a homenagem em São Paulo, concedida pelo governo do Japão, no dia 6 de março? O senhor ficou feliz?
A homenagem foi fruto de toda atividade minha nesses anos. Eu estou no fim da vida. Noventa e quatro anos não é brincadeira né (risos). Não senti muita coisa. Deveria ficar mais contente. Para mim, se tiver homenagem ou se não tiver homenagem não muda. Tanto faz. Gozado né? Mas família ficou contente. Isso que importa.