O mandato acabou, mas a guerra de Vini Oliveira está longe de terminar. Logo após se tornar o primeiro vereador cassado pelo plenário da Câmara de Campinas, o agora ex-parlamentar transformou suas redes sociais numa espécie de contra-ataque permanente. Três vereadores aparecem neste momento no centro da ofensiva: Otto Alejandro (PL), Nelson Hossri (PSD) e Higor Diego (Republicanos). São histórias diferentes, acusações diferentes e relações políticas diferentes. Mas existe um elemento comum: todos votaram pela cassação de Vini.
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Otto era o alvo mais previsível. A relação entre os dois já era péssima muito antes de o vereador do PL ser sorteado relator da Comissão Processante e se deteriorou definitivamente durante o processo. Depois de perder o mandato por 23 votos a 5, Vini acusou Otto de ter pedido R$ 1 milhão para produzir um relatório que lhe fosse favorável. Disse possuir conversas, áudios e provas, mas não apresentou publicamente esse material naquele momento. Otto negou a acusação, classificou a reação como um “ato de desespero” e afirmou que levaria o caso à Justiça.
A ofensiva, porém, não parou no relator. Vini voltou suas baterias também contra Higor Diego e Nelson Hossri, recuperando episódios que já circularam na política campineira e acrescentando novas acusações. Contra Higor, voltou a divulgar o vídeo no qual o mesmo empresário ligado à Smile Transportes aparece em uma conversa telefônica, no viva-voz, com o vereador. O material já havia provocado um pedido de Comissão Processante contra Higor, posteriormente rejeitado pelo plenário. Higor Diego é a principal aposta do Quarto Andar na disputa por uma vaga de deputado estadual e tem apoio de quase toda a base governista. A comparação que Vini tenta estabelecer é evidente: se sua relação com personagens da empresa de transporte foi considerada suficientemente grave para retirar seu mandato, por que um episódio envolvendo o mesmo ambiente empresarial teve destino político diferente?
É uma pergunta politicamente incômoda para a Câmara, embora os dois casos não possam ser automaticamente tratados como equivalentes apenas porque compartilham personagens. Conteúdo, circunstâncias, condutas atribuídas a cada parlamentar e provas disponíveis precisam ser analisados separadamente. Mas existe agora um problema institucional que já apontávamos imediatamente depois da cassação: a Câmara estabeleceu uma régua extremamente alta de decoro ao retirar pela primeira vez o mandato de um vereador. Daqui para frente, inevitavelmente será cobrada para explicar por que situações aparentemente semelhantes merecem tratamentos tão diferentes.

Divulgação/CMC
Com Nelson Hossri, a ofensiva ganhou contornos ainda mais graves. Vini divulgou nas redes sociais trecho de um áudio que atribui ao vereador e que trataria de uma forma de “lavar dinheiro” envolvendo emendas impositivas. Também publicou o depoimento de uma mulher apresentada como suposta vítima de importunação sexual atribuída a Hossri. São acusações seríssimas e, justamente por isso, não podem ser transformadas em fatos consumados apenas porque apareceram nas redes sociais de Vini. Precisam ser formalizadas, investigadas e submetidas ao contraditório. Hossri reagiu e, assim como Otto, anunciou o registro de boletim de ocorrência contra o ex-vereador.
A história entre Vini e Hossri, aliás, é antiga e cheia de idas e vindas. Nelson foi relator da primeira Comissão Processante aberta contra Vini e também se tornou alvo de ataques do então vereador. Depois que aquela CP terminou pelo arquivamento, a temperatura entre os dois diminuiu. A trégua, pelo visto, acabou junto com o mandato.
Mas há um componente de bastidor que ajuda a compreender por que Hossri e Higor parecem ter entrado com tanta força no radar de Vini justamente agora.
Segundo uma fonte ligada ao ambiente político, Vini trabalhava com a expectativa de que os dois não estivessem presentes no julgamento de quarta-feira. Eles compareceram. E votaram pela cassação.

