04 de fevereiro de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: Câmara entra no último ano de Rossini

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 4 min
Divulgação/CMC
Luiz Rossini entra no último ano à frente da Câmara após conter um incêndio institucional.

Começou o último ano de Luiz Rossini (Republicanos) no comando da Câmara de Campinas. E, no padrão histórico da política local, entrar nessa reta final sem escândalos pessoais já é um feito digno de registro. Rossini assumiu a presidência em 2023 com uma missão clara — e ingrata: apagar o incêndio institucional deixado pelas denúncias de pedidos de propina que derrubaram Zé Carlos (PSB) do cargo e, mais adiante, o levaram à renúncia do próprio mandato.

O Legislativo estava chamuscado. A imagem pública, devastada. Rossini entrou para esfriar o ambiente, baixar o tom e devolver alguma normalidade ao funcionamento da Casa. Nesse aspecto, cumpriu a tarefa. Seu estilo mais sereno ajudou a tirar o comando da Câmara do noticiário policial e recolocá-lo no eixo institucional — algo que, convenhamos, não era pouco naquele momento.

Isso não significa que o período tenha sido tranquilo. A Casa continuou provocando tremores, quase sempre por pautas conduzidas pela própria Mesa Diretora, chefiada por Rossini. Vieram aumento salarial, 13º, férias para vereadores e, mais recentemente, a proposta que inflou os gabinetes com 99 novos cargos comissionados. Bombas clássicas, daquelas que explodem fora do plenário e respingam na opinião pública.

Aqui está o paradoxo do mandato. Institucionalmente, Rossini estabilizou a Casa. Politicamente, a Câmara seguiu se desgastando com decisões que beneficiam os próprios vereadores. Para o cidadão, a sensação foi a de sempre: quando o assunto é interesse corporativo, o consenso aparece rápido. Nada disso, porém, tirou o sono do Legislativo. A polêmica, para eles, costuma ser “nuvem passageira”.

E Rossini seguiu a cartilha. Sem Ministério Público batendo à porta, sem crises abertas, alinhavou acordos, conduziu votações e manteve a governabilidade interna. Chega ao último ano com o nome preservado, algo que, no histórico recente da Câmara de Campinas, já merece ser observado com atenção.

Com o fim do mandato no horizonte, o tabuleiro sucessório começa a se mexer. Um nome já se colocou no passado e, nos bastidores, dizem que segue candidatíssimo: Carlinhos Camelô (PSB). Atual corregedor do Legislativo, Carlinhos deve, primeiro, disputar uma vaga como deputado. Se não lograr êxito em outubro, retoma a corrida pela cobiçada presidência da Câmara — plano antigo, nunca abandonado.

O PSB, aliás, conhece bem esse caminho. O partido integra o governo municipal desde 2013 e construiu, ao longo dos anos, um método — não uma regra — para ocupar o comando do Legislativo: lançar o líder do governo como candidato à presidência. Foi assim com Rafa Zimbaldi, depois com Marcos Bernardelli e, por fim, com o próprio Rossini.

A exceção foi 2021, quando Zé Carlos ascendeu à presidência — movimento viabilizado apenas porque Bernardelli não conseguiu se reeleger em 2020. O episódio abriu espaço para antigas ambições e foi justamente nesta “mudança” que vei a hecatombe. Exceções, como se sabe, confirmam a regra.

Se o roteiro for mantido, Paulo Haddad (PSD), atual líder do governo Dário Saadi, surge como nome natural para a sucessão. Ainda é cedo para cravar qualquer coisa, mas não há ingenuidade suficiente para acreditar que o assunto não esteja sendo tratado. Talvez ainda em cochichos. Talvez com cautela. Mas já em discussão.

Rossini tem o ano pela frente para encerrar o ciclo como começou: sem estridência. Apagou o incêndio que encontrou, conduz a Casa pelo trilho tradicional dos acordos internos e usa o palco sem solavancos pessoais. Em tempos tão turbulentos, isso já é um dado político relevante.

Agora, a Câmara entra naquele período clássico em que o futuro começa a ser decidido antes que o presente termine. E, como sempre, os movimentos mais importantes ainda não aparecem em plenário — mas nos bastidores.

Tarcísio escolhe a canoa

Depois de meses alimentando especulações, Tarcísio de Freitas fez o que se esperava — registrou, publicou e deixou à vista de todos qual deve ser, sempre no condicional que a política exige, o seu caminho.

Ao afirmar que é pré-candidato à reeleição ao governo de São Paulo, o governador tenta encerrar a temporada de ruídos sobre Planalto com a família Bolsonaro. Não é apenas uma frase; é um gesto político. Um gesto que busca estabilizar aliados, reduzir disputas e reorganizar o seu próprio objetivo mais imediato e, sobretudo, mais seguro.

O texto divulgado por Tarcísio não deixa margem para interpretações criativas. Assume a reeleição, afirma que trabalhará por “uma direita unida e forte” e nega, neste momento, qualquer outro plano eleitoral. Há também o gesto calculado de reafirmação de lealdade. Ao remarcar a visita a Jair Bolsonaro, Tarcísio quer reforçar o vínculo com quem o lançou ao cenário eleitoral em 2022. Gratidão e lealdade são palavras cuidadosamente escolhidas, sobretudo após a turbulência em que silêncio virou acusação de traição.

É claro que, ainda mais na política, declarações não são sentenças definitivas. O condicional permanece. O cenário nacional pode mudar, alianças podem se redesenhar e o calendário sempre reserva surpresas. Mas escrever e postar é diferente de deixar no ar.

Com isso, o governador coloca os dois pés dentro de uma única canoa. E, ao que tudo indica, escolhe um rio mais previsível. Agora, resta saber se conseguirá atravessar o leito sem voltar a olhar para a outra margem.