11 de janeiro de 2026
POLÍTICA

Flávio Paradella: Entre duas canoas, Tarcísio testa o equilíbrio

Por Flávio Paradella | Especial para a Sampi Campinas
| Tempo de leitura: 5 min
Divulgação/Governo de SP
No último ano de mandato, Tarcísio entra em 2026 favorito à reeleição, mas pressionado por um dilema que pode atrapalhar seu futuro político.

Tarcísio de Freitas chega a 2026 em uma posição confortável — e, ao mesmo tempo, perigosamente instável. O último ano de seu mandato começa com caminho aberto para a reeleição no maior estado do país, mas com uma dúvida que cresce a cada semana: afinal, ele quer terminar governador ou se lançar como alternativa presidencial da direita? O problema é que, na política, não se anda muito tempo com o pé em duas canoas sem cair na água. E as embarcações começam a se afastar.

Do ponto de vista estadual, o cenário é quase ideal. Tarcísio de Freitas tem ampla aprovação nas pesquisas, governa um estado onde as lideranças tradicionais estão silenciadas — seja por incompetência, seja por falta de espaço diante da hegemonia construída pelo atual governador. Direita e centro orbitam o Palácio, disputando proximidade, afagos e fotos. Nesse contexto, uma reeleição em primeiro turno não é projeção absurda — é hipótese realista.

O problema começa quando São Paulo deixa de ser apenas São Paulo. Com Jair Bolsonaro preso e fora da disputa, a direita nacional entrou em modo de busca por referências. E, goste-se ou não, Tarcísio passou a ser visto como um nome viável para conservadores, empresários e mercado — setores que não enxergam em Flávio Bolsonaro segurança política, densidade eleitoral ou estabilidade institucional.

Aqui mora o nó. Jair Bolsonaro, mesmo encarcerado por tentativa de golpe, ainda tenta controlar o campo político que criou. Ungiu o filho Flávio Bolsonaro como candidato, mas o gesto não empolgou aliados históricos. O resultado foi previsível: o bolsonarismo-raiz passou a mirar Tarcísio como ameaça.

As redes sociais se tornaram termômetro dessa tensão. O episódio mais recente — a queda de Bolsonaro na cela — expôs o racha. A ausência de uma manifestação explícita de Tarcísio contra a manutenção da prisão foi suficiente para que ele fosse acusado de “ingratidão”. O recado foi claro: neutralidade também é vista como traição.

O paradoxo é evidente. Tarcísio foi uma criação política de Bolsonaro em 2022, lançado como um nome “inventado” para disputar São Paulo — e venceu. Governou, construiu imagem própria, colheu bons índices e se tornou favorito. Mas a mesma base que o impulsionou agora cobra fidelidade irrestrita, mesmo quando isso conflita com seus próprios cálculos.

É aqui que o risco se materializa. O eleitor paulista pode até aprovar o governo, mas começa a desconfiar quando o Palácio dos Bandeirantes parece novamente trampolim para o Planalto. Ao mesmo tempo, a ala bolsonarista sente cheiro de ambição e reage com hostilidade. Ambição presidencial somada à acusação de traição é uma combinação explosiva.

Por ora, nada muda formalmente. As pesquisas seguem favoráveis, os partidos seguem alinhados e o governo segue funcionando. Mas a temperatura subiu. A água já está no fogo, e Tarcísio precisa decidir qual é o seu próprio ponto de fervura.

Insistir em duas narrativas pode custar caro. Escolher São Paulo e comunicar isso com clareza pode garantir a reeleição. Flertar com Brasília e romper com Bolsonaro pode deixá-lo à deriva — rejeitado por uns, desconfiado por outros.

2026 será o ano da escolha. E, na política, quem demora demais para escolher o rumo costuma naufragar.

A realidade se impõe


Divulgação/PMC

Se nos dois primeiros anos Tarcísio de Freitas nadou de braçada na região de Campinas, 2025 marcou o primeiro momento de perda de ritmo. O entusiasmo inicial deu lugar à cobrança — não por ideologia, mas por resultado. Os dois principais projetos estaduais simplesmente não avançaram como prometido, e isso começa a pesar politicamente onde antes havia apenas boa vontade.

O primeiro caso é emblemático: o Hospital Metropolitano de Campinas. A proposta, convém lembrar, era combatida com veemência por Tarcísio no início do mandato. O discurso mudou no meio do ano passado, após entendimento entre a Secretaria Estadual de Saúde e os prefeitos da Região Metropolitana. O hospital passou de problema a solução anunciada — com direito a uma estranha promessa de edital ainda em 2025.

Não aconteceu. E não aconteceu por razões que qualquer gestor minimamente experiente já conhecia: entraves técnicos, estudos pendentes, burocracia inevitável. Quem prometeu não fui eu. Foi o próprio governo, que deveria saber que o prazo era praticamente impossível de cumprir. O resultado foi previsível: frustração política e expectativa represada em uma região que já sofre historicamente com gargalos na saúde.

O segundo ponto de desgaste é a duplicação da Rodovia Miguel Melhado Campos (SP-324). Em janeiro do ano passado, Tarcísio veio a Campinas e assegurou que o drama das desapropriações estava resolvido (e não estava). Mais do que isso: cravou prazos, prometendo conclusão ainda em 2025 — parte em setembro, parte em dezembro.

O que se vê hoje é canteiro permanente e discurso oficial de que “falta 1%”. Um número mágico que desperta lembranças incômodas. Em Campinas, os eternos 5% das obras do BRT, durante a gestão de Jonas Donizette (PSB), só foram finalizados no primeiro ano do segundo mandato de Dário Saadi (Republicanos). Percentuais residuais costumam esconder problemas bem maiores do que admitem.

Como se não bastasse, Tarcísio decidiu entrar em uma batalha política da qual saiu derrotado. O pacote de concessões e “modernização” das rodovias estaduais veio acompanhado de uma proliferação de pedágios, o que colocou o governo em rota de colisão com prefeitos e lideranças regionais. Piracicaba, Americana e o Circuito das Águas — com Amparo assumindo protagonismo — reagiram com força.

Toda vez que era questionado, o governador subia o tom. Defendia a lógica do “sem pedágio, sem melhoria”, quase como uma ameaça institucionalizada. Perdeu a narrativa. A população não comprou o argumento, os prefeitos não recuaram e o governo foi obrigado a voltar atrás e anunciar novos estudos. Uma derrota política clara, rara até então em seu governo.

Nada disso transforma 2025 em um ano desastroso para Tarcísio. Mas quebra a aura de infalibilidade. Campinas e região deixam de ser plateia complacente e passam a atuar como termômetro político. Obras que não andam, editais que não saem e discursos que não convencem cobram preço justamente onde o governador construiu parte de sua força.

Se o Palácio dos Bandeirantes ainda parece confortável, na região de Campinas o crédito começa a ser consumido. E há uma diferença fundamental entre nadar de braçada e manter fôlego quando a correnteza muda.