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A matemática torna essa informação especialmente interessante.
Vini perdeu o mandato por 23 votos. Precisava que a cassação parasse em 21. Sem os votos de Higor Diego e Nelson Hossri, seriam exatamente 21 votos pela perda do mandato — número insuficiente para cassá-lo. Evidentemente, isso não permite afirmar que a atual ofensiva seja uma vingança especificamente por esses dois votos. Vini não declarou publicamente essa motivação e a informação sobre sua expectativa de ausência pertence ao terreno dos bastidores. Mas a coincidência política é impossível de ignorar.
Talvez esteja aí o verdadeiro aftershock da sessão histórica de quarta-feira.
Vini deixou a Câmara, mas parece decidido, em plena campanha para deputado estadual, a fazer com que alguns dos que permaneceram nela - e adversários na corrida pela Assembleia - também tenham de dar explicações. E a estratégia possui duas faces. De um lado, existe claramente o comportamento de um político recém-cassado que procura demonstrar que foi tratado com uma severidade que outros vereadores não receberam. De outro, a condição de cassado não transforma automaticamente em falsas as denúncias que ele apresenta.
É justamente por isso que Vini também assume uma responsabilidade enorme. Depois da votação, afirmou possuir “coisa de todo mundo” na Câmara e disse ter conversas, áudios e outros elementos contra parlamentares. Se realmente possui provas de crimes ou irregularidades, não basta editar vídeos, publicar cortes nas redes sociais ou utilizá-los como munição numa guerra política. Deve entregar o material integral às autoridades competentes e permitir que seja periciado, contextualizado e investigado. O mesmo vale para a gravíssima acusação de R$ 1 milhão contra Otto. Porque existe uma diferença gigantesca entre denunciar e insinuar.
Para Vini, chegou a hora de provar. Para a Câmara, chegou a hora de demonstrar que a régua utilizada para cassá-lo não tinha o nome do vereador gravado nela.
O julgamento terminou na quarta-feira. O aftershock, pelo visto, está apenas começando.
Liminar
A ofensiva de Vini Oliveira nas redes sociais depois da cassação já produziu uma primeira reação judicial. Nelson Hossri (PSD) afirmou ter obtido uma liminar determinando que o ex-vereador retire imediatamente do ar o vídeo com acusações contra ele, sob pena de multa diária de R$ 1 mil em caso de descumprimento.
É um capítulo importante do que comentamos acima. Vini passou a concentrar ataques em Otto Alejandro (PL), Higor Diego (Republicanos) e Hossri depois de perder o mandato. No caso do vereador do PSD, publicou, entre outros conteúdos, o depoimento de uma mulher que atribui a Hossri uma suposta importunação sexual. A existência da liminar não resolve o mérito das acusações, mas estabelece uma primeira barreira judicial à estratégia de exposição adotada pelo ex-vereador.
Hossri também contestou diretamente a autenticidade e a coerência do material divulgado. À coluna, classificou o vídeo como “fake” e apontou o que considera inconsistências. Disse que utiliza uma conta comercial que não dispõe de chamada de vídeo e questionou o relato de que teria telefonado 16 vezes para a mulher. Também chamou atenção para a cronologia apresentada nos supostos registros de conversa: segundo ele, embora o episódio seja situado em março, as imagens exibiriam seu logotipo de campanha e número eleitoral em um período no qual, afirma, ainda não tinha legenda nem número definidos.
Em tom irônico, Hossri resumiu a contestação perguntando “que print ‘Mãe Diná’ é esse?”. O vereador já havia anunciado o registro de boletim de ocorrência contra Vini e agora parte também para a reação judicial.
Câmara envia cassação TRE

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A Câmara de Campinas encaminhou ao Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo (TRE-SP) toda a documentação relacionada ao processo que terminou com a cassação do mandato de Vini Oliveira (Cidadania). O material foi enviado na tarde desta quinta-feira (10) à Presidência do tribunal e também às sete zonas eleitorais de Campinas.
Foram remetidos o arquivo da denúncia que deu origem à Comissão Processante, relatórios, documentos, votações, decisões e demais informações produzidas ao longo do processo. A comunicação tem como base os artigos 5º e 7º do Decreto-Lei Federal nº 201/1967, que trata da perda de mandato de vereadores e dos procedimentos posteriores à decisão do Legislativo.
O envio ao TRE-SP é um novo desdobramento formal da cassação aprovada pelo plenário da Câmara na quarta-feira (9), por 23 votos a 5. Vini perdeu o mandato após ser considerado responsável por quebra de decoro parlamentar no processo relacionado à sua atuação envolvendo a empresa Smile Transportes durante a discussão sobre o transporte coletivo de Campinas.
Além da Presidência do TRE-SP, a Câmara informou que o material foi encaminhado às zonas eleitorais 33, 274, 275, 378, 379, 380 e 423, todas com atuação em Campinas.
A remessa dos documentos é relevante também porque a cassação de um mandato parlamentar pode produzir reflexos na esfera eleitoral. Vini havia obtido o deferimento de sua candidatura a deputado estadual nas eleições de 2026 antes da decisão da Câmara, e eventual impacto sobre essa candidatura dependerá da análise da Justiça Eleitoral no caso concreto.
Com a documentação agora oficialmente enviada, caberá ao TRE-SP avaliar os efeitos eleitorais decorrentes da perda do mandato.
Enquanto isso, a Câmara já avançou na substituição da cadeira e convocou Tak Chung Wu, primeiro suplente da Federação PSDB/Cidadania, para assumir o mandato. Tak tem prazo de dez dias para tomar posse.
- Flávio Paradella é jornalista, radialista e podcaster. Sua coluna é publicada no Portal Sampi Campinas aos sábados pela manhã, com atualizações às terças e quintas-feiras. E-mail para contato com o colunista: paradella@sampi.net.br