A sessão extraordinária do Conselho Universitário da Unicamp (Consu), realizada nesta terça-feira (2), teve mais de quatro horas de debate e terminou com a retirada de pauta da proposta de autarquização da área da saúde — eixo central do projeto de expansão acadêmica da Universidade. O tema será retomado na próxima reunião extraordinária, marcada para 16 de dezembro.
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A decisão foi tomada após a maioria dos conselheiros defender que a proposta, por envolver mudanças profundas na estrutura administrativa, precisa de mais tempo de análise. O reitor Paulo Cesar Montagner, ao seguir o regimento e retirar o item, afirmou respeitar a posição do plenário e reiterou que a intenção da reitoria ao colocar o tema em debate é buscar alternativas para melhorar o financiamento da Unicamp, além de garantir base para novos cursos, novas vagas e expansão acadêmica.
“Conseguimos colocar o financiamento da Universidade e da área da saúde como prioridades para nossa comunidade”, afirmou Montagner ao encerrar a sessão.
Críticas da esquerda: projeto vira disputa política
A discussão ganhou novos contornos nas últimas semanas com a reação de movimentos e organizações políticas de esquerda, que passaram a classificar a autarquização como uma forma de “privatização” da saúde da Unicamp.
A vereadora Mariana Conti (PSOL) e o ex-deputado federal e presidente do PT em Campinas, Pedro Tourinho, fizeram críticas públicas à proposta, afirmando que o novo formato pode fragilizar o caráter público do atendimento e abrir brechas para mudanças futuras na gestão do complexo hospitalar.
"Tarcísio (de Freitas) e a Reitoria da Unicamp querem privatizar o HC da Unicamp e toda a área de saúde (...) Seguiremos lutando contra esse projeto e em defesa do ensino de qualidade e do saúde pública de qualidade para a população", afirmou Mariana.
"O HC cumpre um papel fundamental de atendimento em saúde de qualidade para a nossa região e de todo o estado. O cuidado nesse processo é para proteger o direito universal à saúde, o desenvolvimento científico e tecnológico e a formação de excelência que são oferecidos pela Unicamp", disse Tourinho.
Como funcionaria o novo modelo
Pelo projeto, a área da saúde passaria a ser vinculada à Secretaria Estadual da Saúde para fins de orçamento e gestão administrativa, mas continuaria ligada à Unicamp no ensino, na formação de estudantes e na pesquisa. O atendimento seguiria 100% voltado ao Sistema Único de Saúde (SUS).
A autarquia proposta seria batizada de Hospital de Clínicas da Unicamp (HC-Unicamp), reunindo oito órgãos, entre eles o Hospital de Clínicas, o Caism e demais estruturas assistenciais. O modelo seguiria experiências já existentes nas Faculdades de Medicina da USP e da Unesp.
A estrutura do HC-Unicamp teria uma presidência, um conselho deliberativo com nove membros — incluindo representantes da FCM, das faculdades de Enfermagem, Ciências Farmacêuticas, Odontologia e servidores — além de diretorias técnicas e administrativas.
O plano de expansão até 2036
O projeto prevê um crescimento robusto ao longo de pouco mais de uma década:
- novos cursos de graduação e pós-graduação,
- 11,5 mil estudantes adicionais,
- mais de 2 mil contratações, sendo 614 novos docentes e 1.390 servidores,
- investimentos em prédios, laboratórios e salas de aula.
Segundo a reitoria, esses avanços seriam possíveis graças ao alívio progressivo no orçamento da Universidade, já que a Secretaria da Saúde assumiria de forma escalonada o custeio das unidades assistenciais.
Debate segue aberto
Desde setembro, a proposta vem sendo discutida com diretores, docentes, servidores e estudantes, após o sinal verde do Governo do Estado para iniciar os estudos. Ao longo de novembro e início de dezembro, a reitoria apresentou o projeto em diversas reuniões, complementando o debate originado do relatório do Grupo de Trabalho (GT) que estruturou a proposta.
Para 2025, o custo da área da saúde no orçamento da Unicamp deve chegar a R$ 1,1 bilhão, valor que reforça o peso financeiro do setor e alimenta o debate sobre alternativas de sustentabilidade.
O tema volta à pauta no dia 16 de dezembro, quando o Consu deve retomar a análise, agora em meio a um debate ampliado por pressões políticas internas e externas.