A crise no Cidadania de Campinas atingiu seu ponto máximo neste fim de semana, culminando com a intervenção da executiva estadual e a destituição completa do diretório municipal. O ato, assinado pelo deputado federal Alex Manente, presidente estadual da legenda, foi publicado na sexta-feira (17) e faz referência direta à coluna publicada no Portal Sampi Campinas em 16 de outubro, que detalhou o embate entre o vereador Vini Oliveira e a direção local do partido.
O Ato nº 03/2025 da Presidência Estadual do Cidadania-SP cita a reportagem “A relação partida entre Vini e o Cidadania” como um dos elementos que evidenciaram a ruptura interna e as “condutas contrárias à harmonia e à coerência política da legenda”. No documento, Manente afirma que as divergências públicas e a condução da executiva municipal sob a presidência de Ana Stela Alves de Lima “causaram prejuízo à imagem do partido e comprometem sua legitimidade em Campinas”.
A medida dissolveu formalmente a direção municipal e instituiu um regime de intervenção provisória, até a formação de uma nova comissão provisória municipal, que representará o partido enquanto a instância local é reorganizada.
O episódio que precipitou a intervenção começou no plenário da Câmara Municipal de Campinas, quando Vini Oliveira, único vereador do Cidadania na cidade, fez um duro discurso contra o diretório municipal. O estopim foi a aprovação de uma moção de apoio à vereadora Mariana Conti (PSOL) pela participação na Flotilha Global Sumud, missão humanitária à Faixa de Gaza.
Vini classificou a moção como “um ato de exposição ao ridículo” e ironizou a ação humanitária, chamando-a de “flotilha do mundo de Nárnia”. O vereador também denunciou ter sido excluído do Congresso Municipal da legenda, onde a moção foi aprovada, e acusou a direção local de tentar antecipar uma federação com o PSB, partido do ex-prefeito Jonas Donizette e do vice-prefeito Wandão, ambos presentes no evento.
“Quando o diretório do meu partido realizou um congresso, sequer fui convidado. Fui o único vereador eleito pelo Cidadania e o mais votado do partido no Brasil. Lamentável ver o partido apoiar uma flotilha sem sentido, expondo esta legenda ao constrangimento público”, afirmou Vini na tribuna.
Horas depois, a executiva municipal do Cidadania reagiu com uma nota dura, negando as acusações e afirmando que o parlamentar “foi convidado e se ausentou das atividades partidárias”. A então presidente Ana Stela disse que o partido “sempre valorizou o diálogo e a pluralidade, mas que era preciso coerência com os princípios humanitários e democráticos que orientam a legenda”.
A disputa, que começou como uma divergência política, rapidamente ganhou contornos de crise institucional, com a direção estadual se movimentando para preservar a unidade do partido e “restabelecer a ordem estatutária”, segundo o documento de intervenção.
Com a decisão da executiva estadual, Ana Stela Alves de Lima e toda a antiga direção estão oficialmente destituídas. A presidência estadual deve nomear, nos próximos dias, uma nova comissão provisória para conduzir o partido em Campinas.
Nos bastidores, a intervenção é vista como uma vitória política de Vini Oliveira, que havia antecipado em seu discurso que “providências seriam tomadas e os humilhados seriam exaltados”.
O desfecho marca a implosão completa do Cidadania campineiro, que em menos de uma semana passou de palco de um congresso municipal com figuras de destaque político a caso de intervenção partidária, com direito a repercussão estadual.
Divulgação
A ex-presidente do diretório municipal do Cidadania em Campinas, Ana Stela Alves de Lima, rompeu o silêncio após a intervenção da executiva estadual que dissolveu a direção local do partido e instaurou uma comissão provisória. Em entrevista exclusiva, ela afirmou que a decisão do deputado federal Alex Manente, presidente estadual da legenda, foi precipitada e “não será aceita passivamente”.
Segundo Ana Stela, a medida foi tomada sem diálogo e reflete uma disputa interna que ultrapassa os limites de Campinas. “Não foi muita surpresa, porque o deputado Alex Manente foi convidado, confirmou presença no congresso municipal e, de última hora, não veio. O vereador Vini também foi convidado, mas disse que não participaria porque não queria encontrar os dois deputados”, relatou.
