03 de março de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: Transporte entra nos finalmentes sob colapso

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação/PMC
Enquanto licitação avança, passageiros enfrentam atrasos, superlotação e frota degradada; VB3 concentra maior desgaste.

A licitação do transporte coletivo de Campinas caminha para os seus capítulos decisivos, mas a realidade nas ruas parece correr em sentido oposto. Justamente quando o edital finalmente recebeu propostas e o governo fala em alívio, o passageiro viveu semanas difíceis. Atrasos sucessivos, ônibus lotados a ponto de não pararem nos pontos e uma sensação generalizada de descontrole ampliaram o desgaste de um sistema que já opera mais que no limite.

Foram inúmeros relatos de veículos que simplesmente seguiam viagem sem embarcar novos usuários porque já estavam abarrotados. Trabalhadores ficaram para trás, estudantes chegaram atrasados, consultas médicas foram perdidas. A previsibilidade, que deveria ser o mínimo em um serviço essencial, desapareceu. A Prefeitura reagiu com reunião emergencial e determinou que 100% da frota operacional estivesse nas ruas a partir desta segunda-feira. O prefeito Dário Saadi classificou a situação como inadmissível e acionou a Empresa Municipal de Desenvolvimento de Campinas e a Secretaria de Transportes para cobrar providências.

A Emdec intensificou a fiscalização, colocou agentes nas garagens e ativou plano de contingência com veículos de cooperativas. Em 2025, já são 39,3 mil autuações aplicadas às operadoras, sendo 32,8 mil por descumprimento de viagens programadas. O número impressiona, mas também revela o tamanho do problema. Multa virou rotina. Fiscalização virou rotina. E, ainda assim, o sistema segue falhando.

Grande parte das reclamações se concentrou nas linhas operadas pela VB3, empresa do grupo Belarmino. O fato chama a atenção porque o conglomerado lidera o Consórcio MOV Campinas, um dos cinco grupos que apresentaram proposta na nova licitação. O desgaste é visível. Há anos o grupo domina parte significativa da operação e, para muitos usuários, virou sinônimo de ônibus velho, quebra constante e precariedade. Não por acaso, cresce nos bastidores a torcida — inclusive, na minha impressão, dentro da própria administração — para que o consórcio não seja vencedor no novo modelo.

Mas a licitação não funciona por torcida. Se a proposta do MOV for a melhor oferta técnica e financeira, e não houver impedimento jurídico, o grupo permanece. E essa é a ironia do momento: enquanto o mercado avalia planilhas e lances na B3, o cidadão avalia a experiência concreta no ponto de ônibus. A imagem pesa.

O vereador Vini Oliveira (Cidadania), em suas fiscalizações performáticas, expôs ainda mais o estado da frota, com ônibus deteriorados e veículos parados nas garagens sem condições de rodar. Independentemente do estilo, o fato é que as imagens circularam e reforçaram a percepção de colapso.

O discurso oficial aponta que a idade elevada da frota explica parte das falhas e reforça a necessidade urgente da nova concessão. O argumento é verdadeiro, mas também evidencia o ciclo vicioso: a frota envelhece porque o contrato se arrasta; o contrato se arrasta porque a licitação não sai; a licitação não sai porque enfrenta entraves técnicos e jurídicos. Enquanto isso, quem paga a conta é o passageiro.

O contraste é inevitável. De um lado, a expectativa positiva com seis propostas apresentadas por cinco grupos econômicos. De outro, ônibus que não param no ponto. De um lado, planilhas bilionárias prometendo renovação. De outro, superlotação e indignação.

A cidade vive uma encruzilhada. Se a nova licitação se consolidar e avançar sem judicialização, Campinas pode finalmente virar a página de um contrato que atravessou governos e se tornou símbolo de ineficiência estrutural. Se houver novo tropeço, o sistema pode entrar em estágio ainda mais crítico.

O transporte está nos “finalmentes” administrativos. Mas, na prática, para o usuário, o drama continua todos os dias, no ponto, esperando um ônibus que talvez venha — e, se vier, talvez não pare.

Chapéu, botas e recado


Divulgação/CMC

A 8ª Reunião Ordinária da Câmara Municipal de Campinas desta segunda-feira não reservava grandes surpresas na pauta, mas acabou produzindo uma cena simbólica e cheia de recados políticos. Chamou a atenção a presença organizada do movimento Rodeio em Campinas Já no plenário, sem que houvesse, ao menos oficialmente, um motivo imediato que justificasse a mobilização. Em política, no entanto, raramente algo é aleatório.

A movimentação tem endereço certo e liderança conhecida. A retomada dos rodeios, proibidos na cidade desde o início dos anos 2000, é bandeira antiga do vereador Arnaldo Salvetti (MDB), que voltou ao plenário nesta segunda-feira todo paramentado em estilo sertanejo raiz, evocando sem pudor o personagem Bruno Berdinazzi, interpretado por Antonio Fagundes em O Rei do Gado. A estética não foi detalhe. Foi mensagem.

O grupo ocupou as galerias para cobrar a reativação do debate, que já foi tema de audiências públicas e intensas polêmicas na legislatura passada. À primeira vista, a presença poderia soar deslocada. Mas, lida no contexto correto, funcionou como uma demonstração de força e de insistência política.

O pano de fundo é a sessão anterior, quando a Câmara aprovou o projeto do vereador Hebert Ganem (Podemos) que endurece as multas para casos de maus-tratos a animais. A proposta, apesar de tratar formalmente de animais domésticos, foi recebida pelo grupo pró-rodeio como um novo obstáculo à eventual retomada desses eventos. Salvetti tentou barrar a votação. Não conseguiu.

Mas a derrota não foi completa. O vereador reuniu 12 assinaturas em apoio à tentativa de derrubada do projeto, número expressivo o suficiente para sinalizar que sua pauta não é isolada e começa a encontrar eco dentro do Legislativo. Foi justamente após esse revés que o movimento reapareceu no plenário, agora não para discutir um projeto específico, mas para marcar território.

A leitura nos corredores foi clara: o rodeio voltou à cena como agenda política, mesmo sem proposta em votação. A presença do movimento serviu para lembrar aos colegas que o tema segue vivo, organizado e com base social mobilizada. Um gesto típico de quem perdeu uma batalha, mas quer mostrar que não perdeu a guerra.

Há também um elemento simbólico relevante. Ao aparecer no plenário caracterizado e acompanhado de apoiadores, Salvetti reforça uma narrativa identitária, que dialoga com tradição, cultura sertaneja e um eleitorado específico. É uma estratégia conhecida: transformar uma pauta controversa em símbolo de resistência cultural, deslocando o debate do campo técnico para o emocional.

A presença do Rodeio em Campinas Já nesta segunda-feira não foi improviso. Foi aviso. A pauta voltou ao plenário não pelo regimento, mas pela simbologia. E, pelo que se viu, o debate está longe de ser encerrado.