A decisão da Prefeitura de Campinas, baseada em determinação do Condepacc, de retirar bancas comerciais do centro histórico trouxe à tona mais do que um debate urbanístico. Revelou, de forma quase didática, a desorganização da própria máquina pública.
De um lado, a Setec autorizou, regulamentou, fiscalizou e cobrou taxas dos permissionários. Do outro, o Condepacc aponta irregularidade e determina a retirada. Ou seja: o mesmo poder público que permitiu, agora proíbe.
É o retrato clássico da coisa pública em que todos têm poder — mas poucos têm coordenação.
As bancas, muitas delas tradicionais, não surgiram de forma irregular. Não houve invasão. Não houve ocupação clandestina. Houve autorização formal. Houve pagamento. Houve relação institucional.
E, ainda assim, agora são tratadas como problema.
A reação foi imediata. Permissionários ocuparam o plenário da Câmara Municipal de Campinas e conseguiram algo raro: uniram todos os 33 vereadores, da base à oposição, em defesa da permanência ou, ao menos, de uma solução negociada.
O vereador Arnaldo Salvetti (MDB), que já foi presidente da SETEC, foi direto ao ponto ao afirmar que os próprios trabalhadores são parte do patrimônio da cidade. “Não acho certo, até porque se for falar em patrimônio, vocês são o patrimônio histórico da cidade. Então, vamos ter uma reunião na Setec. Nós vamos lá e discutir essa questão. Isso é um absurdo”, afirmou o parlamentar.
Já Carlinhos Camelô (PSB), também da base do prefeito Dário Saadi e do mesmo partido do vice Wandão, elevou o tom ao assumir lado claro no embate: o dos permissionários. “Não admito. A briga não é só de vocês. A briga é nossa. Porque vocês fazem parte da história do centro da cidade. Eu tenho um lado. Meu lado é os trabalhadores. É a categoria. Vou estar junto com vocês até o final”, disse.
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E não é difícil entender o porquê.
A decisão prevê a retirada de 52 estruturas em pontos simbólicos como Largo do Rosário, Praça Carlos Gomes, Praça Rui Barbosa, Praça Bento Quirino e Largo do Pará. Espaços que, historicamente, sempre foram ocupados por comércio popular, circulação de pessoas e vida urbana.
E é justamente aqui que o debate ultrapassa o campo técnico.
A ideia de preservação do patrimônio é legítima. Necessária. Mas o que se vê em Campinas é um paradoxo perigoso.
O mesmo sistema que impõe restrições rígidas em nome da preservação convive com uma cidade repleta de imóveis tombados abandonados, deteriorados e sem função. Prédios intocáveis — e inúteis.
Preserva-se a forma. Perde-se a vida.
E quando se retira do centro atividades que geram movimento, renda e presença, o efeito é previsível: esvaziamento.
Sem gente, não há comércio.
Sem comércio, não há circulação.
Sem circulação, não há segurança.
Sem vida, o centro morre — mesmo que esteja “preservado” no papel.
Os conselhos, muitas vezes, decidem dentro de uma lógica técnica isolada, distante da dinâmica real da cidade. É a preservação pensada no gabinete, mas aplicada sobre a rua — sem considerar quem vive dela.
E o resultado é esse choque.
Não se trata de ignorar regras ou desprezar o patrimônio. Trata-se de coerência. Se o poder público autorizou, fiscalizou e arrecadou, não pode simplesmente virar a chave e tratar o mesmo ato como irregularidade.
No mínimo, deveria assumir o erro. E construir uma solução que não penalize apenas quem confiou no próprio Estado.
A reunião prometida pela Prefeitura pode ser um caminho. Mas o episódio já deixa um recado claro: Campinas não sofre apenas com falta de planejamento. Sofre com falta de alinhamento.
E, no meio desse desencontro, quem paga a conta — como quase sempre — é quem trabalha.
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O vereador Otto (PL) retomou as atividades na Câmara Municipal de Campinas nesta segunda-feira, após cumprir 45 dias de suspensão por quebra de decoro parlamentar.
No primeiro discurso após o retorno, o parlamentar afirmou que volta ao mandato fortalecido e com respaldo popular. “Volto ainda mais firme, mais determinado e com ainda mais responsabilidade. Nosso mandato não é de gabinete fechado. É um mandato de rua, de escuta, de ação. Um mandato que cobra, que propõe entrega e dá resultado. Nesses 45 dias, a população sentiu a nossa falta, a falta do nosso trabalho”, afirmou.
A suspensão foi aprovada por 31 votos a 1, após relatório da Corregedoria apontar infração ética considerada grave, com violação de princípios como urbanidade, boa-fé e preservação da imagem institucional do Legislativo.
Paralelamente, os vereadores decidiram arquivar a Comissão Processante que poderia resultar na cassação do mandato. O entendimento majoritário foi de que não havia elementos suficientes para aplicação da penalidade máxima.
Com o retorno, Otto volta ao plenário mantendo o mandato, após um período marcado por desgaste político e repercussão dentro e fora da Câmara.
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O ritmo de votações e articulações no Congresso Nacional do Brasil – e na Assembleia Legislativa - deve cair nesta semana, impactado por dois fatores simultâneos: o feriado prolongado da Semana Santa e o encerramento da janela partidária, previsto para esta sexta-feira (3).
O período é decisivo para deputados – federais e estaduais - que pretendem trocar de legenda sem risco de perder o mandato. A regra vale exclusivamente para cargos proporcionais e antecede em seis meses o primeiro turno das eleições, marcado para 4 de outubro.
A chamada janela partidária é regulamentada pela Justiça Eleitoral do Brasil e representa uma exceção à regra geral de fidelidade partidária. Fora desse intervalo, a troca de legenda pode resultar na perda do mandato.
Além das mudanças partidárias, a semana também marca o limite para desincompatibilização. Integrantes do Executivo que pretendem disputar as eleições precisam deixar seus cargos dentro do prazo legal, como é o caso de ministros e secretários estaduais.