Para a ex-dirigente, a intervenção está relacionada a resistências dentro do partido à aproximação com o PSB, legenda com a qual o Cidadania mantém tratativas para formação de uma federação nacional. “Essa questão não é de Campinas, é nacional. Alguém não quer que a gente faça uma federação com o PSB, que é uma tratativa com o aval da Direção Nacional. Talvez isso não esteja agradando alguns aí. Essa é a questão de fundo dessa história”, afirmou.
Ana Stela, que integra a Executiva Nacional do Cidadania, disse ter redigido um documento contestando o ato do diretório estadual e encaminhado à direção nacional. “O argumento utilizado é totalmente frágil, de que o vereador não foi convidado. Isso é muito frágil. Já fiz um documento e postei na Direção Nacional. O deputado Alex Manente disse que fará constar dos autos”, declarou.
Ela acrescentou que o presidente nacional está de férias e deve convocar uma reunião assim que retornar ao Brasil para discutir o episódio. “Nós não vamos aceitar isso”, enfatizou.
Ana Stela foi direta ao avaliar a postura do vereador Vini Oliveira, cuja denúncia à executiva estadual motivou a intervenção. “O vereador Vini veio para o Cidadania, eu acho que de forma desavisada. Talvez não tenha visto o partido onde estava se filiando. Pela imaturidade, talvez, não sabia”, disse.
A ex-presidente afirmou que as atitudes do parlamentar, marcado por discursos duros contra adversários e críticas públicas à Unicamp e à vereadora Mariana Conti (PSOL), não representam os valores do partido. “O Cidadania é um partido humanista, democrático, pautado por projetos e propostas. O vereador Vini é fruto das redes sociais. Ele se move conforme o que dá engajamento. Atacar o Unicamp, atacar a vereadora que foi a Gaza, não cabe dentro do Cidadania. Não é possível”, criticou.
Ela classificou o comportamento do parlamentar como “incompatível com o espírito do partido”. “Político ruim e oportunista pode caber em outros lugares, mas nós não vamos aceitar isso. Ele é um jovem, a gente queria tanto que desse certo, mas ele não vai dar certo com a gente. Essa história de ser refém de rede social é muito ruim, ruim para a humanidade. As pessoas que estão ali fazendo festa para qualquer coisa que se diga não têm o dever de governar, mas o vereador tem”, completou.
Durante a entrevista, Ana Stela também comentou a situação do deputado estadual Rafa Zimbaldi, outro nome de peso do partido na cidade. Segundo ela, o parlamentar deve deixar o Cidadania em breve e migrar para o União Brasil, sigla da qual é o presidente provisório do diretório municipal.
“O Rafa veio para o Cidadania trazido pela direção estadual. Isso criou alguma confusão, porque nós éramos aliados do governo Dário. Mas ele cumpriu 99% do que combinamos. É um homem decente, um político decente, que eu tenho que respeitar. Ele ainda está afiliado no Cidadania por uma questão de não colocar o mandato em risco, mas não vai ficar. Nós já sabemos disso”, afirmou.
Ana Stela disse manter respeito pessoal e político por Zimbaldi, destacando que a relação foi conduzida com lealdade. “Temos divergências ideológicas, mas, do ponto de vista pessoal, tenho muito apreço pelo deputado”, concluiu.
Divulgação/PMC
A Secretaria de Educação de Campinas vive mais um episódio que reforça a sensação de desorganização e perda de controle administrativo dentro da pasta. Menos de uma semana após uma troca repentina de comando – Patrícia Adolf Lutz assumiu no lugar de José Tadeu Jorge -, a área enfrenta agora a suspensão de uma licitação de R$ 61 milhões para a compra de kits escolares destinados ao ano letivo de 2026.
A decisão do Tribunal de Contas do Estado (TCE-SP) reacende um problema recorrente. Não é a primeira vez que o setor enfrenta embaraços desse tipo. No início deste ano, a entrega dos uniformes escolares também atrasou após questionamentos do próprio TCE. Agora, o tribunal volta a agir preventivamente, desta vez com críticas à suposta falta de planejamento e à estrutura do edital para aquisição dos materiais escolares.
O contrato previa fornecimento contínuo de kits até 2030, com a possibilidade de vigência de até 10 anos, algo que o TCE classificou como excessivo. Entre os outros pontos apontados estão a ausência de comprovação técnica das empresas participantes, prazos impraticáveis para entrega de amostras e critérios técnicos vagos, que dificultam a avaliação objetiva das propostas. Em suma: erros primários em uma licitação milionária.
A Prefeitura, em nota, argumenta que a compra plurianual está prevista na nova Lei de Licitações (14.133/2021) e que o modelo traria economia e previsibilidade. É um argumento jurídico possível, mas insuficiente para explicar falhas que parecem ser tão básicas no edital.
E diante de mais um imbróglio, impossível não correlacionar. A troca na chefia da Secretaria de Educação na semana passada, feita de forma discreta e sem grandes explicações, agora parece mais sintomática. A nova gestão herda uma pasta que acumula problemas de execução, críticas sobre transparência e atrasos, justamente em um setor sensível para a imagem de qualquer governo.
O TCE deu 10 dias para que a Prefeitura preste esclarecimentos. A suspensão do processo às vésperas da abertura das propostas transmite a sensação de improviso e expõe novamente a estrutura responsável pela maior rede de ensino do interior paulista. Aluno que erra tantas vezes é reprovado.
Reprodução/CPTM
Depois de anos de promessas e adiamentos, o Trem Intercidades (TIC) entre Campinas e São Paulo começa, enfim, a dar os primeiros passos concretos rumo à execução. O governo do Estado publicou nesta segunda-feira a resolução nº 62 da Secretaria de Parcerias em Investimentos, autorizando a concessionária TIC Trens a iniciar o processo de desapropriação de imóveis e terrenos necessários para a implantação do projeto.
São 23 áreas distribuídas entre Campinas, Valinhos, Vinhedo, Louveira e Jundiaí, totalizando 77 mil metros quadrados que serão destinados à instalação dos trilhos, rede aérea e demais estruturas da via permanente. A autorização tem caráter de urgência, o que permite acelerar as etapas de indenização e liberação dos terrenos.
A medida representa o primeiro movimento físico efetivo de um projeto que há muito habita o imaginário paulista. A ligação ferroviária de passageiros entre o interior e a capital é debatida há mais de duas décadas, atravessando governos –(28 anos com um mesmo partido) — todos prometendo e nenhum entregando.
A expectativa agora é que, com o avanço das sondagens de campo e levantamentos topográficos, o empreendimento finalmente ganhe ritmo. O cronograma prevê que o trecho inicial, Campinas–São Paulo, opere com trens a 140 km/h de velocidade média, podendo atingir 160 km/h. A viagem entre as duas cidades deve durar pouco mais de uma hora, com trens equipados com assentos reclináveis, bagageiros e serviço de bordo, num formato que se aproxima do padrão europeu.
Paralelamente, será implantado o Trem Intermetropolitano (TIM), que ligará Jundiaí, Louveira, Vinhedo, Valinhos e Campinas, funcionando como uma extensão da Linha 7–Rubi da CPTM. Essa integração é considerada essencial para garantir demanda e sustentabilidade financeira ao projeto, além de reduzir a dependência das rodovias Anhanguera e Bandeirantes — corredores hoje saturados.
Ainda que o início das desapropriações seja um marco, há um ceticismo compreensível na população e entre especialistas. O TIC é um projeto de altíssimo custo e complexidade técnica, que depende de múltiplas instâncias — jurídicas, ambientais, financeiras e urbanísticas. A história recente do Estado é repleta de grandes anúncios que empacaram justamente nas fases intermediárias, quando as dificuldades burocráticas e orçamentárias se impuseram.
Mesmo assim, o atual avanço tem peso simbólico. É a primeira vez que o Trem Intercidades deixa de ser apenas uma promessa e se transforma em um processo administrativo em andamento.
O desafio de agora é manter o cronograma e evitar que o trem que há décadas o paulista espera continue apenas na estação da retórica política.